quinta-feira, 22 de maio de 2025

Soberba humildade

 

Soberba humildade

 

Era no tempo do rei; na corte, entre damas e cavalheiros, vivia uma pessoa a quem lhe destinaram o poder de falar sem medo; a ninguém, todavia, ocorreu que à pessoa autorizada a falar sem medo ocorresse de ter medo de não ter nada para falar ou, pior, falar besteira.

Houve esse dia, constrangedor, de olhar sem ter palavras pra dizer o que fervilhava na alma, com as formigas da aflição devorando esse cadáver, a sua sombra, pois ela, neste instante revelador, tão somente fazia sombra de si.

O rei, a rainha, o príncipe, os cortesãos, os alcoviteiros, as amantes, os amantes, os palpiteiros, eles todos pegaram temer essa pessoa que podia tagarelar, temeram-na porque deu de não refutar à vontade nem mesmo os elogios que iam sendo ditos, espalhados e confirmados pelo silêncio, com esse viés perturbador.

Como era previsível, a pessoa que tinha o poder de falar sem papas na língua começou a ler longe dos outros, pegou gosto de passar horas lendo onde as gentes sequer a imaginavam estar.

Por óbvio, logo que houve a confirmação de que não era boato, que realmente a pessoa que poderia falar o que bem quisesse encontrava-se neste estágio de isolamento, foram à biblioteca, ela não estava, no telhado, também não, no jardim, nem um fio de cabelo foi encontrado, no caramanchão a quatro passos do riachinho, necas.

Para abreviar o suspense, o príncipe intuiu que a pessoa que podia falar o que quisesse bem que podia estar largadona na sua cama.

O rei, a rainha e o pajem que torcia para o príncipe nunquinha virar rei bateram à porta de onde se julgava estivesse quem que se revelava ser a pessoa mais bem preparada do reino para esconder-se de bocas e olhares da referida matilha. Quem podia falar como bem achasse ser o seu dever de falar, contudo, não estava no seu quarto.

Sem detença, o rei, a rainha e o pajem do príncipe foram ao jardim pedir esclarecimentos ao rapaz que nunquinha haveria de sentar-se no trono do pai.

Fora do labirinto, deram com o herdeiro e um rapazote, cujos braços doíam pelo tanto de pratos que houvera arremessado ao alto.

O filho estava chumbadinho, pois, a cada vez que um tiro resultava certeiro, ele celebrava com bicadinhas na birita.

― Príncipe, a pessoa que tem o direito e o dever de dizer a verdade não estava no seu quarto, sendo falsa a afirmação de vossa graça.

Bastante alegrinho pra não ter medo do pai, da mãe e da patota que tanto o estimava quando sóbrio, plácido e faceiro, o principezinho riu-se do equívoco, porque a pessoa que possuía o direito de ler onde bem quisesse estava no seu quarto, dele, do flagelo dos pratos.

Bateram na porta do príncipe, mas bateram em vão.

O rei ordenou que abrissem a porta.

Aberta a porta, viu-se que a pessoa que devia falar a verdade, nada mais que a verdade usava luvas de tricô.

Resgatada do silêncio, disse:

“Será possível que a gente nem pode ler?”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de maio de 2025.


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