Sinal
vermelho
A história sobre João e Maria tinha
furos. Para tapá-los, foi preciso, primeiro, identificar cada um deles.
Situados, foi possível encontrar que origem eles tinham. Localizados os pontos
de origem, estudá-los um a um foi o próximo passo. Para que fossem suprimidos
sem gerar outros furos, cabia pavimentá-los. Para não restarem como cicatrizes
a indicar os danos causados anteriormente, a nova etapa foi esse asfaltamento
em rua antiga, nivelando a superfície, alisando-a, fazendo-a transitável. Transformada
de novo, feita uma história novíssima outra vez.
Haveria rebuliço se não envolvesse o João.
Indo trabalhar, cansado às seis e meia.
Indo cansado andar para lá e para cá no supermercado, porque, segurança que não
duvida do seu dever, tinha a rotina de andar pra lá e pra cá, tinha que ficar
atento aos suspeitos, tinha que ajudar se pediam a localização desse ou daquele
produto. Sentado no ônibus, indo pro trabalho, João não queria pensar onde
ficava essa ou aquela mercadoria. Queria manter-se discreto ao suspeitar desse
ou daquele suposto afanador. Ele sabia que ir e vir era uma obrigação
profissional. João poderia admitir-se contente porque o salário que lhe pagavam
era realmente merecido.
Mas algo novo tinha acontecido, Maria
viera pro trabalho no mesmo ônibus que ele. A partir desse acontecimento, João
ignorou o cansaço e passou a circular sem acreditar que tenha se transformado
em atleta, mas ela precisava notá-lo incansável, e pessoa discreta.
Maria, porém, tem uma visão diferente: o
homem de nome João era o único funcionário que passava pela bateria de caixas
sem sorrisinhos à toa. Ela achou que ele era extremamente rigoroso das
incumbências como segurança, pois ele devia ter vivido alguma situação
apavorante, talvez assalto com bando armado, um infarte de freguês ou algo
assim, geralmente preocupante, realmente apavorante se fosse com ela.
Essa versão, que nem era a da Maria, espalharam
por aí.
Segundo Maria, o segurança ia e vinha,
andava apressado, parecia que algo o incomodava. Ela não queria incomodá-lo,
ainda mais no seu primeiro dia como caixa no supermercado.
No refeitório, João e Maria ousaram não
trocar olhares. Entretanto, o gerente percebeu as olhadinhas.
Ao ser advertida que local de trabalho
não é para azaração, Maria não voltou para casa no ônibus em que o João subira.
Maria viu a rua reparada, sem crateras e
com semáforo na esquina, tornada elegante; se não morasse longe, Maria flanaria
pela velha nova alameda.
Quem flana pode recuperar os buracos
limados da história?
Por uma leitura iluminada, racionalmente
luminosa, a crônica tem o que se espera de um causo que não apele a riso, choro
e sobressaltos, mesmo que ache graça da desgraça que finge ser engraçadinha.
O boato é que Maria pediu demissão sem justificar
o pedido.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de fevereiro de 2024.