quinta-feira, 29 de maio de 2025

Inimigo secreto

 

Inimigo secreto

 

Juro por deus que não é mentira, juro que não vou inventar alguma lambança, juro que não quero desviar o foco, porque a vida é sonho e não preciso forçar a barra para acordar, nem mesmo acordarei quem não tem pesadelo do qual precise ser despertado.

Se eu pretendesse desviar a atenção da minha vida prosaica, reles e enfadonha, poderia mostrar o quanto me falta imaginação, ainda que suponha estar dando conta, eu erro feio na autoavaliação.

Eu poderia dizer que Flamarion e Arinelson são irmãos, e primos de Asclépio, diria também que Atanagildo e Claudiomiro são amigos, sem parentesco com Mariazinha, que entrou na história porque emprestou quatrocentos reais pro Arinelson, que foi roubado pelo caolho chamado Francinildo, que por sua vez foi roubado por um rapaz que passava de bicicleta e foi-se embora levando a grana que seria usada por Arinelson pra quitar a dívida que tem com Claudiomiro, que tinha dito ao devedor que a dívida tinha que ser paga antes do dia cinco porque o pagamento da dívida estava atrasado e quem virá resolver a questão (do jeito que tiver de ser) será um sujeito ruim como o diabo, chamado Francinildo, que, enquanto mina a resistência da gente dando socos no abdômen, sabe fumar o seu cigarrinho sem jogar a fumaça na fuça de quem ele precisa socar no abdômen.

Até agora, fizemos bem em deixar Asclépio de fora desse imbróglio, pois há décadas não se tem notícia desse primo do Arinelson, embora tenha gente que diga que ele vive em Minas, nalguma vila, num rincão que fica perto de Mariana, mas não damos como precisa a informação, embora vinda de terceiros que gostam de galinha à cabidela.

Aceitamos a verdade que uma fofoca finge não trazer na superfície, como não torço pescoços nem coleto sangue, conto o que sei sobre o que vou contando, conto o que acredito saber sobre o que acho que estou contando, posso agir como um terceiro nesse causo em que não entram Flamarions, Arinelsons, Atanagildos, Claudiomiros e Mariinhas, permitindo a entrada do Francinildo, pois a sua presença dá essa paúra de questionar se conseguirei aflorar em mim o astucioso, esse farsante que mostra a cara quando estou boquiaberto, certo de que não saberei trazer à tona o que minha cara sonha que eu não veja, eu não perceba e não sinta que as identifico, essa paúra e essa cara de cobarde, pois, ao identificar-me com esse sujeito no espelho, então, sou esse crápula, viro esse Francinildo avexado de ver-se em mim.

De soslaio, dou uma olhadinha. Olho fingindo que não quero olhar, espio. Dou outra espiada, apenas pra me certificar do que vejo, apenas pelo desejo de ver-me, embora eu tenha vergonha, tenha medo.

Posto ser desagradável haver-me caviloso, o que preciso fazer para não me estarrecer é raspar a cabeça.

Pro espelho não criar desdita alguma, caracoles!, vou comprar um aparelho de barbear.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de maio de 2025.

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