Sábado
Diante do Romeu e Julieta que os
noticiários me resgataram para a infância, sufoco. Reconheço a canção. Desconcertado,
sinto a perplexidade. Há um dedo de covardia e uma pitada de repulsa. Lembro amarguras
que vivi, e ainda me intoxicam.
Perplexo? Sou presa involuntária da
ansiedade que toma conta das aflições e me conduz de olhos abertos por onde nem
vejo. Neste apagão, emerge-me da memória o que fiz. O surto é vigoroso, mas não
é pânico.
Nos últimos anos, de 2013 para cá, o
bicho tem mostrado as garras e roçado as presas na minha carne despreparada
para o abate. Por isso, ando um tanto angustiado, meio depressivo, querendo sair
voando sem vassoura.
Mas a Terra é azul.
A vida, esta trama à vista de todos, cega
todo mundo. De tal sorte que dor, sofrimento, medo e angústia, alegria e felicidade,
empatia e simpatia acabam por tornar invisível essa realidade que temos bem
diante do nariz: nós mesmos.
Confesso um pragmatismo vacilante, incorporo-o.
Sem ele, a rua de Paris em que os carros ardem haveria de tornar-se a paralela
à rua onde vivo, moro e estou domiciliado. Mas não, o fogo de Paris não queima
as pestanas; meu sono, sim.
Tolero em mim a existência melancólica?
À insônia da ânsia escapam-me indiscrições.
Atravesso a madrugada, certo de que na
calçada do outro lado o mendigo que me observou saindo do banco vai seguir lúcido.
Àquele que traz nas roupas a limpeza, todavia, falta-lhe a dignidade do caráter.
Esta pessoa opaca e vazia: eu.
A aurora vem. Não peço por ousadia, coragem
e intrepidez. Isca da morte a querer fugir do destino, caço no ar a panaceia,
mas a desculpa me escapa. Sei, a dignidade é para os fortes.
Não durmo, pois todo paraíso me põe a
sós comigo.
Aí, gostaria de ter visto o Deus das
Goiabeiras descer para o bar. Amigo do dono, do cachorro famélico e da moça da foto,
ele beberia três copos de tubaína Vichi sem fazer careta. A sua mão deixaria de
tremer. A sua barriga voltaria a trabalhar. Sem juízo, a vida seria sempre
domingo. O Guarani X Treze de Maio dos melhores dias.
Adeus tubaína. Tchau goiabeiras.
Minha miséria não conhece mais os domingos
dessa Ibiúna.
O suor do meu rosto não esgota, cansa.
As rugas comem os segundos, as horas, semanas, décadas. Escuto a minha vida.
Se tem uma saída?
No xeque-mate sem bispo, sigo sendo a
vítima na imolação que executo.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 18 de dezembro de
2018.









