Conversam sobre viagens ― fulano diz que
prefere alugar carro pra fazer como bem entende o roteiro planejado; para
conhecê-lo o mais que possa, beltrano viaja pelo Brasil; já sicrano saiu-se com
essa:
― Uma vez fui a Salvador, mas eu não tive
nenhum medo de andar de alemão.
Por ser pessoa retraída, sequer cogitou
a retratação.
Se soubesse a que o levaria aquela
fleuma, provavelmente teria ido à lanchonete descalço, teria parado para
pensar, pensaria nos efeitos, teria recolocado o tênis, teria tirado as meias
encharcadas, teria ficado na lanchonete, teria evitado zanzar na chuva, na
calçada, teria evitado pisar nas poças, evitaria chapinhar as poças da calçada.
Se soubesse que o tomariam por abobado, certamente
teria ficado em casa, o contentaria ver tevê, em ler as últimas postagens, em
curtir as fotografias daquela gente que viraliza sorrisos.
Ao se sentir ansioso, deriva por escassa
sensatez.
Se contasse que a chuva faz tossir, já
que chovendo o frio aumenta, teria vestido uma blusa, teria vindo de botas,
teria saído a fim de achar umas galochas, teria entrado nas lojas, até que
achasse aquelas botas de pescador, um macacão que suba aos sovacos.
Se ligasse pro frio, não ficaria de
meias molhadas, tiraria as meias, não ficaria zanzando em frente da lanchonete,
indo à esquina, não iria de novo à esquina, até calçaria os tênis, mas eles
sumiram, não estão mais onde estavam, que estavam debaixo da mesa.
Mas não quer sair para comprar outro
par.
Se soubesse que é pouco usual roubar de
volta o que lhe pertence, não teria comido aquela porção de fritas, teria
tomado quatro latinhas a menos de guaraná, teria grana para resgatar o tênis,
teria falado pro ladrão que compraria de volta o par que surrupiara.
Se fosse menos fracote, apanharia menos,
teria a coragem que lhe falta, impressionaria quem tenha afanado o tênis, teria
impressionado quem sabe ser truculento, saberia ser valentão, teria vencido sem
nem mostrar muque, cara de mau, o sorrisinho do diabo.
Mas chovia, fazia frio, as meias estavam
frias, molhadas, precisava comprar outras meias ou outro tênis, não a sombrinha
do Pateta.
Se ficasse bravo quando o chamam de
idiota, pensaria em sair atrás do chapeuzinho com hélice no cocuruto, teria ido
atrás do chapeuzinho da hélice que roda quando venta, provavelmente teria
parado de fazer bola de chiclete nem ficaria estourando tais bolas.
Se pensasse que o melhor pra si era ter
ficado vendo tevê, teria ido descalço à lanchonete, exibiria as unhas, todo
mundo teria sabido que precisava cortar as unhas, principalmente mostraria a
nova tatuagem que tem no pé, porque o tempo é tripartite, a tatuagem tem
gaivota pro passado, pro presente e para o passado que virá.
Mas as meias ensopadas diminuem o
atrito, tanto o diminuem que, patinando até cair, ele voa baixo na lanchonete.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de maio de 2025.
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