Para que a eternidade não perca tempo
com o comezinho de outro avonde domingo, faço fortuita a fortuna, improviso
humores e penso as lástimas como meus préstimos à alegria.
Em outras palavras, quero que este
domingo seja diferente, que me penitencie de minhas chatices, seja curado da
persona tediosa, que eu renasça, sendo picado pelo mosquito da felicidade.
Que felicidade ímpar eu experimento
quando estou alegre.
Para que o riso de satisfação não me
estupefaça pela produção que urina não reduz, que a alegria saia por epiderme,
uretra e culatra, pois, e isso eu sei por mim, excesso de euforia anestesia.
Havendo acúmulos por consumo excessivo, é
suposto?
Se for exagerar, e vou exagerar, que eu
exagere no meridiano: pelo tanto ao lar, pelo tanto à praça, que eu fique
engraçado.
Que a graça do momento é a felicidade
que alegra o coraçãozinho palpitante da gente ꟷ a nossa gente e toda gente.
Feliz da vida nesta hora alegre, viverei
pela sobriedade.
Embora calce tênis, monte na magrela e encha
a garrafa isotérmica de 600 ml, enchê-la-ei com a pale ale artesanal favoritaça.
Metro a metro, com um dedinho de pirraça,
um gostinho de chalaça, bêbado de felicidade, quero me favorecer no papel de
inconsciente, na função de bobo que eu possa ser, e tão vagabundo.
E a vontade de tocar cuíca numa batucada
em Botucatu?
Desejos são ânsias que não podem ser
ignoradas, menos ainda por gente que gosta tanto de batucadas, de umas batucadas
em Botucatu, gente que não calcula o esforço de ter caído na estrada por duas
horas e dar com gente preparando tudo para a próxima batucada no próximo
domingo, no mesmo lugar, à mesma hora, com as pessoas de sempre à espera de
outras, até daquelas que cruzam São Paulo por três horas, e vão sambando ao
volante, vão cantando todo tempo, essa gente feliz que, redondamente atrasada, clama
mesmo é por uma cuíca.
Se eu soubesse me dobrar ao requebrado,
rebolaria para tocar uma cuíca e não beber feito diabinho que adora viver mal
acompanhado.
A quem me pague uma pilsen gelada, mililitro
a mililitro, não negarei o prazer de me ver vomitar por meus quereres
insaciáveis, pois tentarei saciá-los, ai ai, em vão eu tentarei, como isso me eletriza.
Contra a alta tensão da tristeza, não cismarei
que a mim me almeje endiabrado. Tendo por ímã a geladeira abastecida, voarei
com gosto e suarei em bicas, até que volte, eu volte pra casa, uma vez que casa
é o lar da cerveja que nunca acaba.
Chapar o coco de felicidades é doideira
sem culpa.
Não me culpo pela cuíca que não sei
tocar, pelo samba que não sei dançar, porque lar é a casa da cerveja que
pulula: witbier, porter, lager, stout, sour e a que bebo sem moderação, a
pilsen.
Com os meus pés bêbados na pedaleira, na
descida ou na subida, sei suar o bocadinho mais puxado da ladeira, venço-a.
Já o domingo concebido a ferver-me feliz,
cuidarei do sábado.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de agosto de 2023.
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