quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Boca de urna





Boca de urna

VAI ACABAR, VAI ACABAR / ESSA MANIA DE ROUBAR.
1992 – MASP. Tal palavra de ordem entra, escolhe um lugar para ficar e continua aí. Muito além dos meus ouvidos.
Não me lembrava. Mas algo mais pinta da memória.
Somos uma nação ou uma cloaca?
Com a pergunta, Otto Lara Resende encerrava crônica do dia 26 de agosto de 1992 publicada na Folha de São Paulo, cuja manchete deixava explícito que o povo brasileiro queria o impeachment do Collor.
Minha cara, por certo, era de quem tinha ido à manifestação trabalhar. Andava precisado de um frila, até do Notícias Populares. E tinha vindo a pé da estação Paraíso.
Tempos difíceis aqueles.
2018 – Largo da Batata. Os pedestres me encaram.
Juan Arias, no El País/Brasil, informa que 23 milhões dos eleitores não têm o ensino fundamental e 30 milhões correram do ensino médio. E, segundo o jornalista, quem mal consegue ler um livro por ano juntou-se a “milionários que pagam menos impostos que os pobres”. Daí que muitos deles estão entre os 46,03% ou 49.276.990 que, no primeiro turno, votaram no Bolsonaro.
Em 1992, num “Comunicado à Nação”, os ministros de Collor assumiram o compromisso de que a crise política encontraria “o seu desfecho natural na órbita da Constituição e das instituições democráticas”.
Em 2018, Jair Bolsonaro e seus futuros ministros querem nova constituição elaborada por “notáveis” e ameaçam com autogolpe caso reine a anarquia. Mas, o que é anarquia?
Em 1992, os jovens, de 16 a 25 anos, que foram às ruas, eles, hoje, estão na faixa de 42 a 51 anos.  E têm histórias para não esquecer. A indignação com o Mensalão de 2005, o desastre do governo Dilma, as manifestações de 2013...
Não esquecem. E não foram ouvidos.
Agora os filhos daqueles estudantes que pediam decência e vergonha na cara, os muitos que escorraçaram os partidos das ruas nas jornadas de cinco anos atrás, são eles que gritam nas urnas o nome daquele que diz entender o sentimento de quem nunca foi ouvido.
1992 – MASP: “1, 2, 3, 4, 5 mil / o bolso do meu pai não é o Banco do Brasil”.
2018 – INTERNET. Com carta branca para a polícia, o Jair adverte que é hora de acabar com os ativismos no Brasil.
Contudo, essa gritaria não torna surda a minha fome pela democracia. E tenho insaciável esta boca. Para alimentá-la regularmente, não tolero nem aceito que me impeçam de votar e de escolher em quem votar.

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, 11 de outubro de 2018.











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