domingo, 8 de junho de 2025

Benditas águas

 

Benditas águas

 

Gosto de pescar, entretanto há meses não pesco. As circunstâncias da minha vida impedem-me de ir, mas não desanimo, acalento que irei à represa assim que surgir uma brecha. Pescarei sem sentir culpa por postergar o que seja incontornável, porque a cabeça precisa praticar o que ventila o pensamento. Pegarei do tempinho que há de ser pra mim, vou deixá-lo que me fisgue, sentarei na canoa que alugarei, escolherei a isca, verei o anzol afundar no espelho d’água, acharei bom, isso fará bem. À margem das frustrações, sem encasquetar, pescarei enquanto a minha bunda aguentar.

Ora, gostar de pescar não supõe ter tempo para isso.

Tanto falta esse sossego que, entre cafezinhos e becos sem saída, encarando o teto, vem à mente que estou de boné, a garoa não penetra a japona; sem ninguém a ditar o que precisa ser feito, o que tenho que fazer, é boa coisa ficar sozinho na canoa, no meio da represa; cercado de mansidão por todos os lados, sentindo a placidez, não preciso achar que controlo o trabalho dos pulmões; a cada vez que não penso no que sinto por estar no meio da represa, longe dos problemas, estar a tantos quilômetros dos boletos, das filas, do arroz com feijão sem refrigerante, é bom ficar longe do gás do refri; não ter que arrotar o gás é ótimo.

É óbvio que adoro pescar, tanto que não pesco faz um ano, porque o ano passa rápido; esse passou que mal percebi que o arroz e o feijão andaram vindo guarnecidos de repolho cozido, mal reparei na minha impaciência com gente que tem o costume de passar na frente de todo mundo, que este ano acumulado tinha feito bem ao meu sono; dormir bem me faz ir de carro à padaria; ainda que o farol do cruzamento viva quebrado, irei e voltarei sem arranhão algum.

Não preciso me enganar; isso de improvisar, essa sanha de arrumar uma pescaria pra ontem, a promessa que me fiz tem que ser lembrada justamente quando a vontade de respeitar-me é atacada por uma força que conhece os atalhos da minha cachola, mas prometi que iria pescar apenas quando eu não fizesse a pressão subir.

No último domingo do primeiro mês que estava sem pescar, quase quebrei a promessa, quase fui pescar porque todo domingo ia pescar, mas consegui me segurar, tanto foi que enchi a cara.

Veio o segundo mês, quase quebrei a rotina de tomar um porre sem querer tomá-lo, falei asneiras, furei a fila do caixa, comi uma porção de provolone, mal lembrei das pescarias que não fiz.

Dispenso pensar, pego o carro e vou à padaria; dispenso pensar na necessidade de estar perto das pessoas; que tenha gente falando sem parar, nem preciso da tevê ligada; ainda que não haja precisão de estar perto da TV, não me amofina a percepção dos estímulos do momento: recebo os perdigotos e reconheço os borborigmos.

A melhor pescaria que eu não fiz, neste ano, devo-a ao garçom da padaria, cuja neta vai sendo batizada nas águas da represa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de junho de 2025.

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