Deixo estar, sem que os perrengues do
dia encobrissem a vontade de bebericar o meu cafezinho, sem que o sofá
desviasse o meu desejo de dormir na cama, sem que as notícias derribassem o
sonho de outra aurora, porque o sol que hipnotiza a mente ao meio-dia é o mesmo
que na madrugada ilumina-a, então a noite veio, naturalmente.
À janela da cozinha, vejo o mundo que me
vê só o vulto. E nada há de impressionante que me apresse gravar com o telefone.
E outro gato fuça o lixo, outro rato foge pro bueiro, outro biriteiro ronca adoidado.
O beco e eu, que não somos estátuas de gesso, nós sobrevivemos pelo cotidiano
das rotinas.
Pra bagunçar o que possa ser bagunçado, vem
este ser que não se intimida diante da normalidade da vida. Trocando de lugar o
que possa, vem o homem alegrar-se da ideia da realidade bem ajustada. Ele troça
da apatia: traz água ao cão espoleta e ao vagabundo distraído, que se esqueceram
de beber água; dá sopão ao banguela que não rói o osso; joga graveto a quem
balança o rabo; pra que o cão também se aqueça na madrugada, ele entrega mais
de uma coberta.
Ou contrarie expectativas, volúpias e disposições.
E não mofe do mundo, mofador, seja
simpático, não torne pândego quem em pânico. Benfeitor, dê com a destra o que a
esquerda também dá. Gozador, zoe dos babacas que se acham bambambãs porque têm
diplomas. Anônimo de ânimo magnânimo, regue a rosa brotada ao pé da lixeira. Faça
rir quem vê santinhos milagrosos à boca de urna.
Ou ignore o bairro, o quarteirão, a rua
além do beco.
Porém, o camarada irmão das gentes traz
um bolo e o cão late. Ele acende o pavio do número um, e o cão pula e late. Ele
canta parabéns e o vira-lata pula, late e enfia o focinho na fatia do bolo que
o camarada amigo de vira-latas colocou-lhe num pratinho.
Comemoram um ano de achado, pois o bicho
apareceu no beco e foi ficando. Ele passa a maior parte do dia deitado ao lado
da caçamba. Mesmo que não haja bolo nem tigelinha de guaraná, o amestrado deita
à sombra da lixeira e late pra gatos e ratos, até pros cachorros que de vez em quando
violam o espaço daquele beco.
Celebram a fidelidade do cão que o
acorda seja a hora que for, pois o seu latido é alto e ganha eco no beco.
O homem respeita-o, tanto que o chama
pelo nome. E foi este bom amigo de bichos, menos de escorpião, aranha e barata,
que escolheu o nome daquele vira-lata: Zezé. Porque o bom amigo de cavalos,
gatos e cachorros chama-se Zé, e o cão do beco é a sua sombra. Ora, se ele é o zé
do Zé, portanto ele, o cão, só pode ser: Zezé.
Porém, no meio da tarde, com sol quente
pra dedéu, veio outro vira-lata com o bebum.
Zezé e o invasor brigaram, deram botes,
morderam-se, sangraram. Mas o primeiro cão do beco ganhou e foi deitar-se na calçada
do outro lado, deixando o encachaçado caído sozinho aos pés da lixeira.
E não há cão que não saiba que traidor bom
é traidor sem lambidas, pulgas e bolo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de agosto de 2023.
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