domingo, 27 de agosto de 2023

De coração

 

De coração

 

Logo que percebi o demônio da inércia puxando minhas pálpebras para induzir-me à resignação, pulei do sofá. Vou ao banco, ou passaria a tarde atualizando-me do mundo pelas fofocas.

Dia de semana é pra acertar contas, ou seria sábado? Uma vez que um demônio malandro converter-me em um devoto da vagabundagem é coisa de mente esperta, mas, néscio que sou, eu cochilaria.

Penso no pescoço, antecipo a dor e transmito-me a ideia: antes que vire babar, seu danado, vá agora.

Indo ao banco, paro na esquina.

Se não me reconheço, reconheço-a. Posso alegar que estou morto. Mas virei fantasma e a esquina percebe quem sou pelas memórias que não tenho como silenciar.

Identifico-me com o que já nem projeta sombra na calçada em que estou parado. Respiro, mas o ar não sabe de mim pela pessoa que eu acredito ser.

Memórias não desconversam nem soçobram, têm o fio dos fatos a salvaguardá-las em escombros, assoreamentos e soluços.

Procuro pelo cruzamento, mas o asfalto é outro. Sem as pinceladas do tempo, quiçá eu delire que o poste fincado no chão é o mesmo poste que atravessa gerações.

Mas lágrima não é colírio, é alucinógeno pra quem só consegue ver a realidade como máscara, um palco, um portal.

Sobra-me confiança pra não condenar o tempo, mas o tempero que a nostalgia faz subir-me à consciência sabe-me a melancolias.

Não saboreio a tristeza de dizer que eu fui aquele rapaz que um dia abraçou-me ao poste até que a ventania passasse, pra que o sopro do apocalipse tivesse ido embora ou que o bafo tornasse real a repelência a cupins, baratas e chatos.

Só que o fim do mundo não veio, ainda não vem, talvez nem venha, porque crentes inveterados têm reza braba que mantém postes eretos para todo mundo admirar-se.

ꟷ O senhor quer luz? Que ela ilumine, a luz seja útil.

Isso me faz ver: há crianças passando. Isso me leva a pensar: estas crianças não sabem que outras crianças passaram. Isso me convence a ficar quieto, embora esteja novamente abraçado ao poste.

Comovido, me observa a criançada.

É, isso alegra. Porque as meninas e os meninos sabem rir da minha palhaçada, tais crianças não telefonarão pros búzios do amor. Porque amam pai e mãe sobre todas as coisas, esta meninada tem em mente que a energia que os fios transmitem conserva colados os cartazes em cada um dos postes.

Poste não trepida, não enverga e não sente apagão.

Quero-me sensível. Também existo para completar tarefas que não estou obrigado a completar. Não dou o melhor de mim em tudo o que faço, nem assim evito a dor. Poderia o trabalho de compor-me apático, mas me irritam as dores que não sinto.

Ponho as mãos espalmadas no poste. Ainda que seja apenas um homem, não sucumbirei. Como estou pego pela altivez, não temerei o pensamento que me escolhe que o transmita:

ꟷ Se “meu coração tropical tá coberto de neve”, Christiane, desejo-lhe: força, força, força!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de agosto de 2023.

 

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