Para interromper a minha pestaninha
prazenteira, a campainha soa aquele S.O.S. característico que não anuncia
nenhum perigo de morte, mas alguma urgência do Luisinho.
Eu estava deitado, mas não cochilava.
Ouvia música. Em destaque, um disco lançado em 1973: Secos & Molhados.
ꟷ Os ventos do norte não movem moinhos.
Se efemérides dão norte a comércios
socialmente sentimentais, a mim não me movem. As trapizongas da minha cachola emocionam-me
pelos murmúrios que me fazem escutar o que não digo, não pela litania dos
vendilhões que me querem obrigado a ouvi-los o tempo todo.
ꟷ Eu já não sei se sei de nada ou quase
nada.
Todavia, lembro-me bem.
O primeiro disco do grupo Secos &
Molhados foi lançado em agosto e no dia 01 de novembro a vitrola de casa passou
a tocá-lo.
É uma certeza sobre a qual não incide
nenhuma dúvida, pois a data marcava o meu décimo aniversário.
ꟷ A lua iluminou a dança, a roda, a
festa.
A música não parava de tocar; eu não
enjoava de escutá-la.
Estava na banheira. Acabara de chegar da
escola. Embora fosse o dia do meu aniversário, tive que ir brincar de
pega-pega. Fedia a suor, e com mamãe não tinha negócio. Mas foi só depois de
cheia que entrei na banheira.
ꟷ O gato preto cruzou a estrada passou
por debaixo da escada.
Mamãe gritou que saísse do banho.
Perguntou-me se adormecera. Mamãe bateu na porta. Era para descer já, porque a
minha tia trouxera um presente para mim.
ꟷ Eu não sei dizer nada por dizer, então
eu escuto.
De repente, a música parou.
ꟷ Quem já perdido nunca desespera.
Ter saído da água morna não foi em vão.
Titia tinha trazido o disco que eu nem pensava que poderia ter em casa.
Virei tocar aquela música o tempo que permitiam
tocá-la.
Queria cantá-la sem medo. Dançava
sozinho; só dançava sem que me vissem dançando. Cantava a qualquer hora, cantarolava.
Dançava, mas eu tinha medo de que me recriminassem a audácia.
ꟷ Porque é preciso ser assim assado.
Fui pego dançando, e acharam graça. Punham
a música, eu imitava o cantor que requebrava. Pediam que eu imitasse Didi, o trapalhão
que imitava o cantor. Na TV e em casa, requebrávamos.
ꟷ A rosa radioativa, estúpida, inválida.
Contudo, meu coração de criança ainda
sente. Depois de cinquenta anos, sinto aquele olhar. Bate em mim aquela
censura. Eram olhos que condenavam aquela indecência.
ꟷ Não é de tristeza, não é de aflição, é
só esperança.
Francamente, meus pais permitiam a pantomima
porque nada tinha de vergonhosa. Era um divertimento, uma alegria pro núcleo
íntimo da família. Ao fim e ao cabo, esse menino na flor da infância não tinha
que ser responsabilizado pelo espetáculo.
Embora indecente pra certas visitas,
garoto que pintava o rosto com o despudor inocente, o meu Neizinho tinha a sua
graça.
Vinho quente do coração, Luisinho, meu
sangue latino sabe de cor qual é o estado da arte:
ꟷ O que me importa é não estar vencido.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de agosto de 2023.
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