domingo, 27 de agosto de 2023

De coração

 

De coração

 

Logo que percebi o demônio da inércia puxando minhas pálpebras para induzir-me à resignação, pulei do sofá. Vou ao banco, ou passaria a tarde atualizando-me do mundo pelas fofocas.

Dia de semana é pra acertar contas, ou seria sábado? Uma vez que um demônio malandro converter-me em um devoto da vagabundagem é coisa de mente esperta, mas, néscio que sou, eu cochilaria.

Penso no pescoço, antecipo a dor e transmito-me a ideia: antes que vire babar, seu danado, vá agora.

Indo ao banco, paro na esquina.

Se não me reconheço, reconheço-a. Posso alegar que estou morto. Mas virei fantasma e a esquina percebe quem sou pelas memórias que não tenho como silenciar.

Identifico-me com o que já nem projeta sombra na calçada em que estou parado. Respiro, mas o ar não sabe de mim pela pessoa que eu acredito ser.

Memórias não desconversam nem soçobram, têm o fio dos fatos a salvaguardá-las em escombros, assoreamentos e soluços.

Procuro pelo cruzamento, mas o asfalto é outro. Sem as pinceladas do tempo, quiçá eu delire que o poste fincado no chão é o mesmo poste que atravessa gerações.

Mas lágrima não é colírio, é alucinógeno pra quem só consegue ver a realidade como máscara, um palco, um portal.

Sobra-me confiança pra não condenar o tempo, mas o tempero que a nostalgia faz subir-me à consciência sabe-me a melancolias.

Não saboreio a tristeza de dizer que eu fui aquele rapaz que um dia abraçou-me ao poste até que a ventania passasse, pra que o sopro do apocalipse tivesse ido embora ou que o bafo tornasse real a repelência a cupins, baratas e chatos.

Só que o fim do mundo não veio, ainda não vem, talvez nem venha, porque crentes inveterados têm reza braba que mantém postes eretos para todo mundo admirar-se.

ꟷ O senhor quer luz? Que ela ilumine, a luz seja útil.

Isso me faz ver: há crianças passando. Isso me leva a pensar: estas crianças não sabem que outras crianças passaram. Isso me convence a ficar quieto, embora esteja novamente abraçado ao poste.

Comovido, me observa a criançada.

É, isso alegra. Porque as meninas e os meninos sabem rir da minha palhaçada, tais crianças não telefonarão pros búzios do amor. Porque amam pai e mãe sobre todas as coisas, esta meninada tem em mente que a energia que os fios transmitem conserva colados os cartazes em cada um dos postes.

Poste não trepida, não enverga e não sente apagão.

Quero-me sensível. Também existo para completar tarefas que não estou obrigado a completar. Não dou o melhor de mim em tudo o que faço, nem assim evito a dor. Poderia o trabalho de compor-me apático, mas me irritam as dores que não sinto.

Ponho as mãos espalmadas no poste. Ainda que seja apenas um homem, não sucumbirei. Como estou pego pela altivez, não temerei o pensamento que me escolhe que o transmita:

ꟷ Se “meu coração tropical tá coberto de neve”, Christiane, desejo-lhe: força, força, força!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de agosto de 2023.

 

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Rondó

 

Rondó

 

Para interromper a minha pestaninha prazenteira, a campainha soa aquele S.O.S. característico que não anuncia nenhum perigo de morte, mas alguma urgência do Luisinho.

Eu estava deitado, mas não cochilava. Ouvia música. Em destaque, um disco lançado em 1973: Secos & Molhados.

ꟷ Os ventos do norte não movem moinhos.

Se efemérides dão norte a comércios socialmente sentimentais, a mim não me movem. As trapizongas da minha cachola emocionam-me pelos murmúrios que me fazem escutar o que não digo, não pela litania dos vendilhões que me querem obrigado a ouvi-los o tempo todo.

ꟷ Eu já não sei se sei de nada ou quase nada.

Todavia, lembro-me bem.

O primeiro disco do grupo Secos & Molhados foi lançado em agosto e no dia 01 de novembro a vitrola de casa passou a tocá-lo.

É uma certeza sobre a qual não incide nenhuma dúvida, pois a data marcava o meu décimo aniversário.

ꟷ A lua iluminou a dança, a roda, a festa.

A música não parava de tocar; eu não enjoava de escutá-la.

Estava na banheira. Acabara de chegar da escola. Embora fosse o dia do meu aniversário, tive que ir brincar de pega-pega. Fedia a suor, e com mamãe não tinha negócio. Mas foi só depois de cheia que entrei na banheira.

ꟷ O gato preto cruzou a estrada passou por debaixo da escada.

Mamãe gritou que saísse do banho. Perguntou-me se adormecera. Mamãe bateu na porta. Era para descer já, porque a minha tia trouxera um presente para mim.

ꟷ Eu não sei dizer nada por dizer, então eu escuto.

De repente, a música parou.

ꟷ Quem já perdido nunca desespera.

Ter saído da água morna não foi em vão. Titia tinha trazido o disco que eu nem pensava que poderia ter em casa.

Virei tocar aquela música o tempo que permitiam tocá-la.

Queria cantá-la sem medo. Dançava sozinho; só dançava sem que me vissem dançando. Cantava a qualquer hora, cantarolava. Dançava, mas eu tinha medo de que me recriminassem a audácia.

ꟷ Porque é preciso ser assim assado.

Fui pego dançando, e acharam graça. Punham a música, eu imitava o cantor que requebrava. Pediam que eu imitasse Didi, o trapalhão que imitava o cantor. Na TV e em casa, requebrávamos.

ꟷ A rosa radioativa, estúpida, inválida.

Contudo, meu coração de criança ainda sente. Depois de cinquenta anos, sinto aquele olhar. Bate em mim aquela censura. Eram olhos que condenavam aquela indecência.

ꟷ Não é de tristeza, não é de aflição, é só esperança.

Francamente, meus pais permitiam a pantomima porque nada tinha de vergonhosa. Era um divertimento, uma alegria pro núcleo íntimo da família. Ao fim e ao cabo, esse menino na flor da infância não tinha que ser responsabilizado pelo espetáculo.

Embora indecente pra certas visitas, garoto que pintava o rosto com o despudor inocente, o meu Neizinho tinha a sua graça.

Vinho quente do coração, Luisinho, meu sangue latino sabe de cor qual é o estado da arte:

ꟷ O que me importa é não estar vencido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de agosto de 2023.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Julgamento sumário

 

Julgamento sumário

 

Deixo estar, sem que os perrengues do dia encobrissem a vontade de bebericar o meu cafezinho, sem que o sofá desviasse o meu desejo de dormir na cama, sem que as notícias derribassem o sonho de outra aurora, porque o sol que hipnotiza a mente ao meio-dia é o mesmo que na madrugada ilumina-a, então a noite veio, naturalmente.

À janela da cozinha, vejo o mundo que me vê só o vulto. E nada há de impressionante que me apresse gravar com o telefone. E outro gato fuça o lixo, outro rato foge pro bueiro, outro biriteiro ronca adoidado. O beco e eu, que não somos estátuas de gesso, nós sobrevivemos pelo cotidiano das rotinas.

Pra bagunçar o que possa ser bagunçado, vem este ser que não se intimida diante da normalidade da vida. Trocando de lugar o que possa, vem o homem alegrar-se da ideia da realidade bem ajustada. Ele troça da apatia: traz água ao cão espoleta e ao vagabundo distraído, que se esqueceram de beber água; dá sopão ao banguela que não rói o osso; joga graveto a quem balança o rabo; pra que o cão também se aqueça na madrugada, ele entrega mais de uma coberta.

Ou contrarie expectativas, volúpias e disposições.

E não mofe do mundo, mofador, seja simpático, não torne pândego quem em pânico. Benfeitor, dê com a destra o que a esquerda também dá. Gozador, zoe dos babacas que se acham bambambãs porque têm diplomas. Anônimo de ânimo magnânimo, regue a rosa brotada ao pé da lixeira. Faça rir quem vê santinhos milagrosos à boca de urna.

Ou ignore o bairro, o quarteirão, a rua além do beco.

Porém, o camarada irmão das gentes traz um bolo e o cão late. Ele acende o pavio do número um, e o cão pula e late. Ele canta parabéns e o vira-lata pula, late e enfia o focinho na fatia do bolo que o camarada amigo de vira-latas colocou-lhe num pratinho.

Comemoram um ano de achado, pois o bicho apareceu no beco e foi ficando. Ele passa a maior parte do dia deitado ao lado da caçamba. Mesmo que não haja bolo nem tigelinha de guaraná, o amestrado deita à sombra da lixeira e late pra gatos e ratos, até pros cachorros que de vez em quando violam o espaço daquele beco.

Celebram a fidelidade do cão que o acorda seja a hora que for, pois o seu latido é alto e ganha eco no beco.

O homem respeita-o, tanto que o chama pelo nome. E foi este bom amigo de bichos, menos de escorpião, aranha e barata, que escolheu o nome daquele vira-lata: Zezé. Porque o bom amigo de cavalos, gatos e cachorros chama-se Zé, e o cão do beco é a sua sombra. Ora, se ele é o zé do Zé, portanto ele, o cão, só pode ser: Zezé.

Porém, no meio da tarde, com sol quente pra dedéu, veio outro vira-lata com o bebum.

Zezé e o invasor brigaram, deram botes, morderam-se, sangraram. Mas o primeiro cão do beco ganhou e foi deitar-se na calçada do outro lado, deixando o encachaçado caído sozinho aos pés da lixeira.

E não há cão que não saiba que traidor bom é traidor sem lambidas, pulgas e bolo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de agosto de 2023.

domingo, 20 de agosto de 2023

Dia bom

 

Dia bom

 

Para que a eternidade não perca tempo com o comezinho de outro avonde domingo, faço fortuita a fortuna, improviso humores e penso as lástimas como meus préstimos à alegria.

Em outras palavras, quero que este domingo seja diferente, que me penitencie de minhas chatices, seja curado da persona tediosa, que eu renasça, sendo picado pelo mosquito da felicidade.

Que felicidade ímpar eu experimento quando estou alegre.

Para que o riso de satisfação não me estupefaça pela produção que urina não reduz, que a alegria saia por epiderme, uretra e culatra, pois, e isso eu sei por mim, excesso de euforia anestesia.

Havendo acúmulos por consumo excessivo, é suposto?

Se for exagerar, e vou exagerar, que eu exagere no meridiano: pelo tanto ao lar, pelo tanto à praça, que eu fique engraçado.

Que a graça do momento é a felicidade que alegra o coraçãozinho palpitante da gente ꟷ a nossa gente e toda gente.

Feliz da vida nesta hora alegre, viverei pela sobriedade.

Embora calce tênis, monte na magrela e encha a garrafa isotérmica de 600 ml, enchê-la-ei com a pale ale artesanal favoritaça.

Metro a metro, com um dedinho de pirraça, um gostinho de chalaça, bêbado de felicidade, quero me favorecer no papel de inconsciente, na função de bobo que eu possa ser, e tão vagabundo.

E a vontade de tocar cuíca numa batucada em Botucatu?

Desejos são ânsias que não podem ser ignoradas, menos ainda por gente que gosta tanto de batucadas, de umas batucadas em Botucatu, gente que não calcula o esforço de ter caído na estrada por duas horas e dar com gente preparando tudo para a próxima batucada no próximo domingo, no mesmo lugar, à mesma hora, com as pessoas de sempre à espera de outras, até daquelas que cruzam São Paulo por três horas, e vão sambando ao volante, vão cantando todo tempo, essa gente feliz que, redondamente atrasada, clama mesmo é por uma cuíca.

Se eu soubesse me dobrar ao requebrado, rebolaria para tocar uma cuíca e não beber feito diabinho que adora viver mal acompanhado.

A quem me pague uma pilsen gelada, mililitro a mililitro, não negarei o prazer de me ver vomitar por meus quereres insaciáveis, pois tentarei saciá-los, ai ai, em vão eu tentarei, como isso me eletriza.

Contra a alta tensão da tristeza, não cismarei que a mim me almeje endiabrado. Tendo por ímã a geladeira abastecida, voarei com gosto e suarei em bicas, até que volte, eu volte pra casa, uma vez que casa é o lar da cerveja que nunca acaba.

Chapar o coco de felicidades é doideira sem culpa.

Não me culpo pela cuíca que não sei tocar, pelo samba que não sei dançar, porque lar é a casa da cerveja que pulula: witbier, porter, lager, stout, sour e a que bebo sem moderação, a pilsen.

Com os meus pés bêbados na pedaleira, na descida ou na subida, sei suar o bocadinho mais puxado da ladeira, venço-a.

Já o domingo concebido a ferver-me feliz, cuidarei do sábado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de agosto de 2023.

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Sem trote

 

Sem trote

 

À primeira vista, dois homens estão brigando.

Essas pessoas que saem no braço por qualquer besteira a mim não são simpáticas. Gente simpática opta por dialogar. Quando gente boa parte para a troca de sopapos, isso me faz reavaliar o uso eventual da violência, porque há situações em que é complicado entender-se, nem mesmo aos gritos.

Aqueles não só gritavam, esmurravam-se.

Tirando a miopia dos apressadinhos que acham motivos de sobra pra qualquer um espancar outro qualquer, seja lida a evidência do fato: homenzarrão bombado apanha de mirrado barrigudinho.

Dado que sou a afoitezas quando me irritam, estava irritado porque havia meia hora que esperava o táxi que o aplicativo o localizara a doze minutos da minha localização, mas, quando o tumulto estourou no lado ensolarado da rua, deixei de lado minha impaciência e, nem um pouco discreto, empunhei o meu telefone.

Ainda que eu estivesse estressado com o veículo que não chegava, comecei a postar fotos do entrevero que rebentou na banda ensolarada da calçada. Porque era divertido, amansou-me fotografar.

Se não fosse pelo registro da pancadaria, teria ido ao ponto de táxi que fica perto, a dois quarteirões deste ringue improvisado.

Descuidado de que minha atuação às escâncaras como observador amador da realidade fez de mim testemunha, os dois altercadores vêm ter comigo.

O baixinho diz por quais motivos precisou ser violento:

ꟷ Pediram que eu pegasse uma mulher nesta rua, eu vim e não vi nenhuma mulher de vestido vermelho e bolsa vermelha. Me passaram um trote. Tudo bem, isso acontece. Mas telefonaram de novo. Eu teria de vir a esta mesma rua, agora para pegar um passageiro que estava usando muletas por causa do gesso na perna esquerda. Eu vim porque estava a quatro quadras daqui. Outra vez foi trote, pois eu passei pelo número que me disseram e não vi ninguém. Quando passam trotes um depois do outro, aí a coisa muda de figura. Eu fico fulo da vida. Então, pela terceira vez, me fizeram vir pra esta mesmíssima ruazinha do cão, que me estaria esperando uma moça de vestido vermelho com a perna esquerda engessada, só que ela não tinha bolsa vermelha, a sua bolsa era amarela. Novamente eu vim, fiz de ponta a ponta a danada da rua e não tinha moça alguma me esperando com sua bolsa amarela cheia de esperanças pra alegrar o meu dia.

Com jeitão de que pode deixar grogue quem conheça a potência do seu murro, o grandalhão dá soquinhos na boca, pigarreia e diz:

ꟷ Não se engane. Sei qual o meu papel nesta história. Quando este cavalheiro disse quem ele é, compreendi a situação. Uma vez que sua senhora e eu temos algo intenso, ele tem razão para insultar e agredir. Ao marido traído não seja negada a desforra, é isso.

Com vozeirão de barítono, ele fala brando comigo:

ꟷ Por acaso, o cidadão ligou pra mim?

No ato, eu atalho:

ꟷ É pessoa sem crédito que passa trote.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de agosto de 2023.

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Lapidar

 

Lapidar

 

Dia corrido, e você querendo sentar. Afazeres e compromissos para ontem, e você querendo um guaraná. De vez em quando, uma pessoa sensata tem prazer em sentir-se inútil, e sua sensatez é inconteste.

Que o digam parvo, chamem-no tolo, insistam em chamá-lo imbecil, mas achar o epíteto que mais bem o defina não é problema seu, você quer é sentar-se por um momentinho, e só.

Na agenda não há espaço para um frapê de morango, coma rápido. Troque o frango grelhado com purê de mandioquinha por uma coxinha.

Reduza a parada: para ganhar dez, tire dez.

Peça o frapê; beba-o sem pressa. Seja prudente, você não tem que brigar pelos cinco minutos além dos vinte. Pondere com cuidado, nem toda quebra de rotina é motivo para injuriar-se.

Beba o seu frapê sem lamentar que a reunião tenha se prolongado. Como a manhã já foi, veja as árvores da praça, escute os passarinhos, e perceba que o mundo não corre por outra fila logo adiante.

Entre a reunião acolá e o pagamento ali, esteja aqui: às voltas com o vento lá fora, beba devagar o frapê que teve vontade de beber.

É inverno; como improvável não é impossível: as árvores têm copas cheias de folhas; faz-se verde este inverno.

A dissonância cognitiva informa-se de que o inverno é uma estação fria, as árvores ficam nuas de folhas no inverno, é no verão que sopram os ventos quentes; por esta lógica de chapuz, pergunte-se:

ꟷ O que que há, velhinho?

Suspeite que o seu súbito desejo de tomar um frapê de morango no meio da correria de um dia de semana é um sintoma.

Satisfeita a ânsia de comer uma coxinha sem nem apimentá-la, não se deixe convencer que o frapê valha mais que os compromissos, você olhe a praça, mas não banque o paspalho que baba à toa.

Pela praça passa tanta gente.

Lá vai quem não tira o olho do celular. Aí vem quem tropeça e quase cai. Lá vai quem assobia um samba triste. Dali não sai quem não tem onde cair morto. Aí vem quem tem pressa, tanta pressa, que nem vê a casca de banana. Aí vem quem não atende o telefone que não para de tocar. Dali não sai quem não tira a bunda do lugar, e isso tudo porque vê, ouve e finge que não está nem aí pra vida que não para.

Na lanchonete, entra quem pede um sanduíche de salaminho.

Você gosta de salaminho, mas nem lhe ocorreu pedir um sanduíche ou, quem dera, comer uma porçãozinha caprichada.

A pessoa da mesa ao lado sabe o que quer, além de uma garrafa de cerveja, ela pede um limão cortado em quatro partes.

Pessoa lapidada pelo corpo a corpo com encrenqueiros que brigam por limãozinho até mesmo em garapa, porque não suporta a acidez do estômago virado, você paga a conta.

Para não espinafrar quem você nem conhece, você vai embora sem querer olhar pra trás, mas olha.

Para você não cuspir fogo, faz malabarismos para pensar, e pensa: uma vez que certeza absoluta tem quem não duvida nunca, só você vê o sinal verde pra cruzar a rua, e intempestivamente cruza-a.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de agosto de 2023.

domingo, 13 de agosto de 2023

Peça rara

 

Peça rara

 

Estive em visita à Dona Cremilda, fui vê-la porque precisava da sua ajuda. Esperava a sua orientação, que ela, na verdade, escolhesse por mim o presente que levaria a um amigo, cuja camaradagem passava a cinquenta anos no dia em que eu a procurei.

Solícita a seu modo, Dona Cremilda permitiria minha entrada desde que eu a liberasse, no máximo, em meia hora.

ꟷ Trinta minutos não são quarenta, de acordo?

Disse a que propósito o regalo deveria atender, que éramos amigos desde nossa meninice. Ressaltei que era daqueles poucos que a gente faz questão de cumprimentar com beijinho no rosto.

ꟷ Você é caso perdido, não perde essa maçada de dar tapinha nas costas enquanto elogia quem o aburra.

Sequer me aborreci com aquela sinceridade tosca de ver as coisas, pois Dona Cremilda sabia ser útil quando requisitada. E eu contava que ela fosse honesta, mesmo que me desse duas ou três opções.

Do meu estimado camarada, nem queria saber-lhe o nome.

Seja desconsiderado o sexo, porque roupa é muito pessoal. Que o gosto é da pessoa, só ela pode comprar o que a faz bela a seus olhos. Ninguém mais, a não ser ela, tem o dom de ver o quão verdadeiro é o bem-estar de vestir-se como deseja ser vista.

Também fique ignorado o gosto por aromas: a quem agradável um perfume, nauseabundo a outrem. Não queira o jasmim quando se quer a gardênias.

Por mim, quero o tamanho que não me aperte no pé ou avolume-me a barriga, aceito o conselho de não me tomar por modelo.

Porque me apraz o adocicado que não me acentue a sensualidade, quiçá eu acerte pelo pouco de melhor que sei de mim:

ꟷ Nem roupa nem perfume, que tal um livro?

ꟷ Porque seu amigo elogiou o disco mais recente do Djavan, você tem certeza de que ele aprovará o último Leonard Cohen?

ꟷ Então, Dona Cremilda, você acha arriscado eu presumir que ele não gostará de ganhar o último Karnal por que o Kundera morreu? Ora, minha querida, este camarada é meu camarada mesmo. Ele nunca foi de ler romance. Ele não mudará do vinho pro vinagre porque a agenda da hora diz que o Kundera inédito é uma lembrança perfeita.

ꟷ Querido, permita que lhe conte uma história singela. Como papai não sabia qual o número das roupas da sua amada, ele não parava em frente das vitrines cobertas de vestidos. Homem do seu tempo, ele não ficaria bem se chegasse com anáguas e combinações. Mamãe, porém, achou encantador o carinho que lhe marcou o dia. Papai não veio com bombons nem a convidou para uma fita no cinema, ele lhe trouxe uma peça de crochê pra adornar o filtro de barro.

ꟷ Obrigado, minha querida. Eu entendi.

A cinco minutos do prazo acordado, abraçados em respeito mútuo, dela eu me despedi com um segundo beijo, na outra face.

Ainda que tivesse câimbras, queria cachecol ou gorro com as cores da seleção pentacampeã.

Já que cãibras eu não senti, aos marreteiros que quiseram empurrar camiseta das Matildas, dei-lhes raiva.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de agosto de 2023.

 


quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Trampolineiros

 

Trampolineiros

 

Veja pelo lado positivo, boca e silêncio nasceram um pro outro.

Assim como ratos não copulam em banheiros de aviões, pulgas não pululam em maquetes de isopor nem a pata levantada de gato abençoa uma parede, assim os irmãos, com os seus seis braços fraternais, não falam que assédio afeta a saúde, seja a da irmã que nem dorme direito, seja a deles, pela sova nos abelhudos.

Platina, a moça assediada, é bonita, tem cabelos cacheados, a pele bronzeada pelo sol e sabe ler e escrever porque os seus dias de abecê não foram tolhidos por colheita de cana nas fazendas de graúdos, com éguas e éguas a perder de vista.

Sem drama, não acho jeito para contar-lhe com sinceridade alguma passagem que envolva os três protetores da meninota de catorze anos, prefiro pô-los em ação.

Polônio: Que cheiro é esse que me dá alergia?

Argônio: O cheiroso deve banhar-se todo dia.

Ozônio: Coitada da pele, fica impregnada desse cheirinho.

Polônio: Está pedindo uma coça da gente.

Argônio: Tem que suar suas canelas, sinhozinho.

Ozônio: Tome ciência do nosso conhecimento, seu indecente.

Se for pelo lado negativo, veja bem:

ꟷ Quem quer dar um rolê de Rolex?

ꟷ Na hora certa, pergunte: quem trouxa o trouxa?

Dos filhos de João e Maria: Platina, Argônio, Polônio e Ozônio estão vivos; já falecidos Rubídio, Telúrio e Vanádio; quando o Halley ciscava nos anos oitenta, os univitelinos Urânio e Hélio sumiram.

Ontem, não fui dormir pensando nessa família; mas eu percebo que estou menos frio, mais cordial; enfim, quando o despertador soou que eram onze horas, acordei menos vagal, mais legal, esse cara novo que fico triste com os natimortos da Maria, mesmo com Nióbio, o último dos que poderiam ter sido citados, cujos restos nem hão de ser extraídos do lamaçal pra lá do quintal.

Comigo concluindo o parágrafo acima, tocaram a campainha.

Menos acelerado, menos azedo, um boca-suja comedido, não gritei que não me perturbassem, que não daria esmolas, que eu bem poderia cair feito jaca na cabeça de quem vinha estragar o meu dia.

O problema é que, outra vez, tocaram a campainha.

Ainda que desejasse expandir a história dos gêmeos Hélio e Urânio, sem escapatória, fui à porta e dei comigo numa versão ranheta do urso de pelúcia muito fofo:

ꟷ Ô diabo! Que pressa danada.

Se poderíamos cantar na sala ou dançarmos na cozinha?

Aquele olhar é meu espelho, refletindo quem ontem achava que eu seguiria sendo; assim, uma vez que me vejo neurastênico, acho melhor ir ao supermercado.

E eu vou só.

Aliás, se me congelasse nessa onda, do eu sozinho comigo mesmo, não invocaria:

ꟷ Umbigo, umbigo meu, existe umbigada sem que tenha quem me leve pela mão pelas veredas do coração?

De pronto, repliquei:

ꟷ Não tem, não tem.

Na fila do caixa, vem uma pela direita, outra vem pela esquerda, eu espanto essas pessoas, cantando:

ꟷ Não me coço, não. Me acho à vontade.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de agosto de 2023.

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Murmúrios e sussurros

 

Murmúrios e sussurros

 

A porta da cozinha abrir de repente foi esquisito. Ela abrir por conta de uma rajada de vento que não houve, isso foi assombroso.

Embora a gente fique arrepiada ao sentir uma fantasmagoria, saber que o intelecto não alcança entendimento das coisas sutis do universo faz pensar.

Mesmo quem não liga para sutilezas, pode pensar disparates, como a porta ter sido aberta por alguma força telecinética ou por algum vento imaginário.

Esquisito e assombroso, mas a mim me pareceu fundamentalmente banal aquele evento. Para não cair no ridículo, comigo aterrorizado por algo extraordinário, fui precisamente ordinário ao virar a chave da porta duas vezes.

Se ficasse pasmado pelo choque, talvez puxasse das profundezas da mente o fio caótico que a tudo une e torna real, mas terror fantasioso é cachaça metafísica que mina na gente o tirocínio.

Para quem, ao arrepio das intuições, já quase secou um litro dessa cachaça, difícil é achar resposta plausível que satisfaça, ou inebrie que faça rir da pretensão de permanecer satisfeito comigo mesmo por não entender que o absurdo da vida é já a ambicionada resposta.

Como os pensamentos desembestam quando atiçados pelo súbito, justamente por acreditar que ruídos e sussurros têm origem no mundo, este pobre-diabo não conseguiria parar em pé se fosse ouvir atrás da porta, o jeito era eu seguir refletindo até o último gole.

Com o derradeiro gole, nada de conjeturar sobre espíritos travessos ou almas cachaceiras. Pra que essa pinga não virasse veneno, que eu cortasse o barato de embriagar-me com platonismos vulgares e ficasse realmente bêbado, com a mente deixando-se brotar como licor de anis a quem tanto o aprecia e bebe-o sem interdições.

Entre a realidade e mim, há metáforas.

Penso que a porta que se abriu sozinha me fez retornar ao período que me abalou e fez-me refletir de que maneira eu vivia.

Aqueles dias de Covid-19 foram dias de medo.

Pra não ficar doente, vi-me forçado a isolar-me em casa. As minhas compras eram quinzenais; e foram meses de estocagem de alimentos e remédios. À beira de ataques de pânico, não tive nenhum.

Superei aquilo. Com doses maiores de substâncias que o equilíbrio necessitava e meu cérebro pedia, sobrevivi àquilo.

Consegui porque emergi do poço. Não o escalei borda acima, deixei a água acumular-se e, apesar da ideia de afogamento, fui saindo e vim de volta ao mundo.

Quando não sabia que dia era, se par ou ímpar, se sábado ou sexta, comprei um boneco. Coloquei-o de modo que ao me levantar da cama eu desse com ele. Para não esquecer as reuniões via internet, ele tinha que estar vestido de terno e gravata.

Mas veio o clarão.

Por dias, deixei-o nu. Deixei-o despido até que não precisasse mais saber qual o dia da semana, até que compreendi a inutilidade daquela pessoa de plástico.

Abri outra porta ao pedir demissão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de agosto de 2023.

domingo, 6 de agosto de 2023

Pregação idiota

 

Pregação idiota

 

A primeira coisa a ser dita é que o sol ficou curioso. Como não é de deixar por menos, a lua ostentou a mesma curiosidade e permaneceu onde estava. Porque só prestam atenção quando incitadas a tanto, as pessoas foram correr na praia sem notar nada de diferente. Entretanto, as aves marinhas perceberam, os golfinhos e as baleias perceberam, os corais perceberam, só a gentarada que corria à beira-mar é que não deu ouvidos à conversa aberta pelos astros.

Os pobres bípedes sem penas continuavam a tocar a vida como se a aurora de escol fosse mais uma, outra reles alvorada.

A improbabilidade de que ninguém tenha intuído que o esplendor a estupeficar quem o notasse singularmente belo era um erro de cálculo, pois houve quem percebesse a cena idílica como paraíso mental.

Embriagado de tanta luz, o Zeca acordou disposto a tirar o dia para divertir-se com coisas divertidas. Não seria divertido andar na orla, pois não havia mar nem maresia, não voavam gaivotas nem albatrozes, não havia surfistas nem banhistas.

Se não havia possibilidade de tsunami, havia a escolha pro dia: ele não faria as coisas chatas que o obrigavam a fazer porque falavam que tais coisas chatérrimas moldá-lo-iam pros desafios do futuro.

Cansado de ficar parado, não esquentaria a moringa: sairia à praça; vagamundearia sob o sol; escutaria um joão-de-barro, os bem-te-vis e os pardais alvoroçados; até esqueceria o relógio.

Uma vez que o Zeca não era fácil, ele não se admirava de perceber o truque do sol com a lua no céu àquela hora. Ele gostava de perceber o calor do sol, e percebia-o com a sensualidade à flor da pele.

A segunda coisa a ser dita é que o Zeca não era pessoa indicada a entender-se: com os prazeres que o seu corpo proporcionava-lhe; com a mente puxando ideias pelo rabo: se tem mar, tem praia; se tem praia, tem esteirinha na areia; se tem esteirinha, tem o sonhador mergulhado na imaginação que tanto o satisfaz; se está satisfeito, ele não quer mais borrar o que vê; é óbvio, que ele seja punido, condenado, julgado pelos desejos de estar na praia, à beira-mar, vendo as sereias que saltam da água, rodopiam no ar e mergulham no mar mais fundo.

O Zeca falava sério. Ele disse que o céu não desabaria na cabeça de ninguém. Ele repetiu diversas vezes que o casamento do sol com a lua era um fato atordoante. Disse que o sol e a lua estavam agindo em prol da humanidade. Que nós humanos continuássemos a perpetuar a espécie. Que aumentássemos o domínio sobre a natureza, dos átomos ao cosmo. Entusiasmado, ele defendia que a lei do amor prevalecesse, pois o amor move, e comove, as entranhas.

A última coisa que o Zeca podia negar-se a dizer é que o sol e a lua não sabiam que eram seis horas da manhã, que os muros e os postes não sabiam que o rádio esgoelava para o mundo: “quem trabalha, trata da sua vida; quem está ocioso, trata da vida alheia”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de agosto de 2023.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Puro fingimento

 

Puro fingimento

 

Quando o mundo acuava-me, encurralava-me, e eu não sabia como desbundar, eu dissimulava que não sentia a força do pensamento.

Sincronizadas comigo, havia chaves que me acudiam.

Com as mãos da hora apertando meu gogó, pra que a encontrasse pra ir logo trabalhar, a cachola captava o som da chave da porta da rua no bolso da calça ainda pendurada no guarda-roupa.

Outro exemplo desse universo bom companheiro?

No segundo em que, impolutamente, tolerava em mim algum desejo obscuro, a chave da moto luzia no chão ao lado da cuba do lavabo no instante em que a visita motoqueira levantava-se do vaso.

Embora, vez ou outra, a realidade permita que eu sinta algumas das suas estripulias comigo, eu finjo que sou um camarada apolíneo e, com a culpa de fluir pelos humores, não tapo o nariz nem aviso que preciso trocar a cueca, corro fazer a minha parte.

Outro dia, entretanto, em vez de escafeder-me, tirei a pressão, tratei de encenar a lentidão dos inatingíveis. Continuei no meu jogo olímpico de selecionar cebolas enquanto um bebê me chamava de vovô.

Diante desse amor tão insistente, aquela mãe se fez de contrariada, mas a sua cara feia não me intimidou.

Sem conseguir arrancar-lhe sequer um sorriso amarelo, escondi o meu orgulho de avô atrás da aura simpática:

ꟷ O pequerrucho é seu irmãozinho?

Nas situações em que o fingimento é tanto que nem me constranjo, falo vulgaridades, bobagens. Entretanto, eu apelo ao calão se a minha informalidade é percebida como forçada.

Que os desgostosos enfezem, desprezem-me.

Não surto se me desprezam, pois eu não vim ao mundo pra arrumar confusão com quem não disfarça o mal-estar que provoco.

Agora, quando eu fico incomodado, incomodo-me: faço-me sereno, aquieto-me, afeto a calmaria que me exija que eu fique contido.

Sem que se sigam borrascas e, consequentemente, uns naufrágios no ressentimento, apago a lâmpada, sento no sofá até que lembre algo que me contrarie, me enerve, faça-me tomar alguma atitude, nem que seja ir tomar guaraná.

De tanto esperar, diachos!, vou beber um copo.

E leio a frase num papelucho fixado na porta da geladeira: bem faz o morcego que escuta melhor porque tem a visão prejudicada.

Eu faço questão de ouvir-me que não me lamento de que houve um tempo em que a felicidade nem me preocupava.

Digo que eu fui criança que brincava na rua, nadava no rio, soltava pipa e, pela escola cedinho, dormia cedo.

Hoje, convém que se comente tudo, inclusive o que nem ocorre com a gente. Eu, todavia, declino dessa conveniência.

Se fosse um sujeito expansivo, dado a falar de mim como se falasse de gente desconhecida, a maioria certamente pediria a internação da minha pessoa, como abilolada por expressiva amorosidade.

Embora me recorde do semblante alto-astral da jovem senhora que se dá bem com o sogro, me pego enlevado com o refrão:

ꟷ É o vovô. É o vovô.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de agosto de 2023.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Vacinados

 

Vacinados

 

Eu passeava com o cachorro.

Não é pelo gosto de zoar comigo, ele não resiste a um poste desde que o peralta era filhote. Quinze anos depois da sua entrada na minha vida, a euforia segue parecida. Por razões que ainda ignoro, o bichinho se esforça o quanto pode para que não o impeçam de fazer o que tanto o convulsiona. Cheira que cheira, roda que roda, e, abanando o rabo e latindo, batiza-o.

Era outra de nossas caminhadas noturnas.

Ficamos no quarteirão. Mesmo que não nos apressemos, fazemos a volta em pouco tempo. É raro levarmos mais de meia hora pro trajeto ficar completo: da porta de casa à porta de casa.

Assim que a garoa parou, saímos.

Marx e eu mantemos a rotina. Todos os dias, depois do café e após o jantar, caminhamos. O quanto podemos, vamos devagar.

O mais que posso, procuro andar sem pressa. Não é porque tenha comido demais que gosto de ir com calma, vou devagar pra não perder o fôlego. Se eu preciso puxar pelo ar, a coisa vai mal.

Dá uma paúra danada me descabelar pelo que seja. Sinto a fisgada; antecipo agulhadas. A boca fica amargosa, ela seca, fica ressequida.

Nestas circunstâncias, um banco me abalaria como um poste, mas não fico apavorado com a distância que me separa da praça. Sem que a coleira machuque-o, refreio o meu basset.

Ele não banque o companheiro atencioso do sujeito desmaiado. Ele não invente de lamber a boca de quem demora um pouquinho pra abrir os olhos. Se acha que pode agir como um bom animalzinho amestrado, ele que lata e não pare de latir até que mãos humanas apareçam para erguer o coitado caído na calçada.

Como nunca fui marxista, não confundirei desmaio com morte.

Caminhávamos quando uma pessoa veio falar comigo.

Durante a pandemia, a tal não foi vista de máscara de jeito nenhum. Era desnecessário, porque o corona não era perigoso como pregavam. Era uma vergonha que os boatos pegavam entre indivíduos instruídos. Era uma invenção pra prejudicar o comércio. Com os empresários sem renda, tinha mesmo que inflacionar o número de desempregados. Mas, pessoa inteligente, ela soube ligar os pontos.

Marx e eu paramos, antes não o tivéssemos feito.

Ela não deixou por menos. Quanta bobagem disseram os cientistas. Começaram com álcool nas mãos. Era necessário desinfetar bananas. Ninguém podia abraçar. Um espirrozinho que fosse podia matar. E era um tal de SARS-Cov 2 pra cá e RNA mensageiro pra cá. Sempre para cá, pro lado mais frágil.

Com a graninha de quem se assusta com gente que fala difícil, uma cambada astuta vai tratando de encher a burra.

Ela não tomou vacina alguma, pois pessoas vacinadas com drogas cientificamente transfiguradas estão espalhando calamidades que nem os laboratórios conhecem. Sem dúvida, tem muito risco no mundo. Não importa se condenam, quem atualmente usa máscara continua do lado certo da verdade.

À vera, Marx e eu seguimos em frente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de agosto de 2023.