quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Sem trote

 

Sem trote

 

À primeira vista, dois homens estão brigando.

Essas pessoas que saem no braço por qualquer besteira a mim não são simpáticas. Gente simpática opta por dialogar. Quando gente boa parte para a troca de sopapos, isso me faz reavaliar o uso eventual da violência, porque há situações em que é complicado entender-se, nem mesmo aos gritos.

Aqueles não só gritavam, esmurravam-se.

Tirando a miopia dos apressadinhos que acham motivos de sobra pra qualquer um espancar outro qualquer, seja lida a evidência do fato: homenzarrão bombado apanha de mirrado barrigudinho.

Dado que sou a afoitezas quando me irritam, estava irritado porque havia meia hora que esperava o táxi que o aplicativo o localizara a doze minutos da minha localização, mas, quando o tumulto estourou no lado ensolarado da rua, deixei de lado minha impaciência e, nem um pouco discreto, empunhei o meu telefone.

Ainda que eu estivesse estressado com o veículo que não chegava, comecei a postar fotos do entrevero que rebentou na banda ensolarada da calçada. Porque era divertido, amansou-me fotografar.

Se não fosse pelo registro da pancadaria, teria ido ao ponto de táxi que fica perto, a dois quarteirões deste ringue improvisado.

Descuidado de que minha atuação às escâncaras como observador amador da realidade fez de mim testemunha, os dois altercadores vêm ter comigo.

O baixinho diz por quais motivos precisou ser violento:

ꟷ Pediram que eu pegasse uma mulher nesta rua, eu vim e não vi nenhuma mulher de vestido vermelho e bolsa vermelha. Me passaram um trote. Tudo bem, isso acontece. Mas telefonaram de novo. Eu teria de vir a esta mesma rua, agora para pegar um passageiro que estava usando muletas por causa do gesso na perna esquerda. Eu vim porque estava a quatro quadras daqui. Outra vez foi trote, pois eu passei pelo número que me disseram e não vi ninguém. Quando passam trotes um depois do outro, aí a coisa muda de figura. Eu fico fulo da vida. Então, pela terceira vez, me fizeram vir pra esta mesmíssima ruazinha do cão, que me estaria esperando uma moça de vestido vermelho com a perna esquerda engessada, só que ela não tinha bolsa vermelha, a sua bolsa era amarela. Novamente eu vim, fiz de ponta a ponta a danada da rua e não tinha moça alguma me esperando com sua bolsa amarela cheia de esperanças pra alegrar o meu dia.

Com jeitão de que pode deixar grogue quem conheça a potência do seu murro, o grandalhão dá soquinhos na boca, pigarreia e diz:

ꟷ Não se engane. Sei qual o meu papel nesta história. Quando este cavalheiro disse quem ele é, compreendi a situação. Uma vez que sua senhora e eu temos algo intenso, ele tem razão para insultar e agredir. Ao marido traído não seja negada a desforra, é isso.

Com vozeirão de barítono, ele fala brando comigo:

ꟷ Por acaso, o cidadão ligou pra mim?

No ato, eu atalho:

ꟷ É pessoa sem crédito que passa trote.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de agosto de 2023.

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