quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Puro fingimento

 

Puro fingimento

 

Quando o mundo acuava-me, encurralava-me, e eu não sabia como desbundar, eu dissimulava que não sentia a força do pensamento.

Sincronizadas comigo, havia chaves que me acudiam.

Com as mãos da hora apertando meu gogó, pra que a encontrasse pra ir logo trabalhar, a cachola captava o som da chave da porta da rua no bolso da calça ainda pendurada no guarda-roupa.

Outro exemplo desse universo bom companheiro?

No segundo em que, impolutamente, tolerava em mim algum desejo obscuro, a chave da moto luzia no chão ao lado da cuba do lavabo no instante em que a visita motoqueira levantava-se do vaso.

Embora, vez ou outra, a realidade permita que eu sinta algumas das suas estripulias comigo, eu finjo que sou um camarada apolíneo e, com a culpa de fluir pelos humores, não tapo o nariz nem aviso que preciso trocar a cueca, corro fazer a minha parte.

Outro dia, entretanto, em vez de escafeder-me, tirei a pressão, tratei de encenar a lentidão dos inatingíveis. Continuei no meu jogo olímpico de selecionar cebolas enquanto um bebê me chamava de vovô.

Diante desse amor tão insistente, aquela mãe se fez de contrariada, mas a sua cara feia não me intimidou.

Sem conseguir arrancar-lhe sequer um sorriso amarelo, escondi o meu orgulho de avô atrás da aura simpática:

ꟷ O pequerrucho é seu irmãozinho?

Nas situações em que o fingimento é tanto que nem me constranjo, falo vulgaridades, bobagens. Entretanto, eu apelo ao calão se a minha informalidade é percebida como forçada.

Que os desgostosos enfezem, desprezem-me.

Não surto se me desprezam, pois eu não vim ao mundo pra arrumar confusão com quem não disfarça o mal-estar que provoco.

Agora, quando eu fico incomodado, incomodo-me: faço-me sereno, aquieto-me, afeto a calmaria que me exija que eu fique contido.

Sem que se sigam borrascas e, consequentemente, uns naufrágios no ressentimento, apago a lâmpada, sento no sofá até que lembre algo que me contrarie, me enerve, faça-me tomar alguma atitude, nem que seja ir tomar guaraná.

De tanto esperar, diachos!, vou beber um copo.

E leio a frase num papelucho fixado na porta da geladeira: bem faz o morcego que escuta melhor porque tem a visão prejudicada.

Eu faço questão de ouvir-me que não me lamento de que houve um tempo em que a felicidade nem me preocupava.

Digo que eu fui criança que brincava na rua, nadava no rio, soltava pipa e, pela escola cedinho, dormia cedo.

Hoje, convém que se comente tudo, inclusive o que nem ocorre com a gente. Eu, todavia, declino dessa conveniência.

Se fosse um sujeito expansivo, dado a falar de mim como se falasse de gente desconhecida, a maioria certamente pediria a internação da minha pessoa, como abilolada por expressiva amorosidade.

Embora me recorde do semblante alto-astral da jovem senhora que se dá bem com o sogro, me pego enlevado com o refrão:

ꟷ É o vovô. É o vovô.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de agosto de 2023.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Vacinados

 

Vacinados

 

Eu passeava com o cachorro.

Não é pelo gosto de zoar comigo, ele não resiste a um poste desde que o peralta era filhote. Quinze anos depois da sua entrada na minha vida, a euforia segue parecida. Por razões que ainda ignoro, o bichinho se esforça o quanto pode para que não o impeçam de fazer o que tanto o convulsiona. Cheira que cheira, roda que roda, e, abanando o rabo e latindo, batiza-o.

Era outra de nossas caminhadas noturnas.

Ficamos no quarteirão. Mesmo que não nos apressemos, fazemos a volta em pouco tempo. É raro levarmos mais de meia hora pro trajeto ficar completo: da porta de casa à porta de casa.

Assim que a garoa parou, saímos.

Marx e eu mantemos a rotina. Todos os dias, depois do café e após o jantar, caminhamos. O quanto podemos, vamos devagar.

O mais que posso, procuro andar sem pressa. Não é porque tenha comido demais que gosto de ir com calma, vou devagar pra não perder o fôlego. Se eu preciso puxar pelo ar, a coisa vai mal.

Dá uma paúra danada me descabelar pelo que seja. Sinto a fisgada; antecipo agulhadas. A boca fica amargosa, ela seca, fica ressequida.

Nestas circunstâncias, um banco me abalaria como um poste, mas não fico apavorado com a distância que me separa da praça. Sem que a coleira machuque-o, refreio o meu basset.

Ele não banque o companheiro atencioso do sujeito desmaiado. Ele não invente de lamber a boca de quem demora um pouquinho pra abrir os olhos. Se acha que pode agir como um bom animalzinho amestrado, ele que lata e não pare de latir até que mãos humanas apareçam para erguer o coitado caído na calçada.

Como nunca fui marxista, não confundirei desmaio com morte.

Caminhávamos quando uma pessoa veio falar comigo.

Durante a pandemia, a tal não foi vista de máscara de jeito nenhum. Era desnecessário, porque o corona não era perigoso como pregavam. Era uma vergonha que os boatos pegavam entre indivíduos instruídos. Era uma invenção pra prejudicar o comércio. Com os empresários sem renda, tinha mesmo que inflacionar o número de desempregados. Mas, pessoa inteligente, ela soube ligar os pontos.

Marx e eu paramos, antes não o tivéssemos feito.

Ela não deixou por menos. Quanta bobagem disseram os cientistas. Começaram com álcool nas mãos. Era necessário desinfetar bananas. Ninguém podia abraçar. Um espirrozinho que fosse podia matar. E era um tal de SARS-Cov 2 pra cá e RNA mensageiro pra cá. Sempre para cá, pro lado mais frágil.

Com a graninha de quem se assusta com gente que fala difícil, uma cambada astuta vai tratando de encher a burra.

Ela não tomou vacina alguma, pois pessoas vacinadas com drogas cientificamente transfiguradas estão espalhando calamidades que nem os laboratórios conhecem. Sem dúvida, tem muito risco no mundo. Não importa se condenam, quem atualmente usa máscara continua do lado certo da verdade.

À vera, Marx e eu seguimos em frente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de agosto de 2023.

domingo, 30 de julho de 2023

Futurista

 

Futurista

 

Um grupo passa gritando que é sábado, não outro sábado qualquer, que este sábado é dia de alegria; mas eu sigo suando.

Seguramente hoje é sábado, mas não é porque é sábado que estou suando. De segunda a sexta, e aos domingos, ando suando à beça.

Se me pedissem pra especular sobre o inferno, não diria que o meu corpo é uma serra em chamas, com helicópteros largando volumosas massas de água na testa. Mesmo sendo sábado, seria em vão.

Hoje é sábado, estou preocupado com o calorão e pessoas passam gritando e batendo palmas, como se a alegria fosse o sol a seduzir-me à rua. Porque gritando e batendo palmas, dão a saber que zuretas são os outros, aqueles que não denunciam nem mudam a direção, vão pro abismo, pro caldeirão sem hidromassagem.

Não que pessoas alegres que gritam e batem palmas neste sábado façam jus ao estigma de doidinhas. Parei momentaneamente a leitura, pois palmas e gritos atrapalham-na. Não foi para aplaudi-las ou apupá-las, sequer para divisá-las como as veria se tivesse saído da poltrona: um meme.

Para passar gritando que a alegria é motivo para fuzuê, essa gente alegre deve andar radiante, cujos neurônios, todavia, estão uns graus mais abaixo que a temperatura ambiente.

Como não sou lâmpada fria, de led ou queimada, transfiguro minha irritação num sorriso festivo, que eu me faço gente como aquela gente, a gritar aos circunstantes que alegria é sol de janeiro.

Pessoas que sabem ser farol nem apelam para estimulantes como café, coca ou aumento salarial, vêm agitadas porque nem se lembram de como era a vida nos tempos de Matraca Trica e Fofoquinha.

Carregando sacolinhas plásticas, vindo do supermercado, vejo uma pessoa que conheço de vista, apenas profissionalmente.

Eu, que bebi café sem esperanças de trocar a poltrona por aplausos àqueles que gritavam, saí pra comprar pão, leite e ventilador.

Sentada com as pernas abertas, de bermuda e chinelo de dedo, ela limpa as unhas com um palito de fósforo.

Cumprimento-a de passagem, pois não quero saber que o sábado é dia de tirar sujeira das unhas, vestir-se de aposentado que adora este sol de praia, bem longe da praia.

Passo pelo sujeito das unhas, e dou-lhe bom-dia.

Não é porque ando vagaroso que me alegrarei com a oportunidade de dar bom-dia a quem foi motorista de táxi. É verdade que ele continua um camarada boa-praça.

No inverno passado, ele aguardou que eu terminasse de falar sobre o degelo das calotas polares, o avanço dos oceanos sobre as cidades praianas e a falta de brânquias nos humanos, ele disse:

ꟷ A mão do destino escreve torto porque é sinistra.

Não deveríamos, mas rimos.

E hoje é sábado, um pessoal passou gritando e batendo palmas, eu larguei o livro, trouxe um lenço pra me enxugar de quando em quando e, uma vez que não me manifestei, me corrijo a tempo:

ꟷ A consciência premedita: o amanhã seja feijoada completa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de julho de 2023.

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Pimpão à pampa

 

Pimpão à pampa

 

Sem mais nem menos, fui interpelado por um menino:

ꟷ Com esse frio, por que o senhor não usa peruca?

Seu Rodrigues, por que não?

Porque peruca à la Jack Sparrow não melhora a imagem: quem usa parece que não é chegado a banho; o jeito é passar longe de pessoa ensebada, não só pelos piolhos, certamente pelo cheiro.

Embora escove os dentes e gargareje com antisséptico, o meu bafo nunca fica imune ao cheirinho. Com toques de cigarro e caninha, nem eu aguento inspecionar o meu sarro matinal.

Acordo na cama, mas desperto mesmo é quando lavo o rosto, à pia. Se não desinfecta de pesadelos, a água fria recauchuta-me pro dia.

Vivo numa era em que bugigangas elétricas tornam o mundo menos sofrido; embora tantas vezes dolorosa, a vida dispensa dramas épicos que me façam recorrer a valentões de espada em punho.

E tomo banho porque eu gosto. Banho-me todos os dias. Relaxo no chuveiro. Aproveito bem a chuveirada. Eu, todavia, não fantasio: o que for pequeno que continue pequeno; o que não preciso remoer, eu não remoo, que isso acaba esquecido.

Sem me gabar de que evito desperdícios, quiçá um bocó comedido, confesso que eu acho bastante divertido encher a boca, bochechar-me com a água quente e cuspi-la com bastante energia.

Já que eu me referi às cabeleiras emblemáticas da série Piratas do Caribe, se fosse para pinçar uma dentre as várias, eu elegeria a exibida pelo Geoffrey Rush em A Vingança de Salazar.

A quem ainda não viu o filme, descrevo-a: fios brancos, cacheados, longos, de nobre isabelino, cortesão empoado, cujo cotidiano civilizado acena a diabruras alcoviteiras, mesuras galanteadoras, maquinagens em torno da coroa, minuetos de manjadíssimas contradanças.

Ruim no requebrado, péssimo para chás de cadeira, entre os piores na dança das cabeças, por justiça a uma peruquinha maneira e porque rir sem modos é infantil, eu não ridicularizo quem ri diante de um solene representante da pompa.

É legal rir junto.

Seu Rodrigues, não empaque nas contas.

Você rirá sozinho caso acredite que a criança também rirá. Pense com cuidado, é evidente que o menino não tem rodagem suficiente pra imaginar quem são Johnny Depp do Pérola Negra ou Hector Barbossa a soldo de Sua Majestade.

Embora possa fazer graça com os glamourosos guardiães do fausto sobrevivendo em cortes forenses, não creia que a garotada vá a sítios eletrônicos para virtualmente descobrir que peruca de advogado ou juiz pode ser comprada no boleto ou no cartão.

Como não sou doutor causídico nem meritíssimo arbitrador, o bobo aqui pode achar fantástico haver guris vestidos como o Bozo, devendo, entretanto, pedir às mamães pra que corram do topete laranja de certo espantalho, daquele nada engraçado espertalhão gringo.

Sem patati nem patatá, eu falei uma verdade cabeluda:

ꟷ Garotinho, não uso peruca para ficar bem mais simpático.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de julho de 2023.

terça-feira, 25 de julho de 2023

Tira-teima

 

Tira-teima

 

ꟷ Eu estou bem. Foi só um susto. Eu sei, sustos impressionam, dão choque. É como pisar em falso, escorregar, se desequilibrar, mas vem a adrenalina. Pra não torcer o pé nem cair, a cabeça tem o estalo. Não era pra tanto auê. Embora sinta, que a gente deixe acontecer.

Era de madrugada quando a luz foi acesa. O porteiro ficou intrigado: não ligaram outra lâmpada e logo apagaram aquela.

ꟷ Coisíssima alguma que teve catástrofe.

Embora seja proibido fazê-lo no trabalho, o vigia concentrou-se no filme que via no celular. Era pra que o turno passasse mais rápido, para que fosse menos maçante trabalhar. Já que a hora não passava, como nada demais acontecia, apenas a rotina apertava, tornava mais dura a cadeira: não há bunda que não peça um cigarrinho.

Esticando as pernas diante do prédio, ele viu que começou a subir fumaça dos fundos da casa; rapidamente, a mata foi ficando amarela, mais dourada. As chamas soltavam pinceladas rubro-alaranjadas, era algo fascinante.

ꟷ Só pegou fogo num monte de folhas. Deve ter sido algum bêbado que resolveu fazer esse tipo de brincadeira. Ou, sei lá, deu vontade de chupar mexerica, jogou a bituca acesa e acabou nisso.

Para não perder tempo, o vigia tocou a campainha seguidas vezes, pulou o muro e, gritando por ajuda, correu pro quintal.

ꟷ O vigilante foi ligeiro. Soube se virar. Como não tinha mangueira, usou balde. Como o fogo era pequeno, estava no começo, dois baldes deram conta. Foi mais susto que perigo de se alastrar, pegar na mata. Não teve nada de muito sério. Em momento algum a casa correu risco. Se a ameaça era mínima, eu não tinha de ser dramático, confere?

Porque fogo tem desses impulsos irrefreáveis de recomeçar mesmo com a brisa da aurora, o morador tratou de jogar mais baldes de água.

Quando estava para encher o terceiro, o guarda do prédio disse-lhe que o melhor seria recolher todo aquele mato seco do terreno.

E assim foi: o vigilante retomou o posto na guarita; o dono da casa despejou baldes e baldes daquelas folhas incendiáveis numa caçamba que colocaram quase na esquina.

ꟷ Nem precisa se incomodar. É verdade, está tudo bem. Eu liguei para avisar que fizeram essa traquinagem, coisa de desocupado. Se o segurança da portaria do prédio vizinho não tivesse saído para urinar no poste, talvez as labaredas tivessem ficado incontroláveis. Aí seria o caso de chamar por mais gente, pedir que viessem policiais ou, se não tivesse outra saída, incomodar até quem não seja muito fã do frio das madrugadinhas.

Era madrugada de inverno, fazia frio, uns dez, onze graus, não mais que isso; então, o fogo não veio da fricção, de galho contra galho.

Para não pirar, queria saber o que lhe cortava o sono. Já que havia dias que subitamente o acordavam, deixou ligado o celular.

Naquela noite, despertou de novo, escutou a gravação e soube: seu ronco é mesmo monstruoso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de julho de 2023.

domingo, 23 de julho de 2023

Agradecimentos

 

Agradecimentos

 

De cabeça quente, cerro as pálpebras por um tempo. Preciso dele, forço-me a tê-lo, embora não lide bem comigo quando me obrigo a dar-me um tempo. Mal administrador, quero ficar livre de problemas. Se eu fosse bom em procrastinações, excitar-me-ia menos ter um coringa na manga. Porque me excita, vejo a bajulação como defeito positivo, pois eu aprendo a valorizar o diálogo quando fico calado.

O quanto me calo?

Com o peso da mão sobre a barriga, só então eu percebo que havia adormecido na poltrona. Mas não vou reclamar do cochilo nem maldirei do almoço, até porque eu nem dormi direito.

De certo mesmo é que comi tudo, pois peito de frango grelhado com arroz e feijão é combinação que me põe lesado sem atiçar o estômago.

Agradeço a comida que fiz; e estou satisfeitíssimo porque nem terei que lavar o prato, já bem limpinho porque o lambi com gosto.

Prazerosos são esses hábitos que pratico: tirar uma pestana como se fosse a última; agradecer o básico como se fosse lógico; cadenciar com esdrúxulas por cacoete Chiquíssimo.

Só que eu estou torto.

Não me notei torto assim que acordei. Desde antes do almoço; logo cedo, quando lambi a colherinha depois que adocei o café. Se tivesse lambido sorvete, eu estaria melhor.

Como desejos têm que ser atendidos, vou ao pote e tiro lascas de flocos. Admiro-me da cachola que sorri, não me jogarei na poltrona.

Sento-me no vaso; e o celular toca, tranquilamente.

Tentam me convencer. Oferecem desconto na assinatura do jornal que assino. OK! Querem perder dinheiro. Aflijo-me, quero parabenizar de imediato quem pensa em gente como eu, que não se incomoda com telefonema logo quando está sentadinho no vaso sanitário.

Que oportuna maravilha! Tratem de cobrar menos, pois eu prometo assinar a cada vez que me ligarem comigo ocupado com essas coisas de entranhas, intestinos e excrementos.

Agradeço-lhe, telefone, pelo seu perfeito entrosamento comigo.

Telefone, não basta tocar bonito, porque aparelho decente mantém a ligação e não sofre com ruídos, interferências ou linhas cruzadas.

Pacifica-me ouvir quem fala com segurança.

Ter voz firme é atributo de quem sabe o que tem para dizer. Quem conhece a arte da comunicação está treinado. Artista da comunicação é quem passa adiante a realidade como se falasse a um amigo.

Artista que telefona, agradeço-o por me fazer crer que nem preciso falar que sou mesmo o seu melhor ouvinte.

Agradeço por deixá-lo esfriar minha cabeça, por me fazer ouvi-lo a falar de mudança de planos, por não falar somente que arroz com feijão é coisa boa para toda gente.

Agradeço-o, portanto, por não me irritar, por não me fazer acreditar que o mundo anda desafinando pra caraca.

Que caramba!

De coração eu agradeço, pois não é fácil encontrar pessoa que não esconda que a solução mais simples teria sido tirar o capuz e não vestir a carapuça.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de julho de 2023.

quinta-feira, 20 de julho de 2023

Pauta mágica

 

Pauta mágica

 

Muita história me é contada porque tenho cara de quem acredita no que falam. Pois, não reste dúvida, eu fico comovido quando capricham nos detalhes. Sensibilizado pelos pormenores, eu imagino situações e acrescento minúcias. Com minha colaboração, a história original torna-se outra. A novidade é tanta que as pessoas mal percebem que a base do que eu conto é o que elas haviam dito.

Quando contam uma história que me espanta, escuto-a.

Faz alguns anos, conversei com um jornalista que estava apurando informações sobre um determinado personagem, cuja biografia era de fato bastante peculiar.

Deram meu endereço ao repórter. Disseram que eu seria uma boa fonte sobre qualquer pessoa da cidade. Sendo um contador de causos, eu estaria preparado pra ajudá-lo com a reportagem.

Para que meu auxílio não fosse repetitivo, pedi-lhe que contasse o que sabia sobre o cidadão de seu interesse.

Ele falou da história mais conhecida da cidade. Falou-me do político que ganhou mais de cem vezes na loteria.

Disse-se incrédulo, pois aquela história era invenção fantasiosa de gente interessada em destacar o lugar. Tinha manipulação. Tinha esse chamariz folclórico: nenhum Aladim ficaria sem a fortuna do gênio, pois todo volante era uma lâmpada encantada.

Compadeci-me dele, contei-lhe outra variante.

Há muito tempo, eu estava disposto a escrever um livro com essas histórias urbanas que mais parecem lendas.

Numa cidade vizinha, falaram de uma senhora que recebera o valor equivalente a um milhão de dólares.

Fiz meu trabalho: vim procurá-la, fui ao banco, contatei o contador.

Arrepia-me a verdade.

Segundo fui informado, em menos de um ano, a mulher montou um motel e vendeu-o pelo dobro do que gastou.

Com o dinheiro, mais uma vultosa quantia que seu sortudo favorito não se furtou a dar-lhe outra vez, ela construiu o mais espetacular spa da região, cujas palafitas sustentam choupanas de bambu.

Com a devida licença ambiental, foi ela que fez o lago onde também funciona outra de suas miraculosas empresas, o parque de toboáguas ludicamente alucinantes.

Os simplórios têm certeza de que o homem das loterias apaixonou-se pela musa das águas, que essa seria a razão pra ele, todos os dias, seguir fazendo as suas apostas.

Dizem que esperava formar fila para passar mais tempo na lotérica, que ele bebericava seu café não pra ouvir reclamarem das dívidas, que ele gostava de ajudar gente com parentes perdidos nos confins.

Também é verdade: ele ia à padaria de manhã e à tarde.

Todo mundo sabia que o copo tinha dois dedos de café e quatro de uísque, que aquilo mais magoava seu coração sapecado.

Como apostava qualquer número, ele vivia ganhando.

A região soube da história. Muitas desgraças arrastaram forasteiros pra tantas filas daquela famigerada lotérica.

Até que a felicidade foi mesmo fulminante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de julho de 2023.

terça-feira, 18 de julho de 2023

Verdadeira recíproca

 

Verdadeira recíproca

 

Ainda criançolas de chupeta, o mais inocente só mentia se percebia vantagens. A diversão alegrava pra valer quando a mentira era contada como história inacreditável. Porque nunca foram de bobear, os irmãos sempre foram vistos como indomavelmente criativos.

Depois de décadas experimentando emocionar, contentar, indignar, revoltar ou assustar, os dois induziam audiências aos sentimentos que tanto almejavam produzir. E as palmas eram inevitáveis.

Mas a história mais impressionante quem contou foi Atanagildo.

Era noite de nevoeiro. Os sapos não coaxavam. Ninguém zanzava nas ruas. Até os fantasmas não murmuravam junto às janelas. Não era inverno, mas a alma da gente concebia que fosse.

Numa noite mesmo invernal, daquelas de arrepiar os pelos da nuca, o bom seria ir bebericando um bule de café, não ligar a TV pra não ser assombrado pelo mundo dos vivos e, depois de discar um número ao acaso, avisar que as rádios acabaram de noticiar que o fim dos tempos não começaria às onze horas, cinquenta e nove minutos e cinquenta e nove segundos mas, precisamente, no instante seguinte.

Certo, meia-noite é o marco zero de muitas histórias, principalmente daquelas que não conhecem o esquecimento, particularmente porque, de geração em geração, revelam verdades que vêm do sono.

Quando o medo filtra cada palavra da história narrada, quem escuta pensa ter ouvido a voz do princípio das eras. E o abismo do tempo vem à tona, pois o fundo foi revolvido. Quem mergulha no poço traz a pérola que haverá de adornar o colo dos corajosos, que esses não se fecham ao que veem, embora temam de olhos abertos.

Há muito, quando beijos cheiravam a cigarro e porcos tinham asas, depois de um dia cansativo no banco, foi numa noite de densa cerração que Atanagildo achou o táxi que o levaria para casa.

Outros dias vieram e outros cansaços foram vividos, Atanagildo mal lembrava o dia em que o destino trouxe-lhe aquele taxista, que era seu conhecido havia mais de meio século.

Falaram aquele nome; Atanagildo recordou-se do socorro prestado pelo fulano.

Quando foi? Terá sido naquele ano? Não haveria engano?

Contaram que o dito fulano havia morrido um ano antes. Contaram que o táxi foi incendiado numa estradinha. Acreditaram de verdade que pudesse ter dormido naquele táxi queimado com o motorista morto ao volante, porque ninguém duvidaria da palavra de quem sempre soube colocar verdade em tudo que contava.

O irmão falou. As pessoas falaram. E Astrogildo ouviu-os.

Se todo mundo estava impressionado, Astrogildo achou que o certo era contar que, bebendo café à janela de casa, foi quando um raio caiu na figueira da praça.

Como a noite virou dia, Astrogildo viu bem o táxi, ouviu melhor ainda o nome da pessoa a quem o taxista deu boa-noite, pois, à vera, o fulano morto falou “Atanagildo” com todas as letras.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de julho de 2023.

domingo, 16 de julho de 2023

Lua nova

 

Lua nova

 

Se fosse para colocar em uma frase de impacto o pensamento que às vezes me seduz a fazê-lo, eu parodiaria o slogan de um conhecido canal de notícias da TV: a realidade nunca vacila.

Como não pretendo vacilar, eu leio o mais que posso.

A leitura pede concentração. Pode o mundo cair feito jaca na minha cabeça, mas não sou muito newtoniano pra assimilar o golpe como um convite à gravidade da lógica. Descontando o galo, eu gracejo que não sou devoto febril da razão. Mantenho o foco. Eu olho até que vejo; vejo até que enxergo: letras viram palavras viram ideias; se eu consigo não somente manter esse fluxo quanto ainda me compreender nele, o livro são páginas e cada página é uma janela.

Quando me entendo comigo, abro-a e vou pelo livro afora.

Pego o caminho e afeiçoo-me à caminhada. Acolhido pela poltrona, bato perna pro Eldorado, bato asas pra Laputa, mergulho até Atlântida, não saio do lugar no qual não paro. Não me castiga ser andarilho. Não me perco, eu ganho o mundo.

Todo livro é um mundo. Há mapas e tesouros. Há céus e cavernas. Pode ter céu astrológico com previsões de um dia mais afeito aos meus desejos de estrela cadente. Pode ser que haja cães de três cabeças a destroçar almas bisbilhoteiras. Há em mim águas de memória e águas de desmemória, beberico-as, saciam-me, mas tenho muitas sedes.

Todo mundo é uma vida contada como der: do começo pro fim, do meio pro começo, do fim pro começo, do meio pro fim.

Alegremente radical, palpito feito outro Spinoza cartesiano: cáspite!, o melhor meio de chegar ao fim é começar pelo fim.

Aí pelas tantas, reinicio: largo o livro, abro a janela e verifico o que está acontecendo: por que você não para de miar?

Como eu não entendo a gata, interpreto-a.

Como não precisa se justificar, ela estava miando para que alguém viesse ouvi-la. Esse alguém fui eu, que nem preciso aprovar tudo o que ela diz, só tenho que respeitá-la com meu silêncio.

Porque não precisa mais chamar a atenção sobre si, ela pode dizer o que tem a dizer. Um esforço infantil é afinar o espírito pela seriedade, pois a gata não esgoela à toa. Para não gastar suas cordas vocais com súplicas estúpidas, usa as patinhas até que portas sejam abertas.

No mundo das explicações: quem tanto quer agradar é quem acaba irritando; que valha a pena, quem quer ser entendido; é cativante quem faz ronronar os seus grilos da cuca.

Que gata cristalina: apresentar-se inteira à lua, que não é lua cheia, é lua nova; lua sem dragão nem guerreiro; lua que não precisa de uma biruta porque não é nenhum campo de aviação; lua é que nem chuveiro de quatro estações, pois gato que tem medo de água fria, tem também de água pelando, ela fique morna feito saliva; aliás, a lua fala ao gato que não seja lunático nem melancólico, seja lírico.

Soberba nos modos, a gata lambe as partes íntimas e dá no pé. Já o Blake que estava aberto, nesse deu eclipse.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de julho de 2023.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Aquele abraço

 

Aquele abraço

 

Tem feito frio. Tem chovido também.

Resolvi investigar, revelou-me o calendário: é inverno.

Nesta parte do país durante esta quadra do ano, inverno é estação seca, mas anda chovendo bastante. Quiçá por causa do El Niño.

Por culpa das águas do Pacífico, e porque tenho alma sentida, meu sentimento é que vou chorar. Mas nem lacrimejo.

Poderia imitar os azulejos de casa, tão lacrimejantes. Basta a friaca apertar pros rejuntes sangrarem o que não sentem. Se sentissem dor, cada lágrima escorrida não seria incolor nem escorrida.

Mas, nem soluçar eu soluço.

Não porque tenha domínio sobre mim, é porque a minha alma esfria pra fora, deixa enrugada a pele. Como se acabasse de ter saído de um rio, saído das águas gélidas de um rio, afinal é inverno.

Tem feito frio e chovido mais do que o normal, comovo-me. Porque a quebra da regularidade desarranja, sobressalta, faz pensar.

Comovido, não me arrepio. Quero-me calmo. Que o desassossego não denuncie minha agitação. Amanso-me, forço-me à mansidão, até me arrepio. Arrepiado, fico arredio. Olho para cima, busco o horizonte, faço o que for preciso pra fugir de abraços.

Um desconhecido vem vindo. Se não o conheço, não me constranjo a saudá-lo. Conto como desnecessária a comunicação entre nós.

Justo quem, sem mais, tasca-me um abraço apertado, com beijinho no rosto, como se esta demonstração de carinho tornasse evidente que o momento é para afetos que alegram.

Fico bobo com a minha falta de alegria.

O beijoqueiro fala. Diz que percebeu minha ânsia, que eu queria ser notado. Sentindo-me desconfortável no abraço, era óbvio que eu pedia um contato menos ligeiro. Por captar-me tão solitário, beijou-me.

Bestificado, continuo parado; calado, continuo perplexo.

O sujeito diz que sou mais um a ficar desnorteado com a gentileza, ou ela é rechaçada como agressão ou as pessoas a estranham, porém o problema não está no abraço.

Abraçadas por gente conhecida, tudo certo. Quando a circunstância é favorável, abraçar é positivo. Quando existe sofrimento, que o abraço as reconforte. Se as pessoas querem briga, basta abrir os braços.

ꟷ O senhor é expert em comportamento humano, hein?

ꟷ Nem tudo que é humano me interessa, sou só um demônio.

ꟷ Você foi obrigado a vir aprender as sutilezas da convivência?

ꟷ Aprendi alguma coisa. Se o abraço é honesto, sempre se espera algo em troca. Com a cobrança antecipada, o cínico exige presentinhos mais caros.

ꟷ Lá a vida não é igual?

ꟷ Sem qualquer questionamento, aplico a punição: as pessoas que não suportam abraços que sofram porque, pelo resto dos tempos, hei de prosseguir nos abraços.

ꟷ Por que, diabos, demônio exemplar terminaria aqui?

ꟷ Senhor, de tanto abraçar, passei a gostar. Só sei que o Momo do Inferno não gosta nadinha de quem goza dessa felicidade.

ꟷ Demônio achar de ser feliz no Brasil, que privilégio!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de julho de 2023.

terça-feira, 11 de julho de 2023

Terreno santo

 

Terreno santo

 

Naquela família, era o primeiro aniversário que se comemorava fora da casa, mas festa de criança que mais parecia velório?

Uma vez que a menina não sabia o que era velório, ela corria, dava gritinhos e, para que a mãe parasse de insistir que o fizesse, chegou a comer um sandubinha de patê de sardinha.

As primas e os primos de idade próxima da aniversariante também corriam, davam gritinhos, sem reparar na falta das coxinhas.

Sem reclamar que estava quente, o pai bebia tubaína.

Porque o colega mais interessante da classe tinha ido ao cinema, a irmã mais velha não achava graça em nada.

Satisfeitas por servir os convidados, as irmãs do meio eram gêmeas até na surdez que as impediam de ouvir queixas.

Ainda que houvesse descontentes, foi a esposa do irmão caçula do pai da aniversariante que fez aquela comparação, que a festa lembrava um velório.

Já que ninguém sequer choramingava, a pessoa velada talvez não tivesse tanta importância, quiçá fosse político ou advogado, essa gente conhecida cujo passamento ficasse registrado com uma selfie, alguém cujos comes e bebes tinham que ser miseráveis daquele jeito.

Com a festinha encaminhando-se pro ápice melancólico, que seria cortar o bolo com os presentes formalizando os parabéns, eis que veio um homem responsabilizar-se pela virada.

Ninguém o conhecia, mas era uma pessoa bacana, tão bacana que seria descortês se lhe recusassem o sorvete e o chope.

Com a gentileza de potes e mais potes, de colherada em colherada, até a criançada foi bastante genuína pra não deixar passar em brancas nuvens toda aquela gratidão:

ꟷ Aleluia, moço, aleluia!

Embora ninguém o conhecesse, o moço que não era mais tão moço seguiu servindo as três bolas generosas de sorvete porque as graças, sem ilusória modéstia, não deveriam ser dirigidas a ele.

Embora ninguém lhe soubesse o nome, uma vez que providenciara aqueles rapazes que sabiam mesmo tirar chope, o moço que não pedia louvores para si merecia realmente encômios de toda gente.

Quem não parava de cumprimentá-lo era o pai da menina que fazia sete anos. Das quatro, era a primeira filha a ter festa com convite. Quão misericordioso era o Pai Celestial por trazer ao quintal da sua casa um ser iluminado a ponto de proporcionar tal evento realmente muitíssimo inesquecível.

ꟷ Até fotógrafo profissional o senhor trouxe!

ꟷ Às vezes a memória falha, mas são as fotos que eternizam cada momento; garantiu a mãe da mãe da aniversariante.

Uma vez que a realidade não para de gerar maravilhas, muita gente nem se dá conta que a eternidade passa.

Passado um ano, na festinha da mesma menina aniversariante, por saber que um ano é tempo demais pra quem vive preocupado com os mesmíssimos problemas de todo dia, o sorriso confiante do benfeitor brilha nos santinhos que a equipe devidamente uniformizada distribui a mancheias.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de julho de 2023.

domingo, 9 de julho de 2023

Uma constipação cordial

 

Uma constipação cordial

 

Foi num nove de julho que nada tinha de especial, seria outra tarde de terça de tranquilidade, na faina que dava sempre o mesmo trabalho, repentino, porém, foi o temporal.

Tinha acabado de almoçar, estava sonolento; a ideia de correr não o empolgou. Poderia escorregar nos paralelepípedos se acelerasse na direção do escritório; acendeu o cachimbo.

Quando aborrecido, o reloginho da natureza era implacável: o nariz trancava, a barriga empedrava; travou ali mesmo, no passeio.

Uma vez que não estava disposto a incomodar ninguém, não entrou em loja alguma nem para evadir-se de si.

O toró caía, a rua alagava, as pessoas paravam, o trânsito não fluía; o mundo não o interessava, sequer o celular.

Parado, fumava. Para a mente trabalhar sem distrações, mantinha o olhar no horizonte. Só especulando pra entrar na cachola? Ajeitou a borboleta, aquela gravata era violeta por conta da Fiorentina, o time do pai, do avô, do galho da sua família nascida Médici.

Tudo ficou evidente: a mudança súbita era catiço de quem contava com que ficasse fora de si. Contudo não seria um maldito mandingueiro que o iria tirar do sério.

Pessoa cuja seriedade ficava bem de terno e gravata, matutou que, se as condições não indicavam a brusca alteração do tempo, poderia aproveitar o cachimbo, acompanhar o alagamento da rua, dispunha de um tempinho a mais para matutar sem culpa.

Que pensamento bom: sem culpa, sem remorso.

Não sentia remorso, uma vez que aquela circunstância era algo que o favorecia, isso, ‘ter mais tempo’, não significava que a hora deixava de passar, podia esquecê-la, podia suspender o cronológico, ignorá-lo que passava, ia passando, não parava de passar.

Gostando de continuar parado, fumando, pensando, isso o deixava tranquilo quanto à leitura do que acontecia.

Ler o mundo, ler a realidade, ler livros que sabiam de outras vidas, passadas, presentes e futuras, que davam a conhecer os mundos que existiram, existem, hão de vir à tona, até mundos imaginários, era isso que tanto o agradava e seduzia, punha-o esquecido de si.

No princípio não tinha verba, precisava trabalhar. E trabalhava para ter condições de ler. Além de comida e diversão, havia a autocrítica.

Se o almoço aconteceu, a chuva acontecia.

Pro Paulo Mendes Campos, “o que aconteceu já é eternidade”.

O que acontecia era o quê? Era obra da eternidade?

Sumidos no silêncio, acontecimentos viravam lama. Lembrados, os eventos relampejavam feito cacos. Na consciência, recordações eram o vaso restaurado.

De volta ao cachimbo, ao alagamento da rua, ao congestionamento, à chuva que não diminuía, de volta à gravatinha violeta, ao terno cinza, ele sabia que, naquele instante incomensurável, relógios não existiam, a Terra não rodava, o cosmos não pulsava, seu coração nunca fora de getulismos, ele era trabalhista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de julho de 2023.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

O rubi

 

O rubi

 

Ia passando como quem sabe que ninguém na fila da lotérica quer vê-lo pegá-la como se quisesse apostar; e essa gente que põe a inveja a faiscar pelos olhos é a mesma gente que equipara a fila quilométrica da lotérica a um cisco no universo; tal gente cai nesse cochilo que nem saca que o demônio a cutuca como quem só esbarra.

Ele ia passando, mas abriram o portão.

Com o portão aberto, dona fulana e um de seus fulaninhos estavam saindo, pediu um copo de água porque tinha sede, mas não precisava desesperadamente beber água, estava com a garganta pronta para ser molhada, amaciada um pouquinho, porque a gente, qualquer que seja essa gente, toda gente conhece alguém que sabe de uma pessoa que deixou de beber água por um tempo e pegou tosse de tanta secura nas cordas vocais e pariu uma ampulheta, que era tanta a areia que tossiu, desbragadamente tossiu porque tossia orgulhosamente.

Ele tossia, e ficou tossindo até que esqueceu o copo d’água.

E bebeu um gole, experimentou que gosto poderia ter aquela água; se fosse de fato água, saberia porque não sentiria gosto; mas aquela coisa que trouxeram tinha era gosto de limão e tinha cheiro de limão e, porque poderia muito bem ter sido coada, até a cor de suco de limão a coisa tinha: se tudo isso ela parecia ter é porque era realmente água.

Sentou-se na mureta. Balançava as pernas enquanto bebia o copo de água que demoraram uma eternidade pra lhe trazer, um desgraçado que não tinha sede como camelo no zoológico nem achava direito que o tratassem como camelo no circo quando tem espetáculo com o circo cheio, com os donos do circo com o baú cheio, porque todos os donos de circo têm o seu baú de carvalho, cuja chave está escondida no cabo da adaga que a mulher venera; quanto maior for a adoração, maior o brilho do olhar de quem cobiça mais que o rubi no cabo da adaga.

Acordaram o louco, e você diz que ele é um cara pacato.

Ele fala como se tudo fosse normal, como se os seus comentários não fossem disparatados, às vezes polêmicos, como daquela vez que o detiveram para que esclarecesse aquilo de dizer que todo mundo tem o direito de cometer um crime; pois se a lei existe é porque houve quem fez alguma coisa que não deveria ter feito; quando alguém faz alguma coisa chocante que esse alguém seja punido; e beltrano fique atento e saiba que será punido porque houve quem tivesse sido punido.

Sentado na mureta, ele não se acha maluco, nem quer que chamem quem venha convencê-lo a tomar a água que deram porque esperam que ele acredite em quem espalha que o córrego atrás da montanha é limpo; mas as mulheres sabem que a água daquele córrego é boa, se não fosse, não lavariam cuecas, calcinhas e tapa-olho de quem dorme com luz acesa mas cobre os olhos com essas vendas que pouca gente sabe quem são os sicranos que as costuram.

Vai, Zeca, fique sem tomar banho para ver até quando vai continuar agradando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de julho de 2023.

terça-feira, 4 de julho de 2023

A megera

 

A megera

 

Ruídos acordaram a mulher, que fora dormir assim que a luz elétrica caiu; com aquele aguaceiro, por óbvio, a força acabaria; e obviedades, por sinal, são inevitáveis.

Pra dormir, a mulher precisava de condições específicas, que fosse baixo o travesseiro e os roncos do marido mantivessem o ritmo.

Não se ofenda caso esteja passando por semelhante situação, pois a pessoa padecer de seguidas noites em claro por obra de terceiros é sofrimento; e a dor contínua amortece a sensibilidade; e a vítima acaba acostumada; em havendo resignação, mesmo que não haja deliberada condescendência, percebe-se em prazer involuntário.

Pasmado leitor, quem não dorme por amor é insone no paraíso.

Todavia, o sono da mulher foi interrompido por um barulho vindo de fora do quarto; disrítmico, era irritante; sem mensagem secreta alguma, era código indecifrável; se não alcançava decodificá-la, aquela era uma barafunda dos infernos.

Pilhada, ela deu com a filha no quintal.

Achando-se baterista, ela golpeava caixas de papelão com colheres de pau; eram baquetas, não precisava a mamãe gritar-lhe que parasse; o que fazia não era bagunça, aquilo era música.

E a mãe andava tiririca com aquela rebelde.

Se estudasse em vez de batucar, ela iria bem na escola. Não tirava notas mais altas porque vivia acelerada, pulando do celular pro tablete. Mal começava a ler a lição de casa e já ia jogar bola na rua.

A garota queria mesmo vê-la irritada.

Ela não poderia redundar contrariada, pois a língua passaria a jorrar bile tóxica, o chinelo desejaria sapecar nádegas e o tranquilizante mais eficaz era positivamente ir borboletear num shopping.

Que entrasse, fosse jogar no seu quarto, a menina obedecesse.

Com a obediente indo à sala para assistir ao jogo da seleção, o pai chega da rua exibindo um embrulho como se fosse um troféu.

ꟷ O presente é pra mim, papis?

Era, sim.

A menina tomou-o ao pai; ignorou o cartãozinho; rasgou o papel de presente como quem retira casca de banana; foi atirando as folhas de jornal amassado que recheavam a caixa: o presente era uma bola.

ꟷ Papis!

Ela sonhava ter uma bola, vivia pedindo que lhe dessem uma, como há lógica quando a esperança é atendida: teve a disparada do coração e o carreirão pro quintal.

Pra não machucar a bola, a felizarda passou a cabeceá-la.

Como aquilo ficou chato, achou de chutá-la contra a parede.

Batia com a parte interna do pé; dava bico; arriscava uma trivela; e tudo era felicidade, até quando errava uma chaleira.

Querendo-se uma senhora craque, a garotinha chutava com os dois pés e, vez ou outra, fazia a bola subir o tanto que precisava para matá-la no peito e soltar sem-pulos.

ꟷ Hora do almoço, amore.

Em vez de abrir o berreiro porque lhe foi tirado o doce mais doce, a menininha pulava e, a cada vez que as mãozinhas nem relavam a bola acima da cabeça, ela gritava um palavrão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de julho de 2023.

domingo, 2 de julho de 2023

Ouvidor

 

Ouvidor

 

Enquanto isso, enquanto continuar pisando a grama sem a arrancar para comer, longe dos parvos que, para cuidarem de si pelos outros, passam os olhos pelas folhas paridas pelas ruas, a pessoa que ignora a tabuleta sabe o que ela traz por escrito: proibido pisar na grama.

Deitando ao largo a parvidez, aquele homem postado a dois passos de uma sapucaia em flor é sujeito identificado pela cidade.

De modo geral, quando estão suficientemente perto para ignorá-lo, os locais costumam ficar divididos em três grandes grupos: há pessoas que não veem fantasmas mesmo que sussurros lambam os lóbulos de suas orelhas que incandescem devido a curtos-circuitos do que mal se reprime; embora não consigam vê-los, há cidadãos que se comunicam com espectros por meio dos murmúrios e grunhidos, porque o invisível existe ou anjos agora à solta continuariam engaiolados nas páginas de quem se autoajuda como livro aberto; e tem a turma que vivencia o que desconhece, sensibilizada feito filme antigo que conta com as químicas das salas de luz negra para que, de fato, algaravias e tatibitates tomem forma, com gramática e semântica compreensíveis.

Pra traduzir o que a cidade não diz, com os ouvidos livres de pios e cantochões, à sombra da sapucaia em flor no centro da praça no centro da localidade, ele não faz cera ao desentranhar tantos labirintos.

Por sua verve vívida de moralista sedicioso, a segregar decadentes de crepusculares, há poucos que não fogem dele assim que o avistam e, menos ainda, há os que não o desaforam tal qual a um vira-lata, com balbúrdia e pontapés.

E o dia ia bom, sem que namorados brigassem por um beijo a mais, até que lhe contaram que os enamorados cessaram os beijos, pois foi um menino quem começou aquela encrenca.

E foi uma estilingada certeira.

Que infelicidade do mundo quando o desgramado é um menino que mata com mamona um passarinho que jamais poderia ter-lhe feito algo de mal, a não ser que seu canto, de bicho mavioso, soasse por demais ofensivo, a ponto de enraivecê-lo para o tiro do estilingue.

Raiva de quê, criatura?

Menino não tem que sentir raiva, precisa brincar, porque é divertido ser criança. Quando brinca, a criança aprende a ser furibundo somente de mentirinha.

Brinquedo quebrado, menino, custa dinheiro repô-lo.

Criatura, aprenda que não tem que bancar o destruidor do que seja belo, do que tenha vida, como o passarinho atacado à toa.

Então ali está, pisando a grama a dois passos da sapucaia em flor, tão logo soube da morte, o camarada veio escutar pardais, bem-te-vis, andorinhas, veio escutar o que estivesse na árvore àquele instante no centro da praça.

Já que a tristeza não pode ser ignorada, aviva-se o lamento.

De repente, na sapucaia em flor, o canto de um joão-de-barro vence falatórios, buzinas, marteladas e brocas de dentista.

E o tal camarada deita na grama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de julho de 2023.