Acurácias
Sem pesar conveniências, durmo de luz
apagada. Se pesasse, diria que estabeleço tal condição porque conheço o
funcionamento do meu corpo. Se corro as cortinas, diria que preciso ter
controlado o ambiente ou alarmar-me-iam quaisquer barulhinhos.
Até escrever o parágrafo acima, eu ainda
não tinha reparado que o melhor que faço é assumir titubeios. Se não tinha
reparado, mas, agora que contradigo, percebo as ideias que sorriem. Franzo a
testa porque hesito, pigarreio porque o ruído acalma, mas, agora que sigo reparado
no que digo, sorrio ao próximo parágrafo.
De cortinas cerradas, porta trancada e pálpebras
pesadas, dormirei até que o despertador retorne-me às indecências do mundo.
Porque indecente é o tempo que gasto
para lavar atrás das orelhas, cinco minutos. É também indecente o tempo pro
café com pão, outros cinco minutos. Sou esse indecente a quem concedo cinco
minutos para escova e fio dental.
De banho tomado e café bebido: em quinze
minutos, estarei apto a ser conduzido pelas brutalidades da vida, escutarei
seduzido quem se diga brutalizado, estarei a postos como camarada bonzinho.
E serei brutal na seleção das notícias
que lerei, pois o tempo é meu e não vou monetizá-lo com botox, bronzeamento
artificial e silicone nos peitos. Nem pior nem indiferente, serei eu mesmo, porque
há trabalhos que não protelarei mais do que já os tenho adiados.
Já que mais uma vez serei informado que
humilharam pessoas que vivem sendo humilhadas em aeroportos brasileiros, ainda
que amealhe curtidas de quem não lê o que curte e não curte o que lê,
postar-me-ei um camaradinha mui revoltado.
Violentarei ansiedades, pois as
previsões indicadas para o dia não surtirão o efeito de orientar-me. Violentado
na esperança de viabilizar as melhores escolhas, tolerarei: se der cara, tomarei
as porradas que me corrijam a falta de brio pra defender quem pede ajuda; se
der coroa, serei gentil ao afirmar que bailarino não dá voadora, faz balé.
Em nome da estabilidade entre os
setores, ponho reparo: parágrafo veio, parágrafo foi; isso é coisa bem
hesitante. Todo hesitado, espio as palavras que desnudam o bocó que balança,
balança, e cai.
Caído na lábia de quem?
Luisinho, sempre ele, diz que o ator
Matheus Nachtergaele disse no jornal que o chapéu usado no filme Auto da
Compadecida tinha sumido e que urdiram uma cópia pro filme Auto da Compadecida
2.
Luisinho, sempre o mesmo, diz que o João
Grilo, por suas alegrias dramáticas e diatribes cômicas, entrou num arrepio
danado porque lhe é difícil desencarnar-se de personagem tão querida, adorável,
redonda feito o Matheus Nachtergaele.
Luisinho, ele próprio uma pessoa tão
simpática, diz que acharam o tal chapéu empregado no primeiro filme e que,
aliviado pelo encontro do original, o ator compôs o arguto:
ꟷ Não precisava ter chorado, garoto.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de dezembro de 2023.