Puro
fingimento
Quando o mundo acuava-me, encurralava-me,
e eu não sabia como desbundar, eu dissimulava que não sentia a força do
pensamento.
Sincronizadas comigo, havia chaves que me
acudiam.
Com as mãos da hora apertando meu gogó, pra
que a encontrasse pra ir logo trabalhar, a cachola captava o som da chave da
porta da rua no bolso da calça ainda pendurada no guarda-roupa.
Outro exemplo desse universo bom
companheiro?
No segundo em que, impolutamente, tolerava
em mim algum desejo obscuro, a chave da moto luzia no chão ao lado da cuba do
lavabo no instante em que a visita motoqueira levantava-se do vaso.
Embora, vez ou outra, a realidade
permita que eu sinta algumas das suas estripulias comigo, eu finjo que sou um
camarada apolíneo e, com a culpa de fluir pelos humores, não tapo o nariz nem
aviso que preciso trocar a cueca, corro fazer a minha parte.
Outro dia, entretanto, em vez de
escafeder-me, tirei a pressão, tratei de encenar a lentidão dos inatingíveis. Continuei
no meu jogo olímpico de selecionar cebolas enquanto um bebê me chamava de vovô.
Diante desse amor tão insistente, aquela
mãe se fez de contrariada, mas a sua cara feia não me intimidou.
Sem conseguir arrancar-lhe sequer um
sorriso amarelo, escondi o meu orgulho de avô atrás da aura simpática:
ꟷ O pequerrucho é seu irmãozinho?
Nas situações em que o fingimento é
tanto que nem me constranjo, falo vulgaridades, bobagens. Entretanto, eu apelo
ao calão se a minha informalidade é percebida como forçada.
Que os desgostosos enfezem, desprezem-me.
Não surto se me desprezam, pois eu não vim
ao mundo pra arrumar confusão com quem não disfarça o mal-estar que provoco.
Agora, quando eu fico incomodado,
incomodo-me: faço-me sereno, aquieto-me, afeto a calmaria que me exija que eu
fique contido.
Sem que se sigam borrascas e,
consequentemente, uns naufrágios no ressentimento, apago a lâmpada, sento no sofá
até que lembre algo que me contrarie, me enerve, faça-me tomar alguma atitude,
nem que seja ir tomar guaraná.
De tanto esperar, diachos!, vou beber um
copo.
E leio a frase num papelucho fixado na
porta da geladeira: bem faz o morcego que escuta melhor porque tem a visão
prejudicada.
Eu faço questão de ouvir-me que não me lamento
de que houve um tempo em que a felicidade nem me preocupava.
Digo que eu fui criança que brincava na
rua, nadava no rio, soltava pipa e, pela escola cedinho, dormia cedo.
Hoje, convém que se comente tudo,
inclusive o que nem ocorre com a gente. Eu, todavia, declino dessa
conveniência.
Se fosse um sujeito expansivo, dado a
falar de mim como se falasse de gente desconhecida, a maioria certamente pediria
a internação da minha pessoa, como abilolada por expressiva amorosidade.
Embora me recorde do semblante alto-astral
da jovem senhora que se dá bem com o sogro, me pego enlevado com o refrão:
ꟷ É o vovô. É o vovô.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de agosto de 2023.