À primeira vista, dois homens estão
brigando.
Essas pessoas que saem no braço por
qualquer besteira a mim não são simpáticas. Gente simpática opta por dialogar. Quando
gente boa parte para a troca de sopapos, isso me faz reavaliar o uso eventual
da violência, porque há situações em que é complicado entender-se, nem mesmo
aos gritos.
Aqueles não só gritavam,
esmurravam-se.
Tirando a miopia dos apressadinhos que acham
motivos de sobra pra qualquer um espancar outro qualquer, seja lida a evidência
do fato: homenzarrão bombado apanha de mirrado barrigudinho.
Dado que sou a afoitezas quando me
irritam, estava irritado porque havia meia hora que esperava o táxi que o
aplicativo o localizara a doze minutos da minha localização, mas, quando o
tumulto estourou no lado ensolarado da rua, deixei de lado minha impaciência e,
nem um pouco discreto, empunhei o meu telefone.
Ainda que eu estivesse estressado com o veículo
que não chegava, comecei a postar fotos do entrevero que rebentou na banda
ensolarada da calçada. Porque era divertido, amansou-me fotografar.
Se não fosse pelo registro da
pancadaria, teria ido ao ponto de táxi que fica perto, a dois quarteirões deste
ringue improvisado.
Descuidado de que minha atuação às
escâncaras como observador amador da realidade fez de mim testemunha, os dois
altercadores vêm ter comigo.
O baixinho diz por quais motivos
precisou ser violento:
ꟷ Pediram que eu pegasse uma mulher
nesta rua, eu vim e não vi nenhuma mulher de vestido vermelho e bolsa vermelha.
Me passaram um trote. Tudo bem, isso acontece. Mas telefonaram de novo. Eu
teria de vir a esta mesma rua, agora para pegar um passageiro que estava usando
muletas por causa do gesso na perna esquerda. Eu vim porque estava a quatro
quadras daqui. Outra vez foi trote, pois eu passei pelo número que me disseram
e não vi ninguém. Quando passam trotes um depois do outro, aí a coisa muda de
figura. Eu fico fulo da vida. Então, pela terceira vez, me fizeram vir pra esta
mesmíssima ruazinha do cão, que me estaria esperando uma moça de vestido
vermelho com a perna esquerda engessada, só que ela não tinha bolsa vermelha, a
sua bolsa era amarela. Novamente eu vim, fiz de ponta a ponta a danada da rua e
não tinha moça alguma me esperando com sua bolsa amarela cheia de esperanças
pra alegrar o meu dia.
Com jeitão de que pode deixar grogue
quem conheça a potência do seu murro, o grandalhão dá soquinhos na boca, pigarreia e diz:
ꟷ Não se engane. Sei qual o meu papel
nesta história. Quando este cavalheiro disse quem ele é, compreendi a situação.
Uma vez que sua senhora e eu temos algo intenso, ele tem razão para insultar e
agredir. Ao marido traído não seja negada a desforra, é isso.
Com vozeirão de barítono, ele fala
brando comigo:
ꟷ Por acaso, o cidadão ligou pra mim?
No ato, eu atalho:
ꟷ É pessoa sem crédito que passa trote.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de agosto de 2023.
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