Veja pelo lado positivo, boca e silêncio
nasceram um pro outro.
Assim como ratos não copulam em
banheiros de aviões, pulgas não pululam em maquetes de isopor nem a pata
levantada de gato abençoa uma parede, assim os irmãos, com os seus seis braços
fraternais, não falam que assédio afeta a saúde, seja a da irmã que nem dorme direito,
seja a deles, pela sova nos abelhudos.
Platina, a moça assediada, é bonita, tem
cabelos cacheados, a pele bronzeada pelo sol e sabe ler e escrever porque os
seus dias de abecê não foram tolhidos por colheita de cana nas fazendas de
graúdos, com éguas e éguas a perder de vista.
Sem drama, não acho jeito para
contar-lhe com sinceridade alguma passagem que envolva os três protetores da
meninota de catorze anos, prefiro pô-los em ação.
Polônio: Que cheiro é esse que me dá
alergia?
Argônio: O cheiroso deve banhar-se todo dia.
Ozônio: Coitada da pele, fica impregnada
desse cheirinho.
Polônio: Está pedindo uma coça da gente.
Argônio: Tem que suar suas canelas, sinhozinho.
Ozônio: Tome ciência do nosso
conhecimento, seu indecente.
Se for pelo lado negativo, veja bem:
ꟷ Quem quer dar um rolê de Rolex?
ꟷ Na hora certa, pergunte: quem trouxa o
trouxa?
Dos filhos de João e Maria: Platina,
Argônio, Polônio e Ozônio estão vivos; já falecidos Rubídio, Telúrio e Vanádio;
quando o Halley ciscava nos anos oitenta, os univitelinos Urânio e Hélio sumiram.
Ontem, não fui dormir pensando nessa
família; mas eu percebo que estou menos frio, mais cordial; enfim, quando o
despertador soou que eram onze horas, acordei menos vagal, mais legal, esse
cara novo que fico triste com os natimortos da Maria, mesmo com Nióbio, o
último dos que poderiam ter sido citados, cujos restos nem hão de ser extraídos
do lamaçal pra lá do quintal.
Comigo concluindo o parágrafo acima, tocaram
a campainha.
Menos acelerado, menos azedo, um
boca-suja comedido, não gritei que não me perturbassem, que não daria esmolas,
que eu bem poderia cair feito jaca na cabeça de quem vinha estragar o meu dia.
O problema é que, outra vez, tocaram a
campainha.
Ainda que desejasse expandir a história
dos gêmeos Hélio e Urânio, sem escapatória, fui à porta e dei comigo numa
versão ranheta do urso de pelúcia muito fofo:
ꟷ Ô diabo! Que pressa danada.
Se poderíamos cantar na sala ou dançarmos
na cozinha?
Aquele olhar é meu espelho, refletindo
quem ontem achava que eu seguiria sendo; assim, uma vez que me vejo
neurastênico, acho melhor ir ao supermercado.
E eu vou só.
Aliás, se me congelasse nessa onda, do
eu sozinho comigo mesmo, não invocaria:
ꟷ Umbigo, umbigo meu, existe umbigada
sem que tenha quem me leve pela mão pelas veredas do coração?
De pronto, repliquei:
ꟷ Não tem, não tem.
Na fila do caixa, vem uma pela direita,
outra vem pela esquerda, eu espanto essas pessoas, cantando:
ꟷ Não me coço, não. Me acho à vontade.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de agosto de 2023.
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