quinta-feira, 12 de junho de 2025

Mente romântica

 

Mente romântica

 

Faz sol, mas está frio. A alvorada não desmente as previsões, que o dia amanheceria com temperatura baixa. Nove graus lá fora, trinta e seis dentro dele. Faz sol, está frio, mas nem por isso Olegário deixa de ir de sunguinha à academia, como sói vestir-se nos dias em que vai à piscina da academia.

Faz sol, mas está frio. A alvorada garante outro dia em que Olegário sequer cogita de faltar aos exercícios na piscina da academia, pois é vero que a hidroginástica fá-lo-á sentir-se bem, com disposição, fá-lo-á crer-se afável, com aborrecimentos à parte.

Com o sentimento de doar-se com afabilidade às pessoas, Olegário sequer cogita de pensar que as pessoas têm obrigação de agradecê-lo por seu desprendimento, na sua fraternidade à gente tão simpática, por esta gente tão atenta que Olegário sequer cogita de dispensar-se da hidroginástica três vezes na semana para que o sangue permaneça nos trinta e seis graus, até porque a alvorada nem ousou desmentir as previsões de que os aborrecimentos não falhariam.

Com o sentimento de ser uma pessoa acolhida pela generosidade dos amigos, Olegário encara a cidade há sessenta anos, nem por isso ele cogita de desconfiar dessas mulheres que o convidam para um chá depois da hidroginástica, embora elas nunca o convidem para feijoada, caipirosca e mazurcas chopinianas num sábado.

Uma vez que as mulheres da academia nunca o convidam para um sabadão de caipiroscas depois de um cineminha, Olegário, de segunda a segunda, vai à missa da aurora, às seis em ponto, que é para esperar aquela viuvinha nos seus trinta e seis anos, cuja charmosa viuvez saiu outro dia no jornal, depois do sétimo dia do passamento do esposo.

Uma vez que a viuvinha de trinta e seis anos fá-lo sentir-se solidário, o homem dentro dele não teme uma caipirosca, portanto, assim que a missa acabar, ele ficará à entrada da igreja, esperará que ela saia, pois Olegário a convidará pruma pizza de atum, pois atum e vodca dão um par perfeito, ou ele sequer cogitaria de convidá-la para uma quinta-feira que poderá ser uma quinta-feira sensacional, não pela caipirosca, não pela pizza de atum, não pela noite fria que a previsão diz que será, só pela oportunidade de Olegário ser uma pessoa que sabe escutar o que uma viuvinha de trinta e seis anos tem a dizer, pois Olegário é bastante fraterno para manter a mente em trinta e seis graus.

Olegário a convidará para sentar-se, mas não puxará a cadeira nem recusará dividir a conta, pois o homem repaginado que aprecia os dias frios do outono não tem vergonha de ir de sunguinha à hidroginástica, conquanto a viuvinha de trinta e seis anos nem pretenda entusiasmá-lo com suas elegâncias.

Olegário, meu lindo, você é outro coitado a confiar que o fio da vida enovela-se de tal monta para que o seu objeto de desejo tanto o alegre de haver-se um amor numa sunguinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de junho de 2025.

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