terça-feira, 20 de maio de 2025

Asas de açúcar

 

Asas de açúcar

 

Conversam sobre viagens ― fulano diz que prefere alugar carro pra fazer como bem entende o roteiro planejado; para conhecê-lo o mais que possa, beltrano viaja pelo Brasil; já sicrano saiu-se com essa:

― Uma vez fui a Salvador, mas eu não tive nenhum medo de andar de alemão.

Por ser pessoa retraída, sequer cogitou a retratação.

Se soubesse a que o levaria aquela fleuma, provavelmente teria ido à lanchonete descalço, teria parado para pensar, pensaria nos efeitos, teria recolocado o tênis, teria tirado as meias encharcadas, teria ficado na lanchonete, teria evitado zanzar na chuva, na calçada, teria evitado pisar nas poças, evitaria chapinhar as poças da calçada.

Se soubesse que o tomariam por abobado, certamente teria ficado em casa, o contentaria ver tevê, em ler as últimas postagens, em curtir as fotografias daquela gente que viraliza sorrisos.

Ao se sentir ansioso, deriva por escassa sensatez.

Se contasse que a chuva faz tossir, já que chovendo o frio aumenta, teria vestido uma blusa, teria vindo de botas, teria saído a fim de achar umas galochas, teria entrado nas lojas, até que achasse aquelas botas de pescador, um macacão que suba aos sovacos.

Se ligasse pro frio, não ficaria de meias molhadas, tiraria as meias, não ficaria zanzando em frente da lanchonete, indo à esquina, não iria de novo à esquina, até calçaria os tênis, mas eles sumiram, não estão mais onde estavam, que estavam debaixo da mesa.

Mas não quer sair para comprar outro par.

Se soubesse que é pouco usual roubar de volta o que lhe pertence, não teria comido aquela porção de fritas, teria tomado quatro latinhas a menos de guaraná, teria grana para resgatar o tênis, teria falado pro ladrão que compraria de volta o par que surrupiara.

Se fosse menos fracote, apanharia menos, teria a coragem que lhe falta, impressionaria quem tenha afanado o tênis, teria impressionado quem sabe ser truculento, saberia ser valentão, teria vencido sem nem mostrar muque, cara de mau, o sorrisinho do diabo.

Mas chovia, fazia frio, as meias estavam frias, molhadas, precisava comprar outras meias ou outro tênis, não a sombrinha do Pateta.

Se ficasse bravo quando o chamam de idiota, pensaria em sair atrás do chapeuzinho com hélice no cocuruto, teria ido atrás do chapeuzinho da hélice que roda quando venta, provavelmente teria parado de fazer bola de chiclete nem ficaria estourando tais bolas.

Se pensasse que o melhor pra si era ter ficado vendo tevê, teria ido descalço à lanchonete, exibiria as unhas, todo mundo teria sabido que precisava cortar as unhas, principalmente mostraria a nova tatuagem que tem no pé, porque o tempo é tripartite, a tatuagem tem gaivota pro passado, pro presente e para o passado que virá.

Mas as meias ensopadas diminuem o atrito, tanto o diminuem que, patinando até cair, ele voa baixo na lanchonete.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de maio de 2025.

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