Dia corrido, e você querendo sentar.
Afazeres e compromissos para ontem, e você querendo um guaraná. De vez em
quando, uma pessoa sensata tem prazer em sentir-se inútil, e sua sensatez é
inconteste.
Que o digam parvo, chamem-no tolo, insistam
em chamá-lo imbecil, mas achar o epíteto que mais bem o defina não é problema
seu, você quer é sentar-se por um momentinho, e só.
Na agenda não há espaço para um frapê de
morango, coma rápido. Troque o frango grelhado com purê de mandioquinha por uma
coxinha.
Reduza a parada: para ganhar dez, tire
dez.
Peça o frapê; beba-o sem pressa. Seja
prudente, você não tem que brigar pelos cinco minutos além dos vinte. Pondere
com cuidado, nem toda quebra de rotina é motivo para injuriar-se.
Beba o seu frapê sem lamentar que a
reunião tenha se prolongado. Como a manhã já foi, veja as árvores da praça, escute
os passarinhos, e perceba que o mundo não corre por outra fila logo adiante.
Entre a reunião acolá e o pagamento ali,
esteja aqui: às voltas com o vento lá fora, beba devagar o frapê que teve
vontade de beber.
É inverno; como improvável não é
impossível: as árvores têm copas cheias de folhas; faz-se verde este inverno.
A dissonância cognitiva informa-se de
que o inverno é uma estação fria, as árvores ficam nuas de folhas no inverno, é
no verão que sopram os ventos quentes; por esta lógica de chapuz, pergunte-se:
ꟷ O que que há, velhinho?
Suspeite que o seu súbito desejo de
tomar um frapê de morango no meio da correria de um dia de semana é um sintoma.
Satisfeita a ânsia de comer uma coxinha
sem nem apimentá-la, não se deixe convencer que o frapê valha mais que os
compromissos, você olhe a praça, mas não banque o paspalho que baba à toa.
Pela praça passa tanta gente.
Lá vai quem não tira o olho do celular.
Aí vem quem tropeça e quase cai. Lá vai quem assobia um samba triste. Dali não
sai quem não tem onde cair morto. Aí vem quem tem pressa, tanta pressa, que nem
vê a casca de banana. Aí vem quem não atende o telefone que não para de tocar.
Dali não sai quem não tira a bunda do lugar, e isso tudo porque vê, ouve e
finge que não está nem aí pra vida que não para.
Na lanchonete, entra quem pede um
sanduíche de salaminho.
Você gosta de salaminho, mas nem lhe
ocorreu pedir um sanduíche ou, quem dera, comer uma porçãozinha caprichada.
A pessoa da mesa ao lado sabe o que
quer, além de uma garrafa de cerveja, ela pede um limão cortado em quatro
partes.
Pessoa lapidada pelo corpo a corpo com
encrenqueiros que brigam por limãozinho até mesmo em garapa, porque não suporta
a acidez do estômago virado, você paga a conta.
Para não espinafrar quem você nem
conhece, você vai embora sem querer olhar pra trás, mas olha.
Para você não cuspir fogo, faz malabarismos
para pensar, e pensa: uma vez que certeza absoluta tem quem não duvida nunca, só
você vê o sinal verde pra cruzar a rua, e intempestivamente cruza-a.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de agosto de 2023.
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