quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Trampolineiros

 

Trampolineiros

 

Veja pelo lado positivo, boca e silêncio nasceram um pro outro.

Assim como ratos não copulam em banheiros de aviões, pulgas não pululam em maquetes de isopor nem a pata levantada de gato abençoa uma parede, assim os irmãos, com os seus seis braços fraternais, não falam que assédio afeta a saúde, seja a da irmã que nem dorme direito, seja a deles, pela sova nos abelhudos.

Platina, a moça assediada, é bonita, tem cabelos cacheados, a pele bronzeada pelo sol e sabe ler e escrever porque os seus dias de abecê não foram tolhidos por colheita de cana nas fazendas de graúdos, com éguas e éguas a perder de vista.

Sem drama, não acho jeito para contar-lhe com sinceridade alguma passagem que envolva os três protetores da meninota de catorze anos, prefiro pô-los em ação.

Polônio: Que cheiro é esse que me dá alergia?

Argônio: O cheiroso deve banhar-se todo dia.

Ozônio: Coitada da pele, fica impregnada desse cheirinho.

Polônio: Está pedindo uma coça da gente.

Argônio: Tem que suar suas canelas, sinhozinho.

Ozônio: Tome ciência do nosso conhecimento, seu indecente.

Se for pelo lado negativo, veja bem:

ꟷ Quem quer dar um rolê de Rolex?

ꟷ Na hora certa, pergunte: quem trouxa o trouxa?

Dos filhos de João e Maria: Platina, Argônio, Polônio e Ozônio estão vivos; já falecidos Rubídio, Telúrio e Vanádio; quando o Halley ciscava nos anos oitenta, os univitelinos Urânio e Hélio sumiram.

Ontem, não fui dormir pensando nessa família; mas eu percebo que estou menos frio, mais cordial; enfim, quando o despertador soou que eram onze horas, acordei menos vagal, mais legal, esse cara novo que fico triste com os natimortos da Maria, mesmo com Nióbio, o último dos que poderiam ter sido citados, cujos restos nem hão de ser extraídos do lamaçal pra lá do quintal.

Comigo concluindo o parágrafo acima, tocaram a campainha.

Menos acelerado, menos azedo, um boca-suja comedido, não gritei que não me perturbassem, que não daria esmolas, que eu bem poderia cair feito jaca na cabeça de quem vinha estragar o meu dia.

O problema é que, outra vez, tocaram a campainha.

Ainda que desejasse expandir a história dos gêmeos Hélio e Urânio, sem escapatória, fui à porta e dei comigo numa versão ranheta do urso de pelúcia muito fofo:

ꟷ Ô diabo! Que pressa danada.

Se poderíamos cantar na sala ou dançarmos na cozinha?

Aquele olhar é meu espelho, refletindo quem ontem achava que eu seguiria sendo; assim, uma vez que me vejo neurastênico, acho melhor ir ao supermercado.

E eu vou só.

Aliás, se me congelasse nessa onda, do eu sozinho comigo mesmo, não invocaria:

ꟷ Umbigo, umbigo meu, existe umbigada sem que tenha quem me leve pela mão pelas veredas do coração?

De pronto, repliquei:

ꟷ Não tem, não tem.

Na fila do caixa, vem uma pela direita, outra vem pela esquerda, eu espanto essas pessoas, cantando:

ꟷ Não me coço, não. Me acho à vontade.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de agosto de 2023.

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