domingo, 20 de agosto de 2023

Dia bom

 

Dia bom

 

Para que a eternidade não perca tempo com o comezinho de outro avonde domingo, faço fortuita a fortuna, improviso humores e penso as lástimas como meus préstimos à alegria.

Em outras palavras, quero que este domingo seja diferente, que me penitencie de minhas chatices, seja curado da persona tediosa, que eu renasça, sendo picado pelo mosquito da felicidade.

Que felicidade ímpar eu experimento quando estou alegre.

Para que o riso de satisfação não me estupefaça pela produção que urina não reduz, que a alegria saia por epiderme, uretra e culatra, pois, e isso eu sei por mim, excesso de euforia anestesia.

Havendo acúmulos por consumo excessivo, é suposto?

Se for exagerar, e vou exagerar, que eu exagere no meridiano: pelo tanto ao lar, pelo tanto à praça, que eu fique engraçado.

Que a graça do momento é a felicidade que alegra o coraçãozinho palpitante da gente ꟷ a nossa gente e toda gente.

Feliz da vida nesta hora alegre, viverei pela sobriedade.

Embora calce tênis, monte na magrela e encha a garrafa isotérmica de 600 ml, enchê-la-ei com a pale ale artesanal favoritaça.

Metro a metro, com um dedinho de pirraça, um gostinho de chalaça, bêbado de felicidade, quero me favorecer no papel de inconsciente, na função de bobo que eu possa ser, e tão vagabundo.

E a vontade de tocar cuíca numa batucada em Botucatu?

Desejos são ânsias que não podem ser ignoradas, menos ainda por gente que gosta tanto de batucadas, de umas batucadas em Botucatu, gente que não calcula o esforço de ter caído na estrada por duas horas e dar com gente preparando tudo para a próxima batucada no próximo domingo, no mesmo lugar, à mesma hora, com as pessoas de sempre à espera de outras, até daquelas que cruzam São Paulo por três horas, e vão sambando ao volante, vão cantando todo tempo, essa gente feliz que, redondamente atrasada, clama mesmo é por uma cuíca.

Se eu soubesse me dobrar ao requebrado, rebolaria para tocar uma cuíca e não beber feito diabinho que adora viver mal acompanhado.

A quem me pague uma pilsen gelada, mililitro a mililitro, não negarei o prazer de me ver vomitar por meus quereres insaciáveis, pois tentarei saciá-los, ai ai, em vão eu tentarei, como isso me eletriza.

Contra a alta tensão da tristeza, não cismarei que a mim me almeje endiabrado. Tendo por ímã a geladeira abastecida, voarei com gosto e suarei em bicas, até que volte, eu volte pra casa, uma vez que casa é o lar da cerveja que nunca acaba.

Chapar o coco de felicidades é doideira sem culpa.

Não me culpo pela cuíca que não sei tocar, pelo samba que não sei dançar, porque lar é a casa da cerveja que pulula: witbier, porter, lager, stout, sour e a que bebo sem moderação, a pilsen.

Com os meus pés bêbados na pedaleira, na descida ou na subida, sei suar o bocadinho mais puxado da ladeira, venço-a.

Já o domingo concebido a ferver-me feliz, cuidarei do sábado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de agosto de 2023.

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