De chofre, ao ser convidado, aceitei
tomar café. Uma vez que gosto de mantê-la entre as pessoas amigas, entre
aquelas a que não resisto em tratá-las bem, pois, sim, irei à casa de Dona Cremilda,
mas eu não a tratarei a pão de ló, desfrutaremos de um bolo de cenoura.
Ainda que o mundo siga sendo esse reino
atulhado de reis, fortaleza com mil crocodilos no fosso, siga erigindo-se em
alcova com segredos retidos pelo selo dos cem anos, pois, sim, lá eu irei
despido da empáfia, do anseio de exibir-me galante, não irei dado a censuras
nem movido a injúrias de salão.
Farto das astúcias e por sabe aonde vou,
irei leve, sem pretensões de equacionar os dilemas do mundo, porque não irei ao
mundo, estarei à mesa posta por esta minha amiga dileta.
Por não ir ao mundo como se estivesse pronto
para as batalhas em que sempre sou derrotado, já que ignoro de quais armas não disponho
e de que jeito manejar apropriadamente as que possuo, irei desarmado ter com Dona
Cremilda.
Primeiro, irei sentar-me sem focar em
sentir-me bem apesar do que seja, ou porque precisarei recusar os biscoitos por
causa dos açúcares adicionados ou por conta da acidez da crítica aos balões de
ensaio da trupe econômica de Brasília.
Segundo, quero agir com a naturalidade da
pessoa amiga que não se acha eleita a desempenhar o papel de pessoa amiga, uma
vez que sei ser o amigo que não diz apenas o que se espera que diga o amigo,
direi o que penso, reafirmarei minhas opiniões e serei amigável mesmo ao me contrapor
àquilo que soe ofensivo.
No sábado, que é o dia para o qual estou
convidado a ir, prometo a mim mesmo que acordarei bem, tomarei banho sem
reclamar do vento, beberei café sem um dedo de açúcar, comerei pão sem manteiga,
farei o que posso pra me manter tranquilo, lógico e simpático, farei com que
tudo contribua para o meu melhor estado de espírito, porque serei essa pessoa a
estar bem consigo.
Ainda que seja sábado, dia em que escolheria
nem pôr o nariz fora de casa pelo tanto de tarefas que adiei durante a semana, farei
de mim essa pessoa a confrontar-se, pelo convite.
Não esconderei e não pretenderei
esconder que, saciado de bolo e satisfeito por divertir-me o papo furado, tenho
esse efeito colateral: não evito me revelar que sou um camarada sentimental.
Comover-me-á ter a boca livre dos
farelos. Os pelos da nuca ficarão eriçados assim que reconheça um abraço sem
malícia. Sem vergonha alguma, darei beijinhos e vou, mesmo, querer selinhos.
Certo de que as pessoas não se apresentarão
como sincronizadas ao que vigora, terei o bom senso de comer bolo sem pôr os
cotovelos na mesa, beberei suco de maracujá com as colheres de açúcar que o
adocem e, ainda que nem saiba o que a maioria pensa, falarei a favor do que esteja
posto em discussão, entrarei de cabeça no bololô.
Emocionado com esse sábado vindo,
adiantarei minha decisão de que vou.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de maio de 2025.
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