domingo, 25 de fevereiro de 2024

Gênio

 

Gênio

 

Certa feita, o desconhecido sentou, disse que começou a beber tão logo acordou porque o dia iria ser arrastado, não que aquilo fosse uma permissão, era constatação, porque beber um copo de cada vez levava tempo e ele não era gente de atropelar o prazer em nome da economia, se o dono queria os lugares ocupados pelo maior número de pessoas que bebem, comem e pagam na hora, essa esperança era do dono do bar, não era a sua, pois ele só pedia que parassem de arrastá-lo por aí porque não era trouxa de roupa pra ser lavada na primeira margem de rio, aquilo de ver águas cristalinas em riachinho fedendo a esgoto era tratar a gente feito roupa que precisa ser limpa, era depreciar os lastros de vida como se a carne que perdeu o viço estivesse suja só porque a consciência dita que esteja, então, ele murmurou que a natureza tinha a esperteza de fazer com que acreditasse que o natural da mente seria beber por gosto, não pela necessidade de anestesiar-se, que aquilo de querer amortecida a nuca onde o espinho era cruel, aquilo dava mais força pra que bebesse sem parar, bebesse pra resistir, porque isso de estar certo causa problemas, chama a atenção de quem não gosta de gente lúcida, então, ele bebia pra sangrar, porque iria sangrar e passar mal, iria sujar-se todo babando o sangue das suas entranhas, então, a roupa ficasse repugnante, fedesse a sangue, pois seria o sangue das suas tripas, porque ele sabia como ser cruel consigo, então, ele disse que aceitaria um trago pago por mim, desde que eu não o pagasse por simpatia, porque pessoas simpáticas têm língua assanhada, elas falam da imoralidade que é ser levado pela piedade, à deriva pela inércia das complacências, só que isso era uma atitude de gente que sabe apenas ser abjeta, que julga ser dona do mundo, crê que seja, embora vivendo a mando da grana porque o dinheiro suja o mundo, essa gente não tem desapego de indecências, nem pela amizade nem pelo dever.

Recentemente, esse mesmo sujeito, novamente bêbado, veio dizer que o dono do bar era simpático, não era como outros donos de boteco, ele era bacana, não deixava de servir até quem falava mal do seu time ou falasse bem do político que odiava, porque tinha a cabeça no lugar do coração frio, punha a mente no lugar da outra pessoa, porque vinha gastar no seu estabelecimento todo tipo de gente, vinha quem comia a coxinha murcha que deveria ter sido jogada aos vira-latas, vinha ainda quem tomava um farnel de água em vez de uma caixa de cerveja, tinha essa tristeza de ficar com uma gaita a mais quando errava no troco, já que ele jamais foi um sóbrio bom de conta.

Ainda há pouco, o louco por birita veio sentar-se, sem vergonha de virar o goró, o camaradinha disse que parou de beber à tarde pra poder acompanhar o espetáculo noturno, porque a lua vai ser de sangue.

Na minha frente, o cara torna o Royal Salute num Velho Barreiro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de fevereiro de 2024.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Indesculpável

 

Indesculpável

 

As coincidências começaram cedo; eu estava na fila.

Sem pedir licença à pessoa que esperava o troco, Clodoaldo queria saber se tinha certa marca de cigarro.

O homem disse a ele que responderia quando estivesse na sua vez de ser atendido, mas Clodoaldo preferiu sair.

Pouco depois, ao ouvir o homem pedir-lhe que aguardasse para ser atendida, a moça que perguntou se tinham aquela mesmíssima marca mencionada por Clodoaldo também ficou sem cigarros.

As coincidências continuaram; eu ia para casa.

A fulana que perguntou sobre o cigarro pediu-me as horas. Tirei do bolso o celular para não fazer a graça de que era hora de amar a Deus; essa sirigaita, nem fui agradecido pela informação precisa.

Assim que virei a esquina, Clodoaldo sobressaltou-se que fosse eu quem dera a hora à moça, que era sua parceira ou, para mudarem de calçada, ele não a teria puxado pelo braço com tanta paixão.

Quando o dia nasce pra coincidências, elas não ligam que a pessoa queira coerência; fiquei apreensivo com os ganidos do meu cão.

Solto no quintal desde que saio para comprar pão, normalmente os seus latidos não me incomodam, pois são latidos pra gato, passarinho, ou às pessoas que passam falando alto.

Corri ver o que tinha acontecido. Pro bicho ganir sentido, era porque devia ter levado pedrada. Quem botou a cabeça por cima do muro teve medo do meu pastor belga, então, pela frustração de não ter realizado o roubo que elaborara, essa pessoa evidentemente mandou pedra no guardião do meu quintal; não lambi o muro pra saber que o sangue não era do meu bom protetor.

Aliviado, devagar, eu ia pela frente da farmácia quando a comparsa do Clodoaldo não saía aperreada porque estivesse a esconder a mão enfaixada; aos policiais que rondavam a pé, eu pensei que precisaria apontar quais provas eu tinha para dar como verdadeira a opinião, que meu pastor dispunha de muita solidariedade na mandíbula.

Se vim lento ao sabor do vento, contratempo, prosseguiria lento das pernas e do pensamento.

Na calmaria da minha temperança, eu escolhia camisetas quando, por inacreditável, por fiar nos meus olhos, nitidamente eu vi Clodoaldo cobrir a sua sombra com um vestido à venda; o casal que furtou a peça e eu que paguei minha compra deixamos a loja silenciosamente.

Se permaneço em movimento, pensamento, é pra mais bem cuidar de mim, pois lamentaria me largar a esmo pelo mundo.

Quando o meu bom pastor atacou novamente, folguei que o fizesse, já que devia ter sido incitado.

O cão grunhia, tinha abocanhado a sua presa. Por instinto treinado, defendia-se de pernas que o agrediam.

Não estou domesticado pelas câmeras, pois não me preocupei que fosse outra patifaria sequer me aporrinhou que o meliante mendigasse mais que ataduras.

Meu pensamento, foco no que atormenta, que aquele canto revele-se um ponto indecorosamente cego.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de fevereiro de 2024.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Sinal vermelho

 

Sinal vermelho

 

A história sobre João e Maria tinha furos. Para tapá-los, foi preciso, primeiro, identificar cada um deles. Situados, foi possível encontrar que origem eles tinham. Localizados os pontos de origem, estudá-los um a um foi o próximo passo. Para que fossem suprimidos sem gerar outros furos, cabia pavimentá-los. Para não restarem como cicatrizes a indicar os danos causados anteriormente, a nova etapa foi esse asfaltamento em rua antiga, nivelando a superfície, alisando-a, fazendo-a transitável. Transformada de novo, feita uma história novíssima outra vez.

Haveria rebuliço se não envolvesse o João.

Indo trabalhar, cansado às seis e meia. Indo cansado andar para lá e para cá no supermercado, porque, segurança que não duvida do seu dever, tinha a rotina de andar pra lá e pra cá, tinha que ficar atento aos suspeitos, tinha que ajudar se pediam a localização desse ou daquele produto. Sentado no ônibus, indo pro trabalho, João não queria pensar onde ficava essa ou aquela mercadoria. Queria manter-se discreto ao suspeitar desse ou daquele suposto afanador. Ele sabia que ir e vir era uma obrigação profissional. João poderia admitir-se contente porque o salário que lhe pagavam era realmente merecido.

Mas algo novo tinha acontecido, Maria viera pro trabalho no mesmo ônibus que ele. A partir desse acontecimento, João ignorou o cansaço e passou a circular sem acreditar que tenha se transformado em atleta, mas ela precisava notá-lo incansável, e pessoa discreta.

Maria, porém, tem uma visão diferente: o homem de nome João era o único funcionário que passava pela bateria de caixas sem sorrisinhos à toa. Ela achou que ele era extremamente rigoroso das incumbências como segurança, pois ele devia ter vivido alguma situação apavorante, talvez assalto com bando armado, um infarte de freguês ou algo assim, geralmente preocupante, realmente apavorante se fosse com ela.

Essa versão, que nem era a da Maria, espalharam por aí.

Segundo Maria, o segurança ia e vinha, andava apressado, parecia que algo o incomodava. Ela não queria incomodá-lo, ainda mais no seu primeiro dia como caixa no supermercado.

No refeitório, João e Maria ousaram não trocar olhares. Entretanto, o gerente percebeu as olhadinhas.

Ao ser advertida que local de trabalho não é para azaração, Maria não voltou para casa no ônibus em que o João subira.

Maria viu a rua reparada, sem crateras e com semáforo na esquina, tornada elegante; se não morasse longe, Maria flanaria pela velha nova alameda.

Quem flana pode recuperar os buracos limados da história?

Por uma leitura iluminada, racionalmente luminosa, a crônica tem o que se espera de um causo que não apele a riso, choro e sobressaltos, mesmo que ache graça da desgraça que finge ser engraçadinha.

O boato é que Maria pediu demissão sem justificar o pedido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de fevereiro de 2024.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

De bico molhado

 

De bico molhado

 

Poderei repetir mil vezes, mas não me convencerei desta verdade: eu não fiz sacrifício algum ao não botar o nariz fora de casa em nenhum dos quatro dias de folia.

Como há males que duram mais do que um alala-ô, foi para não ser afetado por estripulias e excessos dos súditos de Momo que suei para me manter desligado das bugigangas eletrônicas.

Ainda que, fora do Carnaval, a TV desnorteie as minhas sinapses, reduzindo os caminhos às veredas tão divertidas, não quis meus dedos hipnotizados pela volúpia de administrar, por meio do controle remoto, as doses diárias dessa realidade inebriante.

Isso de ficar menos eufórico que naturalmente alegre, foi pretensão que também creditei válida para o consumo desenfreado de dados seja via celular assim como via computador.

Sem TV, telefone e notebook por noventa e seis horas, sentado na varanda mesmo durante as chuvaradas, vi que o cruzamento perto de casa não acumulava água.

Apesar das orações por um reinado de suor e cerveja gelada, notei a surdez dos aguaceiros. Nestes quatro dias de temporal, sequinho na cadeira, não balancei do que vi, ainda que a tampa do esgoto seguisse visível no centro da encruzilhada.

Porque a festança não foi por água abaixo, e cativado pelas carnes endiabradas das foliãs e dos foliões, perseverei-me na abstinência dos avatares escancaradamente célebres do ciberespaço.

Contudo! Nada como um bloco depois do outro.

Se passava um que se opunha a tocar essa ou aquela marchinha, vinha outro que empolgava sem índex de canções proibidas.

Se tocar marchinha não empolgava, vinham bloquinhos de axés, de frevos ou de sambas-enredo.

Se Rita Lee, Beatles ou Bob Marley podiam soar tão animados, tudo bem, que passassem pelo cruzamento batucados com animação.

Animado porém lúcido, não apoio quem opina que carnaval poderia ocorrer em finais de semana, de três em três meses.

Só sábado e domingo? Por que não incluir a sexta? Se houver ajuda de custo, que tal acrescentar quinta e segunda-feira?

Ter o fígado abduzido por banheiro químico ꟷ isso dá que seja justo o Carnaval de sexta a terça, com o desfile livre no sábado.

Digo que os blocos não me fizeram bem nem mal, entretiveram-me; tanto que chuva caiu, céu abriu e estrelas cintilaram, todavia a varanda não vacilou.

Pro varandeiro no pique, haja indicadores. Marquei o ritmo com pés e mãos. Assobiei e cantei. Papei miojo no almoço, na janta e já na alta madrugada. Folião dedicado, se uma besteirinha tomava minh’alma, a arrancava sem fraquejar. Mesmo tonto, meu momo interior descartava que estivesse com sono.

Com cerveja a quem topasse beber, chegaram mestre-sala e porta-bandeira da Mocidade Austera de Zoroastro. Nos trinques, de bíblia na mão, cuspiram fogo no brinde. Uma vez que espírito carnavalizado não perde o rebolado nem com desfeita, me soltei: amém!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de fevereiro de 2024.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Estradista

 

Estradista

 

Nesta Quarta-Feira de Cinzas, não acordei, fui despertado.

Acordar é ser tirado do sono sem influência externa, seja por latidos, seja por buzinas, seja pelo ar gelado massageando os pés.

O barulho da chuva não me acordou, foi o alarme que tocou às três. Para desligar o despertador, fui obrigado a levantar, pois eu coloquei o relógio na mesinha a três metros da cama.

Acendi a lâmpada para não ter dificuldades para escrever porque a luz da rua chegava fraca à mesinha sob a janela.

Quis-me despertado às três porque encafifei de que poderia pôr no papel o sonho interrompido. Propositadamente queria por escrito o que a cachola maquinava. Sem menosprezar palavra alguma, o desejo era mapear a interferência da mente. Quisera-me retratado.

Este retrato não é fotográfico, assemelha-se à pintura: cada palavra passada à folha manuscreve a percepção que toma forma adensada, aprofundada, particularizada, sem a captação mecânica do obturador que abre-e-fecha num clique.

Seriam máquina, mas os meus olhos não estão isentos do sono que eu sinto. Poderiam a imparcialidade, mas as palavras que escrevo são as que formam o meu repertório.

Reporto que, nesta Quarta-Feira de Cinzas, não despertei viajante, pois comprava uma mochila, punha-a nas costas, pusessem pesos às costas, testava o equilíbrio, subia e descia a escada, dizia à vendedora que minhas simulações eram necessárias pelo que eu imaginava que passaria na realidade.

De verdade, eram três e pouco da matina, chovia, era uma noite fria e palavras foram riscadas, trocadas, frases inteiras sumiram, sem que a mochila desejada se materializasse no sulfite.

Realista, achei na internet a mochila tão sonhada.

Resistente à água, com 60 litros para equipamentos, com correias ajustáveis na cintura e no peito, é mochila pra andarilho que não patine de palmilhar milhas até Compostela.

Com a mochila escolhida, a felicidade não parou a chuva nem meus pés esquentaram. Com uma folha ao meu dispor, precisava de controle ou, no impulso de arteiro metido a artista, colocaria a mochila no centro da sala, em cima do tampo de vidro da mesinha de centro.

Desde que não esteja enchida de papel amassado, a mochila virará uma escultura. Será obra de arte porque trará saco de dormir, lanterna, fogareiro a álcool, as pantufas, os óculos de sol sobressalentes, quatro bermudas, quatro camisetas, uma cueca extra e um celular enfiado na caixinha de aveia, pois eu não encaro as jornadas da vida sem a minha ração de banana amassada.

Quem vê cara não vê coração ꟷ o que me fala o tal dito bendito?

Vexado pela ideia de supor um pastiche, a mochila relida por Beuys, o pudor não traz o rubor porque a folha queda em branco.

Pé na estrada, no duro, é partir amanhã pra crônica que, por óbvio, tenho que vê-la escrita, cujo título já me faz, aliás, sorrir:

 

BREJEIRO

 

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de fevereiro de 2024.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Brejeiro

 

Brejeiro

 

Tirar a bunda da cadeira compara-se a tirar o corpo fora da zona de conforto quando a lucidez dá margem ao entendimento de que manter a ociosidade é tão trabalhoso quanto secar gelo com flanela pingando o suor do rosto de quem labuta por uma boa luta, mas acha apenas o que lhe racha a cuca em duas: a preguiçosa que não arregaça a manga para esconder-se como carta fora do baralho e a voluntariosa que não mede esforços pra descansar um instantezinho de nada.

Pra esquentar a chapa, o resumo da ópera: antes que a vaca vá pro brejo, que o brejo vá atrás da vaca.

Como a realidade não se resume à vaca-fria de quem joga conversa fora como quem joga a água da bacia sem ter lavado a criança, melhor enfiar o pé na jaca, chutar o pau da barraca e tirar o pai da forca.

Seu Rodrigues, uma vez que o senhor não é pai e nunca fez barraco por besteira, pague o mico de falar a verdade, somente a verdade. Sem papas na língua, desafine, toque de ouvido, mexa no vespeiro, não fuja da raia, caia de boca no trombone: como é o seu dia?

“Espírito da coisa, começo o dia lendo os jornais.”

Quanto tempo o senhor perde lendo os jornais?

“Porque trabalho como cronista, ler jornal é de ofício. Não determino as horas que fico lendo, pois depende do que eu ache interessante. Há edição com número menor de matérias instigantes, logo a leitura é feita num tempo menor. Há dias em que estou sonolento, tenho dificuldades pra ser um leitor focado, tento manter a atenção, brigo pra preservar a lucidez, mas largo o jornal, cochilo ou lavo o rosto. As horas passarem mais ou menos, isso não me preocupa de modo algum”.

O senhor lê a qualquer hora?

“Leio os jornais pela manhã. Como sou chato em relação à parada pro almoço, acabo o que falta na manhã seguinte”.

O senhor só lê jornal?

“Não sou tolo, não trabalho o tempo todo. Depois do jantar, vejo TV. Quando começo a mordiscar os lábios, ouço música. Quarenta e cinco minutos depois, já relaxado, pego um livro. Não pego um livro qualquer, geralmente retomo a leitura. Respeito o sono, assim que os olhos têm areia, vou dormir. Sempre haverá a noite seguinte pra outra rodada de leitura. Eu preciso estar bem para que a leitura dê prazer”.

Livro só vale a pena se lhe der prazer?

“Cuidado. Sinto prazer não só com obra que reforça o que acredito que encontrarei ao lê-la. Se o texto me desconforta, trato de vencer os meus preconceitos. Mas, há autor que consegue ser irritante o tempo todo, obra após obra. Não consigo superar o desassossego. Relaxo da verdade, invisto em texto que acorda em mim o censor”.

Ao censurar as chateações, o senhor se satisfaz?

“Há aborrecimento que não interrompo. Há livro mal escrito que me faz querer reescrevê-lo. É simples, busco escrevê-lo do meu jeito”.

Seu Rodrigues, o senhor valoriza a vida simples?

“Eu tento. Ver-me obrigado à pizza sem uma cervejinha, entretanto, isso é revoltante”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de fevereiro de 2024.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Momo Alegre,

 

Momo Alegre,

 

Nesse tempinho atrás, antes da Covid-19, o carnaval começava na sexta e terminava na quinta. À quarta-feira de cinzas eu atinava de me revelar esse folião que não aceitava ser intimidado nem pela quaresma nem pelos quaresmeiros.

Ao farrear por um dia a mais eu dava evidência de que a carraspana que me embalava era fruto do consumo de outras substâncias que não somente cerveja.

Não desqualifico como adivinho perspicaz quem fareja as toneladas de anfetaminas que, ainda hoje, circunvagam em mim.

Em outras palavras, os dias de embriaguez desnorteada ensinaram que posso falar o que um sujeito cordato pode calar. No mais, desatino se me impelem a murmurar o que esperam, seja por um dólar, seja por um barril de rum.

Ouço o que é dito porque aprendi a ser espirituoso, embora nunca tenha querido encarar, numa barrica, as Sete Quedas.

Podem rir da prudência. Riam o tanto que têm pra rir. Vou debochar de quem só me escuta quando a minha sobriedade me faz dizer o que acreditam que precisa ser dito.

Embora o carnaval seja uma festa de baixíssimo custo, cobram que me cubra com panos patrocinados, que não repise velhas marchinhas, que eu reconheça o “não” dito a ser ouvido como “não”.

Nem tudo tem clareza. Havendo furo, mergulho. Faço mais fundo o buraco porque gosto de especular. Sempre há entrelinhas pelas quais navegar. Quando o silêncio é quietude, trato de preencher as lacunas. E sondo o que não está vazio. Sondo o que se apresenta como estando esvaziado. Contudo, as ironias cavam brechas no cinismo.

Eu frevo porque não sei frevar. Não fico de bico calado pra apreciar sereia que canta em oceano coreográfico, eu também canto junto; saio em blocos que atravessam a marcha; na cozinha de casa, batuco como batuqueiro fazendo da faca uma baqueta e do prato, um prato.

Sem sentimentalismo, aproveito a festa pra escutar o coração: bate esse amor por trens. Para que sejam exaradas minhas más intenções, mormente pelo trem da alegria, basta-me rir, em riso líquido.

Por picardia, inalo gás hélio. Por óxido nitroso, vou a dentista.

Agora lacrimejante, transpiro alegria por 1999. Arrumo meus óculos escuros, pois é deslumbrante a luz da Serra da Graciosa. Estupendo é viajar à janela, rumo ao barreado bem cozido que Morretes oferece ao desfrute. Na Ilha do Mel, bebo dedos e dedos desse néctar que abelha não destila. Zureta, nesse carnaval que ainda posso experimentar, me pego transitivo.

De momento, todavia, o que vivo, o que está vivo em mim, é essa lembrança de ter apagado na Barra Funda, de ter varado a madrugada desse domingo do Carnaval 2000.

Apesar de estar sentado sozinho, chumbado de tanta garapa, ainda assim acordei com a carteira no bolso, os óculos na cara, a passagem pra Pasárgada na mão; com o ônibus na hora.

Não correm, fluem. Flutuam, meus icebergs calientes.

 

Cordialmente folião,

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de fevereiro de 2024.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Um toque de classe

 

Um toque de classe

 

Está convidada. Muitos pedem que diga se irá. Como convite não é voto a ser escancarado na véspera, não diz nem que sim nem que não. Já que não é empresa com ações na bolsa, aguardem a festa.

No mínimo, todo mundo prevê um aniversário memorável.

A garagem terá pista animada a festa inteira, uma vez que, por meio de votação no zap, o repertório está sendo escolhido pelos convidados. Haverá quitutes veganos, salgados fritos e assados, bolos sem lactose, docinhos tradicionais; assim, todos os apetites hão de ser respeitados. Fumantes ativos e passivos terão espaço pra convivência amigável. O uso de fantasia terá permissão, desde que a pessoa não surja de toga, batina ou boné de torcida organizada.

Ou seja, quem beber água, não dançar, só comer barrinha de cereal que levar de casa e criminalizar quem bebe, fuma e não para quieto de jeito nenhum, essa gente terá direito a manifestar-se minoritariamente desgostosa desde que sorria nas selfies e nas centenas de fotos.

Marinês, aliás, é fotogênica, e muito, como comprovam as milhares de fotos compartilhadas. Na terra, no ar ou no mar, onde quer que seja, ela está sempre maquiada, bem penteada, muito bem apresentável.

Todavia, se ver incluída na lista de convidados não tornará Marinês uma cabeça de vento que nem se incomoda que a rotulem de arroz de festa. Isso, o mal-estar de ver-se enquadrada numa caricatura, faz com que declare sua suprema competência imparcial ao sopesar previsões e providências que têm saído nas redes sociais.

Ciente de que está incumbida do poder de despender-se solidária a quem prima da sua mais que sincera amizade, Marinês não se furta a potencializar as suas discrepâncias com pessoas que minimizam estas aversões.

Se confronta, é porque muito a diverte que muitos a afrontem.

Para não ser preterida da festa, ainda que pratique tiro como quem palita os dentes depois de uma bistequinha bem malpassada, Marinês faz chegar à aniversariante que ela não se deixará ser fotografada com pistola .45 num jet-ski, ainda mais em máquina alugada.

Mesmo em pleno sábado, uma vez surpreendida pela audácia de a inimiga autodiagnosticar-se menos radicalizada, Dona Clotilde, a quem a postagem está endereçada, não se abstém de comentar.

“Exatamente por saber que a probabilidade da moeda cair do lado certo é maior por uma questão de justiça, sábia é a pessoa que esbanja sabedoria apostando somente na coroa.”

Pra sobressalto dos amigos habituados a sair de grávidos no bloco dos sujos e das amigas que aprontam o diabo da sexta à terça gorda, Dona Clotilde acha bom convidar Marinês pro churrasco que familiares e amigos vêm preparando sem que ela própria tenha sido oficialmente convocada.

Mesmo com as críticas bombando, tão logo a amiga reconquistada pede para ser adicionada, a página, hiper a jato, desaparece.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de fevereiro de 2024.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

A velha roupa de rei

 

A velha roupa de rei

 

Quando telefonam para pedir licença que o visitem, Aristeu diz estar de saída, que irá às compras.

Como quem telefona não oculta a decepção, Aristeu assegura que retornará a ligação assim que esteja de volta da farmácia.

No dia seguinte, ligam outra vez, pedem que receba quem precisa lhe falar. Não há urgência, mas pode ser interessante ouvir a proposta que lhe querem apresentar.

ꟷ Tem que ser pessoalmente?

O assunto envolve dinheiro. Então, sim, é o caso de ser conversado pessoalmente. Pra que as vantagens fiquem claras, é bem melhor que o papo ocorra olho no olho.

Aristeu lamenta que esteja sem tempo, pois passará o dia pagando conta em caixa eletrônico, pegará fila pra pagar certos boletos que têm que ser pagos em boca de caixa.

Lamenta-se, ainda, de que nem possa estimar a que horas voltará, pois ficará à mercê de agente público que obviamente o enredará, para que desista da sua demanda, que é a alteração da data de vencimento da multa, cujo valor reputa incorreto.

Novamente, tornam a telefonar. E ligam logo cedo, às oito horas, já que precisam lhe falar.

Quem liga não é agente público, mas tem a perseverança de gente preparada a ouvir as escusas, por mais risíveis que sejam.

As desculpas não constrangem, pois quem liga sabe que é razoável dizer que ele, Aristeu, é pessoa que não precisa ser persuadida a optar pelo que é bom para si.

Bom é sentar quinze minutinhos para conhecer a oportunidade que é oferecida a ele, que tem a reputação de ser um cidadão responsável, que, apesar das dificuldades, dá jeito de pagar o que deve.

Quem telefona reconhece os esforços dele para manter-se correto, honrado. Porque a pessoa que pena para pagar tudo o que lhe cobram é gente que merece o privilégio de ter sido escolhida para ouvir aquela proposta.

Além de ser realmente lucrativa, a oportunidade demanda poucas horas por dia, por isso não causa esgotamento físico nem embaraços mentais. Em suma, é negócio que não deve ser desperdiçado sem nem ser conhecido na íntegra.

Se Aristeu concede-lhe uma indiscriçãozinha, a pessoa que insiste ao telefone não se envergonha de ter nascido brasileira, porque, ainda que a realidade atrapalhe pra valer, brasileiro nasceu pra ser rico.

Embora ele ache que rico é quem tem grana para visitar Graceland, Aristeu sente que ficará muito feliz quando tiver dinheiro para importar o figurino completo do último show do Rei. Milionário, ele duplicará as roupas de Elvis, assim, contra sol, chuva e o assanhamento de saúva, ele poderá guardar o figurino legítimo num cofre.

Puxa vida, Aristeu vai visitar a irmã acamada.

ꟷ Foi justamente seu cunhado que insistiu bastante que ligássemos pro senhor para darmos início ao corrente negócio.

Não é pela alegria de saber de onde vem tamanha graça, é urgente que vá ao banheiro porque o n° 2 tem potência avassaladora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de fevereiro de 2024.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

O xis da questão

 

O xis da questão

 

Atravessei a rua porque precisava comprar a folhinha que uma rede de farmácias sempre põe à venda em dezembro.

Mostrando o produto que vendiam, o funcionário disse que tinham apenas aquele tipo de calendário, cujo furo em todas as páginas, notei, permitiria pendurá-lo.

Embora não fosse necessário arrancar a página do mês decorrido, aquilo, sim, era uma folhinha.

Como não aporrinho quando estou enganado, e habituado a ajudar a memória mantendo visível o que tenho compromissado, mesmo que vendida como calendário de parede, eu, sem delongas, comprei aquela folhinha.

Determinadas datas estão destacadas, além dos feriados, também estão designados os dias da Gratidão (06/01), da Amizade (30/07), da Solidariedade (20/12), do Riso (18/01) e o 24 de junho para celebrar o São João, anarriê!

Como há de ser o de sempre, não tem que haver indiferença. A vida é neste momento, comemore-se. Porque o radicalismo é salutar por ir fundo, por avançar às raízes, sejam enaltecidos os extremistas que vão aonde os fracos temem chegar.

Cavadores de abismo, ação!

Embora os dedos sangrem, cavam. Embora a agonia de lutar nunca diminua, obram. Obra em construção, o desespero é abissal enquanto houver dedos para a escavação.

Essa gente de face sombria nem repara que espelho e poça d’água ecoam que o assombroso do rosto é seguir indo fundo, mais pro fundo, é avançar, e é aprofundar-se sem se deixar afundar.

Gente, solte os monstros, pense-se capaz disso. Pense como eles, solte-se. Deixe as desgraças grassarem, aceite-se. Pela falta de graça, perdoe-se. Pelo mau humor, sorria. Desculpe quem se engana que não se engana, e erre junto.

Note que os desgraçados monstruosos têm o poder de queimar o chão, limpá-lo de ervas mortas, justamente pelo fogo. Pela emergência do que brote, os monstros sem graça disseminam a alegria, dobram os dias ditosos, tornam muito menos asfixiantes os instantes.

Gente triste que ri da própria desgrama, não enlouqueça à toa, é do mundo haver monstros que não querem ser mas acabam sendo.

Gente triste que sorri quando não consegue rir do próprio infortúnio, seja esquisita, não desdenhe do que não se recorda, de que é preciso aparar arestas. Tome cuidado pra não ficar alisando as protuberâncias, não as elimine, uma vez que arestas atritam, impedem a inércia. Gente querida, fique lembrada de que a Terra não é bolinha de gude pra rolar suave, em velocidade constante pelos confins do cosmo.

Gente, quando é nulo o atrito, esteja certa de que isso só existe na realidade ideal, experimental, planejada e construída cientificamente.

Gente boa, minha crônica é bem pouco platônica, risco um xis sobre o dia vivido: embora tenha sido um dia a menos de vida, todavia estou vivo; sim, ontem foi um dia a mais, é certo que ontem foi um dia a mais de vida porque foi um dia a mais no ano.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2024.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Lábia de passarinho

 

Lábia de passarinho

 

Acredite, a decisão de parar de fumar nunca foi um problema. Ainda que eu fosse um fumante, a abstinência é que causaria problema. Isso porque sempre fui de decisões intempestivas, lidando com as sequelas no momento certo.

Mesmo que isso pareça um capricho, acredito que fumar continuará constante da lista do que pretendo realizar, até quando a cachola deixe de lembrar-se da referida relação de desejos. Fumarei, então, sem dar à experiência a relevância metafísica que hoje eu dou.

Como nunca me importaram as aflições futuras, preocupante era a chuva que estragasse o meu topete nas noites de discoteca.

Fui um sujeito bem topetudo para desfilar a minha sensualidade nos bailes de sábado. Inteligente, nos meus quinze anos, era investir vinte porcento da mesada numa dose de Campari, assim como, por um gole, nunca cobrar uma pataca à gente da minha patota.

Como jamais me importo com as predições pretéritas, inclino-me à naturalidade de observar uma história, da qual inexoravelmente advirá um final auspicioso.

Confesso, há pouco foi testada minha fidelidade ao princípio de não meter o bedelho em assunto alheio, uma vez que sempre há vigilantes que não dormem direito caso permitam que a natureza humana revele-se realmente boa.

Por óbvio, é notável tomar a realidade como sonífero; todavia, tenho sono profundo após um dia sem me contradizer.

Pessoa confiável que não se deixa moldar pelos eventos, só uni os pontos quando a situação já estava bem encaminhada para o referido louvável desemboque.

Quando o cadeirante veio ao balcão, notei-o, que vinha empurrado por um falastrão que também era açougueiro, que sabia atender bem os fregueses, que meteria o louco, que pularia o balcão se tivesse que provar que a sua bondade não era pra aparecer, era-lhe natural.

Felizmente para o andamento do causo, quando o vi empurrado por um rapaz tão prestimoso, a minha memória lembrou-me de que o tinha situado à fila do banco em dia de pagamento de aposentadoria.

Nesse aglomerado de gente à porta da agência, não lhe comprei os chicletes mas desejei sorte com as vendas. Com o bolso realimentado pelo caixa eletrônico, mantive o foco.

Se fosse mais esperto, teria compreendido que o cadeirante na fila de aposentados precisava vender gomas de mascar para ter condições de sustentar-se.

Sustentar-se por si, o que não acarreta a desqualificação da ajuda evidentemente caridosa dessa boca que exalava caninha, que o moço era outro bravo sobrevivente das madrugadas.

Cuidei de pensar que o melhor há de ser feito, pois sempre há quem proclame indispensável a segurança do mercado.

Contudo, comprovando que o mundo dá mesmo lugar a remissões, lá fora estavam outras duas almas renascidas, que trocaram pedra por água que passarinho refuta como cachaça.

Aliás, dono de bar adora papo furado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de fevereiro de 2024.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

O caminho das pedras

 

O caminho das pedras

 

Quando batem à porta, sou tomado de euforia. Não ligo que batam na porta errada, que estejam procurando outra pessoa. Vou ligeiro abrir a porta, para que aceitem o convite e sentem-se um instante, nem que seja apenas o bastante para um café.

Tornam a bater, nem tinha percebido que fiquei sentado. Acho bom que estejam enganados. Quero que desistam e não batam mais. Quero muito ser deixado em paz.

Não quero acabar nervoso. Vão embora. Vão bater na casa ao lado, pode ser que lá esteja quem procuram. Façam a gentileza, esqueçam que estou em casa.

Resolvo escarafunchar os subterrâneos de certas escolhas que fiz. Não cobro de mim explicações. Quero entender por quais razões tenho certo pânico quando ouço batidas na porta.

Basta-me a prudência de confiar no que vejo, que as câmeras que monitoram o quintal não são traiçoeiras, pois elas estão operando bem, mostrando a realidade sem manipulações de algoritmos pirados.

Se máquinas não alucinam, também não me quero alucinado.

Uso-as fiando de que funcionam normalmente, dentro do esperado, até porque não penso ser surpreendido por anomalias. Quero usá-las sem temer que eu morra usando-as.

Eu me amo e quero viver bem assistido por máquinas, seja por ar-condicionado, celular ou câmera de monitoramento.

Morrer de amores por máquinas, não morro. Assim como o oposto, viver de amores por elas, isso também é um exagero.

Pode ser que haja quem viva de amores por seu Opala 79, mas não conheço quem leve uma vida tão extremada. Não é porque não sei de gente assim que não exista quem se importe com polimento e lavagem de um automóvel que sequer tenha motor.

Pode ser que eu não passe de um mané, cuja existência é avaliada medíocre pelos vícios que gosto de tê-los, pois vícios dão alegrias.

Sei que não faço boa figura quando não atendo a porta. Mesmo que me procurem durante o horário comercial, não às seis da matina, gosto de acompanhar as reações de quem bate à porta.

Esse jogo é viciante, pois o que pressinto me arrebata.

Haverá sorriso amarelo? Puxa vida, eu tinha saído.

Irá franzir a testa? Caraca, o Mengão ganhou.

Baterá até cansar? Nessa hora, eu tomava banho.

Nem moro no Rio nem torço por outro clube que não seja o amado clube brasileiro, o meu Tricolor Paulista, mas sempre torço pela vitória do Flamengo. E fico tiririca quando o Urubu perde.

Longe dos olhos de terceiros, vibro junto com o goleiro que defende um pênalti. Mesmo treinado, o goleiro que pretende deixar o seu nome na história precisa fazer o melhor, não apenas tentar fazê-lo.

Diante desse momento único, ridícula é a pessoa que nunca larga o celular. Gravando a partida, a idiota só vê o que passa pela lente de uma bugiganga.

Como hoje é o Dia da Saudade, recordo-me da final que ouvi pelo rádio. E peço vênia a você, flamenguista que me lê:

Salve, Mazarópi! Bingo! Salve o campeão de 77!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de janeiro de 2024.

domingo, 28 de janeiro de 2024

Melhor não

 

Melhor não

 

É meio-dia. À porta de casa, espero o táxi que me levará ao médico. Irei ao urologista para a verificação anual do estado da minha próstata. Com tudo em ordem, não imergirei no lodo das neuroses.

Não me toco de que meu relógio talvez esteja adiantado. Desligado do instante, nem noto que a hora segue passando. Se usasse celular, poderia ter a hora num clique e o presente seguiria sendo agora.

Como nem atendo quando ligam, eu corri, certo de que o carro viria logo. Comigo a postos, à porta, mesmo sem telefone, logo ele virá.

Sim, isso não é um fato a ser relatado, é expectativa banal.

À porta, vejo as pessoas que passam, muitas têm olhos apenas pro celular. No entanto, não são as notícias que aceleram o mundo, são as certezas.

Quem duvida, pergunta; zanza atrás de resposta; por insegurança, vai e vem. Já a pessoa que não duvida, de pronto ela responde.

A TV assegura que a realidade não incentiva a paralisia da pessoa que destrava na cachola o fluxo, que o rio de eventos sem importância é o mundo a quem acredita que faz o que precisa para sobreviver e se distrair.

Inquieta, a pessoa que duvida não precisa ligar a TV, precisa ler os comentários às postagens incontornáveis de gente amiga e de gente cuja celebridade ratifica como verdade o que está compartilhado, para não ser mais um nome em meio a uma multidão de outros nomes sem rosto.

Travessa, na inquietude deste seu instante, a pessoa joga, aposta, e tanto se encanta da sua assertividade que ela avalia outrem como se aprovasse tudo. Sem condenar o que faz, a sensata faz graça.

Talvez eu devesse voltar. Pode ser que a TV ainda esteja desligada. Quem sabe ela esteja deixando mais fundo o buraco onde mal-estar e pânico criam unhas longas e recurvas, próprias a quem queira revolver o lodo até que os fatos fiquem à mostra.

Enquanto o táxi não chega, entusiasma-me ter outra ideia bonitinha.

Nem tenho tempo de pedir a hora ao Luisinho, que cruza a rua tão logo me avista. Quando chega sorrindo, todo expansivo, ele tem coisa importante para dizer.

De primeira, puxa o fio que nos satisfaça prosear como se fôssemos resolver as dores do mundo. Todavia, não palpitamos sobre o 08/01, 07/10 ou o 24/7, pois pouco acrescentaríamos sobre o quebra-quebra no Planalto, sobre a carnificina na Terra Prometida ou sobre a canseira que a sobrevivência provoca.

Não precisamos nos justificar. E quando o fazemos, Luisinho, é pelo sentimento de bem-estar. Ou seja, é por sermos vaidosos que falamos do café com pão de nossos regalos. Dizemos que me deleita falar bem de açúcar mascavo e, até emocionado, de manteiga de garrafa.

Nutro-me da hora que não sei qual seja, do táxi que demora chegar, da pessoa que se afirma pelo tanto que examina. Sim, alimento-me do que eu nem sei o que seja.

Será boa coisa indagar: de onde vem esse prazer que me atravessa quando me alieno dos remorsos?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de janeiro de 2024.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

A cochiladinha

 

A cochiladinha

 

Sem nuvens no céu, maravilhosamente soalheiro, com temperatura amena, soprando uma brisa mansa, convidativo à voltinha à toa, este dia de verão veste-se de primavera.

Ao que parece, nada poderá estragar o momento. Concentrada nos processos da digestão, a mente divaga por ideias vaporosas como tirar uma cochiladinha ao sol.

Se tudo conspira para que vá, então vá à praça.

Embora não tenha a certeza de que o azul do céu e a mansidão do ventinho possam ser armas contra contrariedades, a flor da chateação brota justamente destas circunstâncias.

Quando a leveza é traço deste bem-estar surgido naturalmente, tal felicidade é ímã a quem muito se esforça para não chatear.

Vamos, iluda-se. Quando é saudável, a ilusão protege. Firme-se na sua vontade. Não rejeite quem procura alimentar-se da sua luz. Irradie-se, dê de beber a quem tem sede. Não se chateie, o mundo também é lugar de quem julga ter nascido para ser simpático.

Vamos, aperte o passo. Mude de calçada. Olhe pra frente. Siga em frente. Mude de calçada outra vez. Aperte o passo mais ainda. Resista. Confie que a pessoa simpática chegará perto de você.

Até que o chato chegue, até que o chato chame você por seu nome, até que o chato provoque o constrangimento de ser visto por você, vá adiante como se não tivesse tempo para adulações.

Mas o chato anda rápido. É mais rápido. Ganha pernas de gigante. Não corre nem desiste. Os ossos daqueles dedos cutucam seu ombro. Cutuca e chama você pelo nome. O chato tem voz de gente amiga que não se há de desprezar, não se há de sujeitá-lo ao desprezo.

Então esta pessoa vence, se faz ouvir, você a ouve porque não quer chateações. Mais que nada, você quer abreviado o constrangimento.

É o melhor para você. Primeiro pense em você, na necessidade de cochilar na praça. Depois, pense no sol, no céu azul, na monotonia das conversas, que as pessoas andam lentas porque almoçaram. Perceba, depois do almoço, ninguém corre, ninguém grita, nem gargalha.

Embora a pessoa que se quer simpática venha junto, vá em frente, sente-se. Ainda que esta pessoa desprezível sente-se com você, ouça o que ela tem a dizer. Seja você um poço de água cristalina, escute-a. Embora ela não saiba fingir que acha bom falar somente a verdade, dê ouvidos àquela pessoa tão natural, tão transparente.

Mantenha a firmeza. Fale como se tivesse interesse em papear.

O sol está bom ꟷ a simpatia concorda com você. Porque o sol está bom, as pessoas andam devagar porque devagar se chega ao caixa, centavo por centavo os boletos são pagos, dia após dia completa-se o ano, não é por cansaço que as pessoas ficam lentas, é por amor à vida; porque concorda, ela sorri. Gente apressada não curte o sol, até sente prazer ao pagar conta ꟷ sorri, simpática.

Como finge bem o apreço que deveras sente, é pela confiança nos sorrisinhos que você nem repara que cochila.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de janeiro de 2024.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Alvo certo

 

Alvo certo

 

Chamaram-no. Uma vez que não estavam dispostos a explicações, indicaram a escada e, sobre a mesinha, uma lâmpada.

Foi dispensado o aviso de que modo a tarefa deveria ser realizada, mas ele subiu, rosqueou a nova lâmpada, acendeu-a, pôs a escadinha onde a pegara e jogou na lixeira a lâmpada que deu por queimada.

Houve decepção: em vez dos trinta segundos estipulados, tudo foi feito em quinze segundos.

Sem gentilezas nem generosidade, apontaram a mesa onde havia cartolina, pincel atômico, jornal, régua, tesoura e cola.

De ponta a ponta, ele folheou o jornal. Sentou-se no chão. Tirando a imagem de um homem sentado no meio-fio com as mãos na cabeça, ele recortou e colou na cartolina apenas a fotografia do burro levantado do chão por causa da carroça, pois, incluindo a meia dúzia de caixas, na carga bem amarrada constavam tevê, sofá, geladeira, fogão, mesa, quatro cadeiras, cama, colchão e guarda-roupa.

À vista do produzido: o primeiro cofiou a barbicha e marcou com um xis o item d) outro; além de marcar o X, o outro ajeitou os óculos e, no espaço pontilhado depois de d) outro ꟷ, escreveu: SEM NOÇÃO.

Sobre a foto do burro, ele não redigiu: a) burro é o homem; b) burra é a mente humana; c) a burrice é humana.

Apontaram uma área onde havia um tapete e uma TV, cujo controle remoto estava no assento de uma poltrona.

Ele ligou o aparelho. Havia canais e mais canais; a nenhum dedicou mais do que dois segundos de atenção. Todavia, houve um que o fez sentar-se. Havia música suave e cães, porque havia apenas isso, cães e música, ele não mudou de canal.

Pelos minutos assistindo àquilo, aproximaram-se. Entreolharam-se. Mas, o gatilho para que anotassem algo do observado foi o ronco.

Pigarrearam, em vão. Tossiram, ele recostou a cabeça no espaldar. De fato, foi preciso que batessem palmas para acordá-lo.

Efetivamente desperto, queriam-no perto de cavalete, tela, pincéis e tintas. Ao lado desse conjunto, sobre uma coluna romana de plástico, um arranjo era composto por bananas, peras, maçãs, goiabas, laranjas e um cacho de uva.

Ele não demonstrou dúvida. Foi às frutas. Comeu uma pera. Comeu uma goiaba. Como não havia faca, não tocou nas laranjas. Não comeu maçã alguma. A casca da única banana que comeu, ele foi atirá-la no lixo onde estava a lâmpada que achara apropriado trocar.

O homem de óculos assinou onde deveria assinar o funcionário que aplicou o teste; no prego da parede inteiramente branca, ele pendurou a prancheta e a caneta; com as mãos nos bolsos do guarda-pó branco, postou-se à porta.

No devido campo, porque sem linhas e sem pauta, o outro aplicador usou a régua ao registrar, datar e assinar a seguinte observação:

“Por amor a meu semelhante, indico que o ensaio seja aplicado sem interrupção até que, consciente da lição que os erros praticados dão, o indivíduo aprenda a perdoar-se”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de janeiro de 2024.

domingo, 21 de janeiro de 2024

Uma atitude genial

 

Uma atitude genial

 

Sala de aula que não tenha fundão ativo na contracorrente do que se passa com os que sempre são obedientes às regras e aqueles que nem se importam com quais regras uma escola é feita, isso é ilusão ou apenas outra lorota.

Loroteiro o magricela quatro-olhos não era, preferia que o tratassem como ‘pessoa de imaginação elétrica’, de humor irrequieto.

Tanta eletricidade, no entanto, podia dar pane, causar cara de bobo e provocar desconfortos, os mais comuns geravam flatos.

Flatulento desde pequeno, o adolescente tinha crise de gagueira se a professora pedia a ele que conjugasse o verbo péter. Não o apetecia ruborizar-se, porquanto a voz lhe saísse cômica, algo idiota.

Para pessoa que se tomava em alta conta pela fuzarca, desastroso era assumir-se toleirão por completo, também pelo óbvio do passado simples do indicativo: je pétai.

Porque o congelamento da vida subsiste na memória, foram-se os dias de falar fazendo biquinho, oui.

No ensino médio, na carteira do meio da fileira, o bagunceiro tinha vacilos, mas, com mais escorregões que deslizes, ele patinava.

Embriagado pela sucessão de sucessos, o gênio tinha resposta pra tudo. Querendo riso, muito riso, querendo angariar gargalhadas, desde química orgânica a cadeia alimentar, o gaiato não ligava que estivesse cientificamente bem informado.

Yes, boys and girls, what a wonderful world.

À pessoa sensata, positivo é confirmar o que acredita: porque rir faz bem a quem provoca o riso, ele é provocante.

O baderneiro, que levava na lancheira uma garrafinha de groselha e um sanduíche de queijo, cresceu. Hoje, à mesa de professor, aquele senhor de rabo-de-cavalo grisalho não ignora o desejo de fumar.

Com a classe agitada, escreve na lousa. Bolinhas de papel cruzam o céu da sala, é escrevendo que ele reduz os bastões de giz. Para que os tocos irritem os rostos tagarelas, a maioria dos petelecos provocam irritação. Para que o cigarrinho termine quando a lousa estiver cheia, o guerrilheiro da fuzarca cessa os disparos.

Já que os alunos não gravaram o fumante artilheiro, ele sabe como converter celulares em câmeras.

Há sempre uma história sobre seus dias de estudante. Afinal, ali é a escola onde, por quinze anos, do prézinho ao colegial, ele vem sendo curtido nas virtudes da civilização.

Virtuoso nos petelecos, demonstra sê-lo com os tocos de giz porque houve um professor de português que o iniciou nesta arte.

Virtuoso pela torta holandesa que devora diante de alunas e alunos, ele lambe os dedos para que o filmem lambuzado da iguaria.

E a história que destaca é a que acontece no momento em que vai contando: ali, na classe, alguém está publicando as selfies em que faz biquinho para a posterioridade.

ꟷ Esta eu sei, profe, pois o meu pai disse o que é ꟷ como ilustração do que seja, essa pessoa tira uma foto da própria buzanfa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de janeiro de 2024.