quinta-feira, 14 de setembro de 2017

humor negro sem canção

às chamas do deslumbramento,
bilhões de indivíduos erguem aos céus o planeta.

às tramas do enraizamento,
milhões de corpos sustentam um mundo.

às ramas do encastelamento,
milhares de homens chamam pelas terras.

às sanhas do encarceramento,
centenas de nomes instalam o circo no quintal.

às manhas do entendimento,
dezenas de olhos chegam a sete palmos do palhaço.

coroando o tratamento,
nem um diz: tal justiça, tal poética.



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

ponto futuro

em pleno jogo,
ocupa-se o homem, faz planos,
são tantas as preocupações, trabalha tanto:
custam-lhe domingos as caipirinhas de vodca
e a janelinha do feriado.

na estrada, falta o azul,
sobram urubus, e histerias, tortura-o
escalar a areia, a mais assanhada,
tortuosamente as ossadas pegam-no
pela baba, no ronco:
beijada pela água-viva, a felicidade
põe na carne uma atrocidade,
quimiotaxicamente abissal.

a bola do gol contra queima fundo,
e, regurgitado, o regresso ao desterro
tira os pontos do copo, expulsa a sunga,
impõe a derrota em casa: a chuva amarela,
na tentativa de resgatar-se pelo fígado.



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

o cadáver

pouco se lhe dá a tampa do vaso levantada
não vai dizer qual a cor daquela água
nem vai ter nojo, ou mágoa

e vai olhar debaixo da cama
arma-se contra a ratoeira articulada

examina o guarda-roupa de menina
verifica o vestido de noiva
nota que estão sobrando os véus
e repara o rústico da guirlanda

não dá a mínima pras michas da miséria
se puxadas as cortinas, abertas as janelas
ou se está longe de afrouxada a corda

inacabando a escultura
por que deveria ignorar os ossos bem-dispostos?



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

sábado, 9 de setembro de 2017

espantamento

encantaram o corpo
ainda esparramando os espantos

vieram por vias obscuras
deram com as veias abertas dos ouvidos
vindo do fundo do rio à falta de mar

materializando-se um axioma
sem a languidez de um beijo friccional
sem a cupidez dos fogachos espontâneos

pela tangente da sazão da âncora
pela combustão da traça voraz
pra fora das fotos da família

já agora um postulado
não marca mais a mão o que o comoveria
outro número ao poder da mente

com um boa-noite em piscadelas
empapa-se nos degredos da vida



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

nos cascos

despindo-se, entra no papel
ao evadir-se dos dizeres;
e tantos são os seus dizeres.

sabe ter-se por limite,
mas não quer saber do papel,
uma fala estudada por querer.

tal postura: entra a evadir-se.

quer dar vida à personagem
que não busca, ao desviver-se.

e segue sem tal personagem,
porque sabe que não a persegue.

quando em cada ato, ajeita-se,
faz mímica que lhe escape:
uma vida fácil.

tão fácil, tão breve.



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

o tesouro

querem um mapa
pessoas compromissadas a procurar
há quem demonstre maior empenho
querem evidências desse desempenho

essa gente a querer o mapa
e quem quer porque quer
essa gente tão empenhada
perde-se do sol ao sol

os que cheiram a sal
os soldados ao sal
entorpecidos na areia
querem errar pela razão

uns empedernidos!

o mar acaba onde começa
escapa por uma concha



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

outra foto

trem danado de gente
gira contra o relógio a orgia da noite no dia

vê-se a avenida pelos extremos
aqui o sal enobrece os mendigos
lá o palco vulgariza as pulgas
vê-se a avenida
começa nas quimeras da química

vê-se a avenida pelas pontas
lá a boca embitucada no apagado
aqui a embocadura encenada do aceso
vê-se a avenida
termina nos terminais dos neurônios

vê-se a avenida
esse trem danado na gente



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

terça-feira, 5 de setembro de 2017

contradança

a luta da cerâmica contra o molde,
a serventia às cinzas da cruz,
seja o sangue que borbulha,
à têmpora da água, urna.

luta esvaziada pelo cálculo,
se alienada, cuspida ao efêmero,
a cada dia, vivo e múltiplo,
vaso pra encher, moringa.

o combate, porque é combate,
põe a morte em vida, olhos fechados,
barro manipulado, queimado,
porque luta, por mais fogo,
e menos saliva.



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

ossário da recomposição

eis os caninos patéticos
que alham as pontas de agulha,
que crucifixam os seios bronzeados,
que energizam a prata dos lábios,
por uma inocência atroz.

eis a neblina no alto da colina,
eis as harpias do crepúsculo,
e não faltam aos peregrinos
o sangue sem crédito.

com ar de palavra desesperada,
absumida nas irreflexões,
emergida no sem-fim da pintura,
a coruja da noite não pousa
no corte certo,
desmontando a trama toda.



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

domingo, 3 de setembro de 2017

regalo

o chão batido
quando escapa pelo café:
entra pelo arroz sem sal,
entra pela batata sem sal.

envidadas pela videira,
comprimem as galinhas
o quintal.

quintal comprimido
a cercar-se de farpas,
chuchus a condimentar
a língua, de saudade.

no colo da avó, cisca
a nostalgia, o universo
temperado, encarnado
rancho da infância.



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

sábado, 2 de setembro de 2017

razão noturna

as mãos temperando
o que sente, sabe-se
pelos dedos, pão abocanhado.

algumas migalhas, algemas
do salário, sabe-se a suor
do sovado, da farinha nos ovos.

pelas mãos, sabe-se
no sentido, esboça-o agonfo,
quando as mãos têm fome
e o estômago, sono.

por mais que se esforce,
na dispensa da noite,
não come os próprios dedos
nem dorme.



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

olhos de mar

nascido nas borrascas, o menino
maquina seus velames, pés conjurados
a andar sobre a língua, domando-a
às tormentas.

perdido das rimas, sangue pronunciado,
sua língua atravessa a nado
o espanto, o mordido.

trazido à escrita do sol:
lanterna ancorada, ilegível,
se as letras adoram o aroma de alguma dor.

os coqueiros da enseada:
por que ainda sonha, menino?



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

O desenho do enigma


domingo, 26 de março de 2017


o extra do ordinário

lá vem aquele poeta

alguém poderia vê-lo um palhaço triste
alguém teria a impressão

como palhaço triste
sua tristeza porque resiste

sua resistência no carinho das crianças
principalmente das crianças

palhaço que resiste
sua resistência ao riso do intolerável
o riso rinoceronte do intolerante

e alguém o removeria com a maquiagem
indo além da tristeza
indo com esse palhaço desesperado

desesperadamente triste

triste palhaço desesperado
seu desespero de porcelana chinesa
não se pode bulir
nem se pode a cosquinha da unha
a finura o bonito do dragão
o inefável o frágil
sua beleza de gente grande no mundo de criança
e ele querendo aventura
querendo encantamentos de dragão

assim de passagem
sem saber desse passado

aquele poeta vai lá


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)


sábado, 25 de março de 2017


contramão

não faço poesia
como quem ouve nos versos
a música de todo dia

não faço poesia
como quem vê nos versos
a miragem de todo dia

não faço poesia
como quem inscreve nos versos
o pensamento de todo dia

faço poemas
ao silêncio de quem me ouve
à escuridão de quem me encontra
ao vazio de quem me entende


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)


quinta-feira, 23 de março de 2017


vampirismo

a manhã é um túmulo
havia sangue nos dedos
os dedos no braço
um morto na agulha

o túmulo é uma manchete
haveria outra saída
a saída pelo sangue
um corpo à dose

a manhã nem fora a dose seguinte
o túmulo nem fora uma notícia

espelho é ausência


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)



quarta-feira, 22 de março de 2017


à contraluz

há quem veja o alvo no imundo
há quem veja o mundo em alvoroço
mas mesmo no poço mais fundo
há também o fundo do poço



(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)

terça-feira, 21 de março de 2017


o imaginário do poeta

queria traduzir seus atos em palavras
queria trazer para si o sentido
queria induzir-nos ao infinito
queria tudo isso

mas cometeu um etc


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)





segunda-feira, 20 de março de 2017



melindrado

não sou de esperar pelas respostas represadas
ou caminhar meus ossos sobre as formigas
faço festa sozinho

e sei o fogo sinto o cheiro vejo a chama
faço farra com quem queira

crianças sozinhas não perturbam

amigo
não sou de responder a chamados noturnos
ou morrer de medo normalmente

respiração ofegante não desmata a minha mente

o afogado temente à água?
o tremido na mágica de um afago?
nada!

olho penso digo

mamã, há holandas debaixo d’água!



(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)

sábado, 18 de março de 2017


pirapora

o barco eram crianças
era estranho o poente

naquele odor tudo era esquisito
as narinas ancoravam a náusea

peixes boiando nas nuvens
entre outros farrapos flutuantes

o banco de areia submerso na espuma?

esse incerto caís
a memória


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)