terça-feira, 10 de junho de 2025

O pirralho Manuel

 

O pirralho Manuel

 

Houve um tempo em que o velho tinha apenas cinco anos, era uma infância simples porque as suas vontades eram irrealizáveis.

Não poderia ter um pônei, uma vez que, sem que a gente soubesse os motivos dele atacar, o bicho escoiceava. Ficava proibido de nadar no rio, pois do lado de lá vivia uma gente que vendia carvão de árvore queimada. Também estava impedido de jogar bola, pois a garotada da bola era herdeira de gente que assava carnes, não pizzas.

Pra dor na espinhela, dor nas ancas, dor nos pés, um homem gritou que tinha garrafadas. Com os gritos, aquela revoada de pombos trouxe à lembrança os dias que não ficariam melhores se tirados do passado, porque o esquecido merece permanecer esquecido quando os pombos arrevoam.

O velho estava de costas para a rua, sentado sozinho, bebendo de gole em gole, sem apertar o nariz porque fosse amarga a beberagem; bebericava devagar porque apreciava, que não era nenhuma poção de poderes trágicos, era tão somente um suco.

Mexendo com o canudinho de quando em quando, o velho bebia o suco; sem ninguém nas mesas próximas, não queria papear nem com os retratos na parede do fundo da lanchonete.

Se reconhecesse alguém, também poderia ser reconhecido, porque teve cinco anos, aqueles cinco anos que a revoada dos pombos os fez renascidos.

Se fosse reconhecido, sairia. Pra não negar a dor, pra não sucumbir ao peso da angústia, deixaria de beber aquele suco, sairia. Não fugiria da conta nem do remorso.

Se tivesse pedido leite, sofreria um bocado, só um gole provocaria estrago, o azedaria pelo resto do dia, o perturbaria, não iria se desfazer do pavor, apenas pra senti-lo como um pavor a ser desfeito.

A vizinha nunca soube e por ele, ao menos, nunca haveria de saber que naquele dia, quando ele tinha cinco anos, ela não soube que não foi ele quem arrumou aquilo à porta da cozinha.

A mulher que enfartou ao dar com as três velas acesas nunca soube que tinha sido outro menino, um que gostava de chutar bola.

O mal não se esgota enquanto uma criança gargalha, tampouco se arrefece enquanto ela sorri, porque nem o riso nem a alegria retratam a perversidade de quem pouco se sabe ingênuo, inocente, na meninice dos cinco anos, que gente má também pode ter cinco anos.

A vizinha enfartada não viu as Três Marias, ela viu uma vela preta, uma vermelha e uma branca. Ela não sabia que a morte pudesse ser repentina, abrupta e dolorosa, que o seu peito iria doer de tal modo que o seu olhar quedaria baço e, estranhamente, seus olhos cegariam.

Às vezes, assombra que tudo seja tão súbito.

Como explicar que um menino poderia atentar contra outra criança? Como esquecer que um pirralho de cinco anos acusaria outro menino? Por escafeder-se, perdoaria àquele fedelho?

Aqueloutro não queria a dor, mas agora este Manuel, de costas pros pombos revoando, deseja suco de manga feito com leite.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de junho de 2025.

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