domingo, 1 de junho de 2025

Uma pitada de sal grosso

 

Uma pitada de sal grosso

 

Fazíamos churrasco porque era aniversário do meu pai. Depois de 365 dias, perfazendo quarenta e quatro anos de canastrice na imitação do Sol que tolera que a Terra o circunvague, não se apoquente de sua atuação risível, uma vez que nós prosseguiremos a surpreendê-lo com esses regalos regados a aldrabices, e picanha no alho, pois sabemos quão doloroso é doar-se a nós sem ficar numa nota dó, sim, apraz-nos o senhor produzir as quatro estações a nos unir no seu derredor.

Sem que ninguém tivesse pedido, e como costumo ficar perdido em reuniões festivas, fui ficar na frente de casa, recebendo os convidados, que, em sua maioria, eram parentes, e os nossos, ainda bem, não dão pelota pras minhas melancolias de rapazola mimadinho.

Gente de certa idade, embora (eles) sem entradas na testa e (elas) com madeixas rubras, os familiares não tinham frescurites. Chegavam fazendo fuzuê, falavam alto seus braços serelepes. Podiam ter vindo loucos pra tirar a latinha da minha mão sem fazer cafuné, ou seja, fiquei abrindo latinha a cada vez que vinha biruta bagunçar meu topete.

Tendo ânimo que faça ferver o sangue, ou Freud saque explicação menos determinista, só sei que os meus tios são de chegar cedo, algo típico do meu pai, a quem muito importa que seja para bater ponto na repartição ou pra papear no botequim, ele normalmente chega minutos antes de qualquer que queira ser a primeiríssima pessoa a se alvoroçar da chegada.

Normalíssimo era liberar a entrada a quem supostamente conhecia alguém da família, pois fora convidado por papai ou pela mamãe, fosse colega de firma, morador da nossa rua ou tivesse se lembrado da data, eu não ficaria chateado caso algum penetra cometesse a barbaridade de tomar um dedinho do Royal Salute do meu pai, ainda que a garrafa estivesse oculta, protegida por Jack Daniels, Chivas e Buchanan’s.

Apareceu esse cometa. Chegou sorridente. Abraçou-me sem pegar a minha latinha. Falou da semana puxada, disse que não desceria aos detalhes porque eram maçantes. Mas o chefe soube resolver tudo, não seria líder se não topasse ajeitar tudo. Foi entrando porque teria de dar aquele abraço apertado em quem sempre dá cabo das encrencas sem provocar encrenca, outra maior. Que eu lhe desse licença, que iria logo abraçar o seu camarada.

Lhe dei licença por óbvio; e eu dá-la-ia ainda agora, mesmo depois da performance meteórica.

A pessoa foi de roda em roda. Comeu um espeto de coraçãozinho. Bateu foto para minha tia com máquina das antigas. Bebia um gole de cerveja para abandoná-la em seguida. Sem parar de sorrir, escutava o que era assunto nas rodas. Era mesmo uma simpatia.

Ninguém a botaria para fora ainda que tivesse colocado sal grosso no pãozinho sem linguiça, que foi pra se livrar do olho gordo que sentia desalinhar as tripas, mas, de fato, ela não pôde segurá-las.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de junho de 2025.

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