quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Julgamento sumário

 

Julgamento sumário

 

Deixo estar, sem que os perrengues do dia encobrissem a vontade de bebericar o meu cafezinho, sem que o sofá desviasse o meu desejo de dormir na cama, sem que as notícias derribassem o sonho de outra aurora, porque o sol que hipnotiza a mente ao meio-dia é o mesmo que na madrugada ilumina-a, então a noite veio, naturalmente.

À janela da cozinha, vejo o mundo que me vê só o vulto. E nada há de impressionante que me apresse gravar com o telefone. E outro gato fuça o lixo, outro rato foge pro bueiro, outro biriteiro ronca adoidado. O beco e eu, que não somos estátuas de gesso, nós sobrevivemos pelo cotidiano das rotinas.

Pra bagunçar o que possa ser bagunçado, vem este ser que não se intimida diante da normalidade da vida. Trocando de lugar o que possa, vem o homem alegrar-se da ideia da realidade bem ajustada. Ele troça da apatia: traz água ao cão espoleta e ao vagabundo distraído, que se esqueceram de beber água; dá sopão ao banguela que não rói o osso; joga graveto a quem balança o rabo; pra que o cão também se aqueça na madrugada, ele entrega mais de uma coberta.

Ou contrarie expectativas, volúpias e disposições.

E não mofe do mundo, mofador, seja simpático, não torne pândego quem em pânico. Benfeitor, dê com a destra o que a esquerda também dá. Gozador, zoe dos babacas que se acham bambambãs porque têm diplomas. Anônimo de ânimo magnânimo, regue a rosa brotada ao pé da lixeira. Faça rir quem vê santinhos milagrosos à boca de urna.

Ou ignore o bairro, o quarteirão, a rua além do beco.

Porém, o camarada irmão das gentes traz um bolo e o cão late. Ele acende o pavio do número um, e o cão pula e late. Ele canta parabéns e o vira-lata pula, late e enfia o focinho na fatia do bolo que o camarada amigo de vira-latas colocou-lhe num pratinho.

Comemoram um ano de achado, pois o bicho apareceu no beco e foi ficando. Ele passa a maior parte do dia deitado ao lado da caçamba. Mesmo que não haja bolo nem tigelinha de guaraná, o amestrado deita à sombra da lixeira e late pra gatos e ratos, até pros cachorros que de vez em quando violam o espaço daquele beco.

Celebram a fidelidade do cão que o acorda seja a hora que for, pois o seu latido é alto e ganha eco no beco.

O homem respeita-o, tanto que o chama pelo nome. E foi este bom amigo de bichos, menos de escorpião, aranha e barata, que escolheu o nome daquele vira-lata: Zezé. Porque o bom amigo de cavalos, gatos e cachorros chama-se Zé, e o cão do beco é a sua sombra. Ora, se ele é o zé do Zé, portanto ele, o cão, só pode ser: Zezé.

Porém, no meio da tarde, com sol quente pra dedéu, veio outro vira-lata com o bebum.

Zezé e o invasor brigaram, deram botes, morderam-se, sangraram. Mas o primeiro cão do beco ganhou e foi deitar-se na calçada do outro lado, deixando o encachaçado caído sozinho aos pés da lixeira.

E não há cão que não saiba que traidor bom é traidor sem lambidas, pulgas e bolo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de agosto de 2023.

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