Ontem perdi a hora. Parece que demorei
dormir. Deve ser isso, que eu tenha perdido a hora de ir trabalhar porque o
sono demorou-se a vir que acabei desistindo da rotina.
Porque ontem foi um dia difícil, pelo
tanto de problemas que deixei sem solução, pelo tanto de idiotices que nem
escolhi em deixar pra lá, mas fui deixando, fui pedindo que sumissem no ar.
Que o ar sempre vire brisa, não me
azougue que nem gotejamento que não para, não passa, uma vez que isso é assim
para que a gente enlouqueça ou perca as estribeiras.
Pouco a pouco, gota após gota, sopro a
sopro, o ar faz ruídos para camuflar, para que eu perceba mas sinta que me
esquivo do percebido, pois tenho a impressão que as gotas têm mensagem.
Não perdi o sono tentando decifrar o que
a brisa tentava dizer-me, quis achar o que era preciso pra melhor captar o que
o ar da noite dizia; sem que achasse difícil de traduzir, quis organizar o
pensamento para achar o que era preciso pra me fazer entendido, até sem palavras.
Eis o ar, as gotas, os caixilhos da
janela batendo, o mundo, não há palavras sussurradas vindas de um bicho, que desejo
entendê-las.
Não levantei no escuro, inventei que
tinha aquele inseto no quarto, que era uma barata roendo a sacola. Inventei que
era preciso matá-la, para que a noite não fosse uma noitada de infortúnios.
Bastava que o dia tivesse sido aziago, não
queria uma noite de sons bizarros, que acabasse sendo uma travessia cruel, a
conduzir à aurora que não chegará do jeito que podia ser, porque, noturna e estranha,
a noite que se instalou em mim era o ar, essa brisa era uma barata.
E o dia juntou acontecimentos, os
eventos assorearam-me a alma, os fatos teriam de ser pesados, precisavam de mim
que os avaliasse, isso para, amanhã, a memória ter apagados os fortuitos.
Hoje eu tinha estabelecido que começaria
meu empenho em correr maratonas, mas ontem, por acaso, teve um bicho a roer coisas.
Os meus nervos acharam que era uma
barata roendo sacolinha de supermercado, mas não guardo sacolinhas de plástico
no quarto.
Se fosse barata, por que não levantei? Se
fosse para matar aquela barata, por que deitei de lado, sabendo que teria pesadelos?
Se fosse para roer o plástico da sacola, por que não fui às compras? Por que
não sou aquela barata que não para de roer mesmo a madrugada estando fria?
Sou uma sacola sendo roída.
Que a brisa seja interrompida. Que a
barata fique saciada de tanto morder plástico. Que a brisa leve a sacola,
faça-a sumir. Que a aurora venha quando for chegada a hora de vir.
Como não levantei, não vi se havia
barata, se havia sacola, se meus pés sentiriam o piso frio do quarto.
Ontem foi um dia estranhíssimo, ciclistas
quase me atropelaram na calçada, cães latiram sem que houvesse motivo, o botijão
acabou sem que tivesse leite fervido e café passado na hora.
Ainda assim, baratinha, fiz o meu
desjejum.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de junho de 2025.
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