segunda-feira, 11 de setembro de 2017

o cadáver

pouco se lhe dá a tampa do vaso levantada
não vai dizer qual a cor daquela água
nem vai ter nojo, ou mágoa

e vai olhar debaixo da cama
arma-se contra a ratoeira articulada

examina o guarda-roupa de menina
verifica o vestido de noiva
nota que estão sobrando os véus
e repara o rústico da guirlanda

não dá a mínima pras michas da miséria
se puxadas as cortinas, abertas as janelas
ou se está longe de afrouxada a corda

inacabando a escultura
por que deveria ignorar os ossos bem-dispostos?



(rodrigues da silveira. in: o desenho do enigma, 2017)

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