Estive em visita à Dona Cremilda, fui
vê-la porque precisava da sua ajuda. Esperava a sua orientação, que ela, na
verdade, escolhesse por mim o presente que levaria a um amigo, cuja camaradagem
passava a cinquenta anos no dia em que eu a procurei.
Solícita a seu modo, Dona Cremilda
permitiria minha entrada desde que eu a liberasse, no máximo, em meia hora.
ꟷ Trinta minutos não são quarenta, de
acordo?
Disse a que propósito o regalo deveria
atender, que éramos amigos desde nossa meninice. Ressaltei que era daqueles poucos
que a gente faz questão de cumprimentar com beijinho no rosto.
ꟷ Você é caso perdido, não perde essa
maçada de dar tapinha nas costas enquanto elogia quem o aburra.
Sequer me aborreci com aquela
sinceridade tosca de ver as coisas, pois Dona Cremilda sabia ser útil quando
requisitada. E eu contava que ela fosse honesta, mesmo que me desse duas ou
três opções.
Do meu estimado camarada, nem queria
saber-lhe o nome.
Seja desconsiderado o sexo, porque roupa
é muito pessoal. Que o gosto é da pessoa, só ela pode comprar o que a faz bela
a seus olhos. Ninguém mais, a não ser ela, tem o dom de ver o quão verdadeiro é
o bem-estar de vestir-se como deseja ser vista.
Também fique ignorado o gosto por aromas:
a quem agradável um perfume, nauseabundo a outrem. Não queira o jasmim quando
se quer a gardênias.
Por mim, quero o tamanho que não me
aperte no pé ou avolume-me a barriga, aceito o conselho de não me tomar por
modelo.
Porque me apraz o adocicado que não me acentue
a sensualidade, quiçá eu acerte pelo pouco de melhor que sei de mim:
ꟷ Nem roupa nem perfume, que tal um
livro?
ꟷ Porque seu amigo elogiou o disco
mais recente do Djavan, você tem certeza de que ele aprovará o último Leonard Cohen?
ꟷ Então, Dona Cremilda, você acha
arriscado eu presumir que ele não gostará de ganhar o último Karnal por que o
Kundera morreu? Ora, minha querida, este camarada é meu camarada mesmo. Ele nunca
foi de ler romance. Ele não mudará do vinho pro vinagre porque a agenda da hora
diz que o Kundera inédito é uma lembrança perfeita.
ꟷ Querido, permita que lhe conte uma
história singela. Como papai não sabia qual o número das roupas da sua amada,
ele não parava em frente das vitrines cobertas de vestidos. Homem do seu tempo,
ele não ficaria bem se chegasse com anáguas e combinações. Mamãe, porém, achou
encantador o carinho que lhe marcou o dia. Papai não veio com bombons nem a
convidou para uma fita no cinema, ele lhe trouxe uma peça de crochê pra adornar
o filtro de barro.
ꟷ Obrigado, minha querida. Eu entendi.
A cinco minutos do prazo acordado,
abraçados em respeito mútuo, dela eu me despedi com um segundo beijo, na outra
face.
Ainda que tivesse câimbras, queria
cachecol ou gorro com as cores da seleção pentacampeã.
Já que cãibras eu não senti, aos
marreteiros que quiseram empurrar camiseta das Matildas, dei-lhes raiva.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de agosto de 2023.
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