Faz sol, mas está frio. A alvorada não
desmente as previsões, que o dia amanheceria com temperatura baixa. Nove graus
lá fora, trinta e seis dentro dele. Faz sol, está frio, mas nem por isso Olegário
deixa de ir de sunguinha à academia, como sói vestir-se nos dias em que vai à
piscina da academia.
Faz sol, mas está frio. A alvorada
garante outro dia em que Olegário sequer cogita de faltar aos exercícios na
piscina da academia, pois é vero que a hidroginástica fá-lo-á sentir-se bem,
com disposição, fá-lo-á crer-se afável, com aborrecimentos à parte.
Com o sentimento de doar-se com
afabilidade às pessoas, Olegário sequer cogita de pensar que as pessoas têm
obrigação de agradecê-lo por seu desprendimento, na sua fraternidade à gente
tão simpática, por esta gente tão atenta que Olegário sequer cogita de dispensar-se
da hidroginástica três vezes na semana para que o sangue permaneça nos trinta e
seis graus, até porque a alvorada nem ousou desmentir as previsões de que os
aborrecimentos não falhariam.
Com o sentimento de ser uma pessoa
acolhida pela generosidade dos amigos, Olegário encara a cidade há sessenta
anos, nem por isso ele cogita de desconfiar dessas mulheres que o convidam para
um chá depois da hidroginástica, embora elas nunca o convidem para feijoada,
caipirosca e mazurcas chopinianas num sábado.
Uma vez que as mulheres da academia
nunca o convidam para um sabadão de caipiroscas depois de um cineminha,
Olegário, de segunda a segunda, vai à missa da aurora, às seis em ponto, que é
para esperar aquela viuvinha nos seus trinta e seis anos, cuja charmosa viuvez saiu
outro dia no jornal, depois do sétimo dia do passamento do esposo.
Uma vez que a viuvinha de trinta e seis
anos fá-lo sentir-se solidário, o homem dentro dele não teme uma caipirosca,
portanto, assim que a missa acabar, ele ficará à entrada da igreja, esperará
que ela saia, pois Olegário a convidará pruma pizza de atum, pois atum e vodca
dão um par perfeito, ou ele sequer cogitaria de convidá-la para uma
quinta-feira que poderá ser uma quinta-feira sensacional, não pela caipirosca,
não pela pizza de atum, não pela noite fria que a previsão diz que será, só
pela oportunidade de Olegário ser uma pessoa que sabe escutar o que uma viuvinha
de trinta e seis anos tem a dizer, pois Olegário é bastante fraterno para manter
a mente em trinta e seis graus.
Olegário a convidará para sentar-se, mas
não puxará a cadeira nem recusará dividir a conta, pois o homem repaginado que aprecia
os dias frios do outono não tem vergonha de ir de sunguinha à hidroginástica, conquanto
a viuvinha de trinta e seis anos nem pretenda entusiasmá-lo com suas elegâncias.
Olegário, meu lindo, você é outro
coitado a confiar que o fio da vida enovela-se de tal monta para que o seu
objeto de desejo tanto o alegre de haver-se um amor numa sunguinha.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de junho de 2025.