Um
pedido
Assim como pessoa que não perde novela é
chamada de noveleira, ao vibrar com queima de fogos do Ano Bom e chorar ao
abrir presente de Natal, pois bem, entendo quando me chamam de festeiro.
Não haja dúvidas. Mesmo que algum desmancha-prazeres
apareça querendo abrir champanhe; mesmo que surjam baladeiros oferecendo carona;
mesmo que postem as desgramas de outro ano ruim: nada me demoverá de fazer coro
à contagem regressiva.
Contarei com euforia porque descontarei as
estripulias.
Embora a natureza tenha reservas quanto
às variações de humor, tenho ciência de que respondo bem às leis da física, uma
vez que estou em sintonia com o universo.
A natureza arbitra a partida?
Haja vista que não privo comigo com
cristalina naturalidade, é bem provável que cometa pênalti quando desembesto
pro ataque.
Dizem que no centro da Via Láctea há um
buraco negro, palpito que à deriva em mim vive um abismo obscuro. Como não faço
ideia de que maneira meu inconsciente reage aos estímulos cósmicos, posso muito
bem estar detonando a terceira lei de Newton.
Recordando os ensinamentos: é fato que
buraco negro não fica fulo com prospecções amazônicas em Essequibo, todavia o
petróleo altera termodinamicamente a fornalha terrestre.
E no jogo da grana a todo vapor, na área
adversária onde verdinhas crescem mais do que grama, quem toma falta é o
árbitro.
Desolado do futuro: saia a euforia,
entre a embriaguez.
Beberei no gargalo o champanhe aberto
por descuido. À vera, terei cuidado ao acompanhar pela TV o que estiver no ar. Enquanto
houver felicidade no meu sangue, serei feliz. Não farei por menos, pedirei com
ardor: o Sol não tarde, a Lua não suma, não me falte luz.
Que venham os amigos. Que tragam
guloseimas. Comam e bebam. Darei o que tenho. Darei o que possa comprar. Que me
entreguem em casa. Que trabalhem mais um pouco. E cobrem mais, que isso não tem
importância. Amigos merecem o melhor acolhimento. Saibam, amigos, vocês são
queridos e sempre bem-vindos. Saibam, não haverá futuro se não for agora. Que o
presente seja desfrutado no momento.
Neste instante, encho o copo. Tenho água
sem gelo, bebo-a assim mesmo. Já um segundo depois, talvez não haja água, mas o
desejo de saciar-me seguirá ao meu dispor.
Pelo que sei, sou um tanto romântico,
sentimental, até mesquinho, mas nunca fui de lastimar o que tenha deixado pra
trás.
Ao olhar pra frente, solto-me à ideia de
que os celulares inteligentes poderiam trazer instalado um aplicativo que
acompanhe metro a metro a localização dos amigos.
Eu começaria a pensar em trocar de roupa
se um deles estivesse a trinta metros da minha casa. Eu correria afofar
almofadas se um deles estivesse a dez passos da porta de casa. Daria minha face
se um deles estivesse ao alcance de um beijinho.
Quer saber o que eu acho?
Para não ficar devendo outra, aplique-se
na ideia, Santa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de dezembro de 2023.