Gosto de pescar, entretanto há meses não
pesco. As circunstâncias da minha vida impedem-me de ir, mas não desanimo,
acalento que irei à represa assim que surgir uma brecha. Pescarei sem sentir
culpa por postergar o que seja incontornável, porque a cabeça precisa praticar
o que ventila o pensamento. Pegarei do tempinho que há de ser pra mim, vou deixá-lo
que me fisgue, sentarei na canoa que alugarei, escolherei a isca, verei o anzol
afundar no espelho d’água, acharei bom, isso fará bem. À margem das frustrações,
sem encasquetar, pescarei enquanto a minha bunda aguentar.
Ora, gostar de pescar não supõe ter
tempo para isso.
Tanto falta esse sossego que, entre
cafezinhos e becos sem saída, encarando o teto, vem à mente que estou de boné, a
garoa não penetra a japona; sem ninguém a ditar o que precisa ser feito, o que tenho
que fazer, é boa coisa ficar sozinho na canoa, no meio da represa; cercado de mansidão
por todos os lados, sentindo a placidez, não preciso achar que controlo o
trabalho dos pulmões; a cada vez que não penso no que sinto por estar no meio
da represa, longe dos problemas, estar a tantos quilômetros dos boletos, das
filas, do arroz com feijão sem refrigerante, é bom ficar longe do gás do refri;
não ter que arrotar o gás é ótimo.
É óbvio que adoro pescar, tanto que não
pesco faz um ano, porque o ano passa rápido; esse passou que mal percebi que o
arroz e o feijão andaram vindo guarnecidos de repolho cozido, mal reparei na
minha impaciência com gente que tem o costume de passar na frente de todo mundo,
que este ano acumulado tinha feito bem ao meu sono; dormir bem me faz ir de carro
à padaria; ainda que o farol do cruzamento viva quebrado, irei e voltarei sem arranhão
algum.
Não preciso me enganar; isso de
improvisar, essa sanha de arrumar uma pescaria pra ontem, a promessa que me fiz
tem que ser lembrada justamente quando a vontade de respeitar-me é atacada por
uma força que conhece os atalhos da minha cachola, mas prometi que iria pescar apenas
quando eu não fizesse a pressão subir.
No último domingo do primeiro mês que
estava sem pescar, quase quebrei a promessa, quase fui pescar porque todo
domingo ia pescar, mas consegui me segurar, tanto foi que enchi a cara.
Veio o segundo mês, quase quebrei a
rotina de tomar um porre sem querer tomá-lo, falei asneiras, furei a fila do
caixa, comi uma porção de provolone, mal lembrei das pescarias que não fiz.
Dispenso pensar, pego o carro e vou à
padaria; dispenso pensar na necessidade de estar perto das pessoas; que tenha
gente falando sem parar, nem preciso da tevê ligada; ainda que não haja
precisão de estar perto da TV, não me amofina a percepção dos estímulos do
momento: recebo os perdigotos e reconheço os borborigmos.
A melhor pescaria que eu não fiz, neste
ano, devo-a ao garçom da padaria, cuja neta vai sendo batizada nas águas da
represa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de junho de 2025.
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