quinta-feira, 5 de junho de 2025

Um passeio aleatório

 

Um passeio aleatório

 

A cidade está silenciosa. Desde que acordei, tenho ouvido um carro ou outro passar. Sim, de quando em quando, ouço vozes, vou à janela e vejo um rosto ou outro de gente conhecida.

Faz horas que acordei, mas o estalo só veio agora, pois foi só agora que percebi que o silêncio das ruas não é preocupante.

Não estou preocupado, pois não creio que as pessoas tenham sido abduzidas quando estavam dentro dos seus carros, prontas para pegar a estrada, para irem à praia ou passarem o dia na capital.

Abduções têm espalhafato, há luzes fortes, motores fazem barulhos esquisitos, surgem máquinas que têm formato de charuto, aí desce um raio, então, adeus vaquinhas, tchau tchau menina de maria-chiquinha, até mais ver guarda esbaforido.

Tal espécie de abdução costuma me assustar, obrigando a acordar e correr pro meio da rua, mas não moro no campo, meninas não usam maria-chiquinha nem policial faz ronda sozinho.

Com a realidade vigorando, a rua de casa revela-se esvaziada, sem a azáfama das pessoas que colaboram pra realidade seguir vigorando; mesmo eu, é real que não estou assombrado nem estressado.

Curioso, vou ver na folhinha que dia é hoje, se é uma data especial, mas a terça-feira da folhinha é um dia comum.

Ai caramba, esqueci que hoje o feriado é local.

Quero aproveitar o feriado, vou sair, eu caminharei sem rumo certo, zanzarei ao sabor dos olhos, das pernas, dos ouvidos, porque me darei o prazer de andar sem pressa, de vagar por aí porque me darei tempo, farei com que o dia me seja único, que este dia, sem nada de especial, quero que a mim ele se torne inesquecível.

Daqui a sei lá quantos anos, a memória surpreenderá, me lembrarei que gostei de vivê-lo, tanto que o recordarei, que este dia foi bom.

É feriado, que dia bom para fazer coisa errada. Quando faço coisas erradas, meu bem-estar aumenta. Quando quero aumentar meu apego à vida, menos quero dar ao mundo o espetáculo de sempre.

Sei que é errado agir como se o mundo enxergasse o quanto posso ser extraordinário. Sei que é certo esperar que me tratem como alguém fora dos padrões. Sei, sim, sou uma pessoa sem igual, só preciso que me permitam mostrar como posso ser de verdade.

Feriado existe para que a gente revele o quanto o mundo não nota o quanto é míope, portanto vou à rua, quero me mostrar sem medo.

Me anima querer aproveitar o dia ainda que peçam para descer da mangueira da praça, mas, só depois de ter chupado a manga que me fez subir pelos galhos, eu pulo.

Entusiasmam-me as águas, pulo da ponte, nado, boio, deixo que a correnteza me leve, mas o dono da casa manda que eu saia, que deixe a propriedade, eu aja com respeito, porque as suas filhas não precisam assistir à pessoa nadando como se o rio não estivesse frio o bastante pra fazê-la tiritar, suplicar pelas roupas secas que eu não peço.

Só porque está chovendo, precisa atiçar os cachorros?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de junho de 2025.

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