Lição do dia
Puxo pra cá, do ontem da
memória, o dia em que tomara o valente de um tombo, conforme já pude absorvê-lo.
Se parasse aqui, como parei lá, ficaria no anedótico. Nem daria pra afirmar se
foi efeito do pé que se perdeu da segurança do passo, se o escorregão ocorreu
pela calçada molhada de chuva ou se estavam lavando o passeio.
Então, ao lapso, digo,
aos fatos.
Houve testemunhas. Dentre
elas, porém, exclua-se o cão que nem aí pro cara caído. Também tiremos da
história o guarda-chuva, que, se a ele fosse dado ter voz, tomaria por
mentecapto o escrevinhador, em singelo troco pelo estrago da queda.
Fixemos a nossa atenção,
portanto, nas gentes às quais passo a dar evidência, que as suas ações, espera-se,
possam vir a colaborar prum final de elevado tom, e exemplar, inclusive.
Acudindo-me a mim mesmo
para levantar, escutei o homem a se dividir: se tudo não passava de cena
ridícula ou se havia necessidade duma expressão simpática. Quem ri por dentro,
nem se segura diante de cidadão estatelado. Porque fiz tal leitura pelo som da
voz, tratei de acusar o vento.
Embora controlasse os
gestos, enrolando o pano com a forçadinha básica nas varetas entortadas, escorei
no poste mais próximo o inútil, que servisse a outrem pra alguma coisa.
Um passo além, e colhi um
passa pra dentro, com a garotinha de patins informando a mãe que o rapaz caiu
feio.
Que rua em flor!
Normalmente deserta, mas
o alinhamento dos planetas, por certo, calhou de pô-la viva de olhares a me
julgar um idoso trôpego, talvez pelo tênis azul de cadarço rosa-shocking, ou
pelo bermudão xadrez.
Sei lá.
Só sei que a mulher
descendo do carro me pareceu uma bruta de uma antipática, nem perguntou nada.
Fosse outro dia, outra
hora, outro momento?
Tem dia que a vida manda
a gente tomar no SUS. E fui, pois não tenho plano de saúde nem pretendo ter um,
por falta de grana. Com o nariz escorrendo, melhor um livro. Com os brócolis na
promoção, não posso perder a frase do filme que acabei de lembrar. Com o boleto
gritando da gaveta, nada melhor do que o melhor pra gente, mesmo. Afinal de
contas, a vida não pensa duas vezes pra mandar a gente ir tomar no SUS.
Já no Irmã Dulce: a
senha; a triagem; as notícias no celular; e a tal médica: depois de cinco
caixas de anti-inflamatório, o senhor perdeu o juízo!
Pra não cair naquela rua
de novo, subo outra.
Brota este texto. Com os
catadores de letras trançando as minhas impressões, sinto-o encaminhado pro fim.
Nada estrambótico, capaz de nem despertar a atenção em quem já nem anda bem, com
olhos de preguiça, cansaço ou tédio.
Por causa do tédio, irei
bater a janela do programa? Tenho modos. Mesmo que nem se perceba o dedo da
angústia ou tenha de soletrar S.U.S. de trás pra frente? Sou educado.
Hoje como ontem... Ontem
como sempre... Sempre como hoje...
Como nenhum tombo não é
metáfora, caí direitinho.
Ê bexiga.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de outubro de
2019.