Gênio
Certa feita, o desconhecido sentou, disse
que começou a beber tão logo acordou porque o dia iria ser arrastado, não que aquilo
fosse uma permissão, era constatação, porque beber um copo de cada vez levava
tempo e ele não era gente de atropelar o prazer em nome da economia, se o dono
queria os lugares ocupados pelo maior número de pessoas que bebem, comem e
pagam na hora, essa esperança era do dono do bar, não era a sua, pois ele só
pedia que parassem de arrastá-lo por aí porque não era trouxa de roupa pra ser
lavada na primeira margem de rio, aquilo de ver águas cristalinas em riachinho
fedendo a esgoto era tratar a gente feito roupa que precisa ser limpa, era
depreciar os lastros de vida como se a carne que perdeu o viço estivesse suja só
porque a consciência dita que esteja, então, ele murmurou que a natureza tinha a
esperteza de fazer com que acreditasse que o natural da mente seria beber por
gosto, não pela necessidade de anestesiar-se, que aquilo de querer amortecida a
nuca onde o espinho era cruel, aquilo dava mais força pra que bebesse sem
parar, bebesse pra resistir, porque isso de estar certo causa problemas, chama
a atenção de quem não gosta de gente lúcida, então, ele bebia pra sangrar, porque
iria sangrar e passar mal, iria sujar-se todo babando o sangue das suas
entranhas, então, a roupa ficasse repugnante, fedesse a sangue, pois seria o
sangue das suas tripas, porque ele sabia como ser cruel consigo, então, ele
disse que aceitaria um trago pago por mim, desde que eu não o pagasse por
simpatia, porque pessoas simpáticas têm língua assanhada, elas falam da
imoralidade que é ser levado pela piedade, à deriva pela inércia das
complacências, só que isso era uma atitude de gente que sabe apenas ser abjeta,
que julga ser dona do mundo, crê que seja, embora vivendo a mando da grana
porque o dinheiro suja o mundo, essa gente não tem desapego de indecências, nem
pela amizade nem pelo dever.
Recentemente, esse mesmo sujeito,
novamente bêbado, veio dizer que o dono do bar era simpático, não era como
outros donos de boteco, ele era bacana, não deixava de servir até quem falava
mal do seu time ou falasse bem do político que odiava, porque tinha a cabeça no
lugar do coração frio, punha a mente no lugar da outra pessoa, porque vinha gastar
no seu estabelecimento todo tipo de gente, vinha quem comia a coxinha murcha
que deveria ter sido jogada aos vira-latas, vinha ainda quem tomava um farnel
de água em vez de uma caixa de cerveja, tinha essa tristeza de ficar com uma
gaita a mais quando errava no troco, já que ele jamais foi um sóbrio bom de
conta.
Ainda há pouco, o louco por birita veio
sentar-se, sem vergonha de virar o goró, o camaradinha disse que parou de beber
à tarde pra poder acompanhar o espetáculo noturno, porque a lua vai ser de
sangue.
Na minha frente, o cara torna o Royal
Salute num Velho Barreiro.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de fevereiro de 2024.