terça-feira, 27 de maio de 2025

Os seis desejos do mundo

 

Os seis desejos do mundo

 

Quando o mundo quer ver-me irritado, basta que dispare o alarme do carro que, pela altura e pela proximidade, só tem que ser do vizinho; ele segue disparado, tocando por cinco minutos, parando outros cinco e voltando a tocar por cinco minutos; é sério que seja uma provocação, isso de tocar, parar e voltar a tocar, assim por diante; então eu levanto, vou à janela, grito que o vizinho venha dar jeito naquilo; então eu grito, chamo o vizinho, ele vem ao carro, tenta desligar o alarme, mas minha irritação avança; chamo-lhe parvo, enfatizo que se quer um parvo, mas é minha a parvoíce, pois o carro de alarme fanfarrão é meu.

Quando o mundo quer o meu vizinho contra mim, só preciso ser eu mesmo, mas na versão endiabrada; daí emendo uma mentira na outra, retomo, altero, cismo dos detalhes, brinco com o que havia contado; o que meu cérebro percebe é o que corrijo, porém falar, desdizer, falar e desdizer, tal método, cuja finalidade é o convencimento de que eu falo a verdade, acaba irritando o vizinho; porque a bicicleta não foi roubada, eu a peguei porque tinha pressa de ir e voltar da farmácia, mas a minha dor de cabeça tinha solução fácil que bastava eu fosse rápido, portanto achei melhor não falar nada; fui e voltei da padaria para ganhar tempo, para não injuriar o vizinho, dono da bicicleta, pai da menina que usa a bicicleta, pois eu não tinha a intenção de puxar briga; eu queria apenas comer um pãozinho com peito de peru.

Quando o mundo quer que me iluda, toco a campainha do vizinho, soco a porta; bebo da latinha, torno a tocar a campainha, bato na porta com a mão espalmada; sei que a campainha não está alta o suficiente, esmurro a porta; tem gente em casa; está com vergonha de vir à porta depois de eu ter apertado a campainha o suficiente pra que saia e deixe que pegue emprestado seu cachorro, pois o pitbull impõe respeito, não fica atrás de pastor, e o novo vizinho vai ter que correr pra dentro.

Quando o mundo quer compensar-me, no meu caminho aparece a pedra, nela não darei uma bicuda; não testarei o dedão e não quebrarei o para-brisa do carro do vizinho que acabou de mudar-se; não estarei possesso o bastante pra furar pneu de carro recém-chegado; sei o que é preciso para que seja mantida a ordem na vizinhança.

Quando o mundo me quer um palhaço, aparece um cachorro com segundas intenções; aproveito o sinal vermelho e corro, mas olho para trás, me desequilibro e caio; já não há cão e já não quero voltar, porque enfrentei o medo de ser mordido pelo chihuahua; me levanto, mostro o dedo do meio aos motoristas que buzinam, buzinam, buzinam, porque não tenho medo de manter firme o meu dedo do meio.

Quando o mundo quer que eu erga um muro que me esconda, deito na rede, bebo guaraná, como pipoca e espero que o mundo passe; que ele há de passar, e não assobiarei; serei respeitoso, mesmo que passe a caminho do lar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de maio de 2025.

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