Logo que percebi o demônio da inércia
puxando minhas pálpebras para induzir-me à resignação, pulei do sofá. Vou ao
banco, ou passaria a tarde atualizando-me do mundo pelas fofocas.
Dia de semana é pra acertar contas, ou
seria sábado? Uma vez que um demônio malandro converter-me em um devoto da
vagabundagem é coisa de mente esperta, mas, néscio que sou, eu cochilaria.
Penso no pescoço, antecipo a dor e transmito-me
a ideia: antes que vire babar, seu danado, vá agora.
Indo ao banco, paro na esquina.
Se não me reconheço, reconheço-a. Posso
alegar que estou morto. Mas virei fantasma e a esquina percebe quem sou pelas
memórias que não tenho como silenciar.
Identifico-me com o que já nem projeta sombra
na calçada em que estou parado. Respiro, mas o ar não sabe de mim pela pessoa
que eu acredito ser.
Memórias não desconversam nem soçobram,
têm o fio dos fatos a salvaguardá-las em escombros, assoreamentos e soluços.
Procuro pelo cruzamento, mas o asfalto é
outro. Sem as pinceladas do tempo, quiçá eu delire que o poste fincado no chão é
o mesmo poste que atravessa gerações.
Mas lágrima não é colírio, é alucinógeno
pra quem só consegue ver a realidade como máscara, um palco, um portal.
Sobra-me confiança pra não condenar o
tempo, mas o tempero que a nostalgia faz subir-me à consciência sabe-me a melancolias.
Não saboreio a tristeza de dizer que eu fui
aquele rapaz que um dia abraçou-me ao poste até que a ventania passasse, pra
que o sopro do apocalipse tivesse ido embora ou que o bafo tornasse real a
repelência a cupins, baratas e chatos.
Só que o fim do mundo não veio, ainda
não vem, talvez nem venha, porque crentes inveterados têm reza braba que mantém
postes eretos para todo mundo admirar-se.
ꟷ O senhor quer luz? Que ela ilumine, a
luz seja útil.
Isso me faz ver: há crianças passando.
Isso me leva a pensar: estas crianças não sabem que outras crianças passaram.
Isso me convence a ficar quieto, embora esteja novamente abraçado ao poste.
Comovido, me observa a criançada.
É, isso alegra. Porque as meninas e os
meninos sabem rir da minha palhaçada, tais crianças não telefonarão pros búzios
do amor. Porque amam pai e mãe sobre todas as coisas, esta meninada tem em
mente que a energia que os fios transmitem conserva colados os cartazes em cada
um dos postes.
Poste não trepida, não enverga e não sente
apagão.
Quero-me sensível. Também existo para
completar tarefas que não estou obrigado a completar. Não dou o melhor de mim
em tudo o que faço, nem assim evito a dor. Poderia o trabalho de compor-me apático,
mas me irritam as dores que não sinto.
Ponho as mãos espalmadas no poste. Ainda
que seja apenas um homem, não sucumbirei. Como estou pego pela altivez, não
temerei o pensamento que me escolhe que o transmita:
ꟷ Se “meu coração tropical tá coberto de
neve”, Christiane, desejo-lhe: força, força, força!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de agosto de 2023.