Fazíamos churrasco porque era
aniversário do meu pai. Depois de 365 dias, perfazendo quarenta e quatro anos
de canastrice na imitação do Sol que tolera que a Terra o circunvague, não se
apoquente de sua atuação risível, uma vez que nós prosseguiremos a
surpreendê-lo com esses regalos regados a aldrabices, e picanha no alho, pois
sabemos quão doloroso é doar-se a nós sem ficar numa nota dó, sim, apraz-nos o
senhor produzir as quatro estações a nos unir no seu derredor.
Sem que ninguém tivesse pedido, e como
costumo ficar perdido em reuniões festivas, fui ficar na frente de casa, recebendo
os convidados, que, em sua maioria, eram parentes, e os nossos, ainda bem, não
dão pelota pras minhas melancolias de rapazola mimadinho.
Gente de certa idade, embora (eles) sem
entradas na testa e (elas) com madeixas rubras, os familiares não tinham frescurites.
Chegavam fazendo fuzuê, falavam alto seus braços serelepes. Podiam ter vindo
loucos pra tirar a latinha da minha mão sem fazer cafuné, ou seja, fiquei
abrindo latinha a cada vez que vinha biruta bagunçar meu topete.
Tendo ânimo que faça ferver o sangue, ou
Freud saque explicação menos determinista, só sei que os meus tios são de
chegar cedo, algo típico do meu pai, a quem muito importa que seja para bater
ponto na repartição ou pra papear no botequim, ele normalmente chega minutos antes
de qualquer que queira ser a primeiríssima pessoa a se alvoroçar da chegada.
Normalíssimo era liberar a entrada a
quem supostamente conhecia alguém da família, pois fora convidado por papai ou
pela mamãe, fosse colega de firma, morador da nossa rua ou tivesse se lembrado
da data, eu não ficaria chateado caso algum penetra cometesse a barbaridade de
tomar um dedinho do Royal Salute do meu pai, ainda que a garrafa estivesse oculta,
protegida por Jack Daniels, Chivas e Buchanan’s.
Apareceu esse cometa. Chegou sorridente.
Abraçou-me sem pegar a minha latinha. Falou da semana puxada, disse que não
desceria aos detalhes porque eram maçantes. Mas o chefe soube resolver tudo,
não seria líder se não topasse ajeitar tudo. Foi entrando porque teria de dar aquele
abraço apertado em quem sempre dá cabo das encrencas sem provocar encrenca, outra
maior. Que eu lhe desse licença, que iria logo abraçar o seu camarada.
Lhe dei licença por óbvio; e eu dá-la-ia
ainda agora, mesmo depois da performance meteórica.
A pessoa foi de roda em roda. Comeu um
espeto de coraçãozinho. Bateu foto para minha tia com máquina das antigas. Bebia
um gole de cerveja para abandoná-la em seguida. Sem parar de sorrir, escutava o
que era assunto nas rodas. Era mesmo uma simpatia.
Ninguém a botaria para fora ainda que
tivesse colocado sal grosso no pãozinho sem linguiça, que foi pra se livrar do
olho gordo que sentia desalinhar as tripas, mas, de fato, ela não pôde segurá-las.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de junho de 2025.
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