domingo, 25 de maio de 2025

Bololô sentimental

 

Bololô sentimental

 

De chofre, ao ser convidado, aceitei tomar café. Uma vez que gosto de mantê-la entre as pessoas amigas, entre aquelas a que não resisto em tratá-las bem, pois, sim, irei à casa de Dona Cremilda, mas eu não a tratarei a pão de ló, desfrutaremos de um bolo de cenoura.

Ainda que o mundo siga sendo esse reino atulhado de reis, fortaleza com mil crocodilos no fosso, siga erigindo-se em alcova com segredos retidos pelo selo dos cem anos, pois, sim, lá eu irei despido da empáfia, do anseio de exibir-me galante, não irei dado a censuras nem movido a injúrias de salão.

Farto das astúcias e por sabe aonde vou, irei leve, sem pretensões de equacionar os dilemas do mundo, porque não irei ao mundo, estarei à mesa posta por esta minha amiga dileta.

Por não ir ao mundo como se estivesse pronto para as batalhas em que sempre sou derrotado, já que ignoro de quais armas não disponho e de que jeito manejar apropriadamente as que possuo, irei desarmado ter com Dona Cremilda.

Primeiro, irei sentar-me sem focar em sentir-me bem apesar do que seja, ou porque precisarei recusar os biscoitos por causa dos açúcares adicionados ou por conta da acidez da crítica aos balões de ensaio da trupe econômica de Brasília.

Segundo, quero agir com a naturalidade da pessoa amiga que não se acha eleita a desempenhar o papel de pessoa amiga, uma vez que sei ser o amigo que não diz apenas o que se espera que diga o amigo, direi o que penso, reafirmarei minhas opiniões e serei amigável mesmo ao me contrapor àquilo que soe ofensivo.

No sábado, que é o dia para o qual estou convidado a ir, prometo a mim mesmo que acordarei bem, tomarei banho sem reclamar do vento, beberei café sem um dedo de açúcar, comerei pão sem manteiga, farei o que posso pra me manter tranquilo, lógico e simpático, farei com que tudo contribua para o meu melhor estado de espírito, porque serei essa pessoa a estar bem consigo.

Ainda que seja sábado, dia em que escolheria nem pôr o nariz fora de casa pelo tanto de tarefas que adiei durante a semana, farei de mim essa pessoa a confrontar-se, pelo convite.

Não esconderei e não pretenderei esconder que, saciado de bolo e satisfeito por divertir-me o papo furado, tenho esse efeito colateral: não evito me revelar que sou um camarada sentimental.

Comover-me-á ter a boca livre dos farelos. Os pelos da nuca ficarão eriçados assim que reconheça um abraço sem malícia. Sem vergonha alguma, darei beijinhos e vou, mesmo, querer selinhos.

Certo de que as pessoas não se apresentarão como sincronizadas ao que vigora, terei o bom senso de comer bolo sem pôr os cotovelos na mesa, beberei suco de maracujá com as colheres de açúcar que o adocem e, ainda que nem saiba o que a maioria pensa, falarei a favor do que esteja posto em discussão, entrarei de cabeça no bololô.

Emocionado com esse sábado vindo, adiantarei minha decisão de que vou.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de maio de 2025.

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