terça-feira, 8 de outubro de 2019

A culpa é do sistema


A culpa é do sistema

“O senhor por aqui!”
Nem bem entrava naquela fila serpentina, acabaram com a minha chegada anônima. Pra ficar esperando, prefiro ficar de orelha em pé, ouvindo a prosa das pessoas. Quando a demora é irritante, presto uma atenção danada nas funcionárias ─ pra saber por qual motivo os ponteiros comem com maior apetite o tanto de chão no qual me enterram pelos pés.
E eis que a estudante de faculdade, reconheci-a depois que se identificou como estudante de faculdade, pra chegar ao que a ela interessava, em momento de extrema precisão, foi direta. Daí a interpelação num instante. Sim, a necessidade faz a vez.
“Nem sei se o senhor vai poder me ajudar com o trabalho que tenho que fazer lá pra faculdade.”
Nem cheguei a cruzar os braços à altura do peito.
“É sobre a poesia de hoje. Se a poesia tem vez no mundo atual. Se a poesia fala sobre o que está acontecendo. Será que tem poeta falando o que tem acontecido?”
Nem com um pigarro tive como articular as ideias.
“Não precisa responder agora. O trabalho é pra semana que vem. Pode pensar com calma.”
Arrisquei outro pigarro.
“Nossa! Assim que o senhor apontou na porta, fiquei na torcida pra pegar a fila. Me perdoe se estiver incomodando, mas é que preciso de ajuda e sua ajuda vai ser muito, muito importante. Porque o senhor é amigo de todo mundo, né? E por conhecer muitos poetas e escritores, pensei, ele vai poder me ajudar.”
Sim...
“O senhor já foi alguma vez na faculdade dar palestra?”
É que...
“Bom, não importa. Se for mais fácil, pode enviar por mensagem. Dá tempo, viu? Vamos fazer o seguinte, digite o meu número. Ai! O senhor tem celular, né?”
Tirei o aparelho do bolso.
“Que alívio! O senhor não está na idade da pedra.”
Sem precisar de ajuda, salvei o nome e o número.
“Que fila que não anda! Vou embora. A gente se fala.”
E foi-se.
O problema não estava na estudante, euforia é contagiante. E fiquei ali, naquele perrengue. Pelo jeito, amarrei meu burro à sombra das estátuas em flor. Liguei o rádio mental, mas a música era uma que não queria lembrar. Fui desligado pela sinfonia de vozes que o Glenn Gould não desprezaria. Mas ali a indignação era em vários tons, mas numa única nota.
Adeus, paz.
Fiz cara de paisagem; virei olhar o mostruário de móveis; cruzei e descruzei os braços. Que não fosse comigo. Inventei de parodiar o Bezerra da Silva, “quero pensar, mas não quero pensar agora”. É claro que o semblante, de pateta, deixava transparecer o cara que sonha acordado.
Ah! Iria colaborar com a estudante da faculdade. Mostraria a ela que a palavra, como ferramenta, serve de veículo à ideia, mas a mensagem produz efeitos quando...
“Tá dormindo, mané?”
Quando me posicionei no guichê, a operadora informou que o sistema tinha caído. Sorri, tinha tirado a manhã só pra isso mesmo. Daí me veio o verso da poeta:
O processo se confunde qual barata tonta.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 08 de outubro de 2019.

domingo, 6 de outubro de 2019

Massa corrida


Massa corrida

Não há razão pra achar graça nessa história de que o Burroughs, o doidão do William Burroughs que escreveu Almoço Nu, enfiou na cabeça de correr atrás de um vizinho, justamente o Thomas Harvey, o patologista que abduziu o cérebro do Einstein, cujo corpo mal tinha entrado na morgue do Hospital de Princeton.
Além disso, beberagens de cogumelo ou de bolor afetam a mente. Afinal, como o cara pode estar em Nova Jersey na hora da morte do físico da Relatividade e noutro instante estar no... Kansas? Missouri? Pensilvânia?
Que viagem! Não se conserva genialidade em formol.
Sendo uma crônica de família, amável leitora e afável leitor, urge uma intervenção de cunho racionalista. Não basta possuir a compostura, tem que se portar com credibilidade. Até porque, na estrada da vida, os fatos que têm pressa aceleram na curva e atropelam lebres e tartarugas.
A questão é que a massa cinzenta do famigerado alemão foi feita em pedaços, literalmente, pelo Harvey. Então, o sujeito correu os EEUU pra encontrar pesquisadores interessados em estudar o encéfalo tão diferenciado.
Na Universidade da Califórnia, mais precisamente em Berkeley, o Dick Vigarista encontrou o freio e a Penélope que entrou na corrida foi a doutora Marian Diamond.
A cientista examinou os miolos do humanista de Ulm. Precavida, levava o material de seus estudos numa caixa de chapéu. Dedicada, concluiu que o cérebro de Einstein era rico em células gliais, que produzem a acetilcolinesterase, enzima responsável por estímulos no sistema nervoso. Séria, depois de experimentos com ratazanas, deduziu que ambientes estimulantes influem na química cerebral e afetam o sistema imunológico. Inovadora, suas análises demonstraram que, em qualquer idade, alimentação, exercícios físicos, desafiar-se com algo nunca feito e o amor são fatores importantes pra que mudanças saudáveis ocorram. E, “se você tirar o cérebro, você tira a pessoa”.
O amor?
E aqui entra o Beethoven, outro genial do porte do Albert. Sem acesso ao cérebro mas de posse de fios de cabelo do Ludwig, especialistas bateram o martelo que o chumbo causou as agruras do compositor da Eroica, não apenas o amor pela Amada Imortal.
Aliás, no dia 06 de outubro de 1802, no chamado Testamento de Heiligenstadt, Ludwig van Beethoven admitiu o quanto a surdez era perturbadora, a ponto de levá-lo a pensar em suicídio. “Por que sinto essa tristeza profunda se é a necessidade quem manda?”
Bem fez o Beethoven em dar um cavalo de pau e mudar de tom pra revolucionar a música e a postura diante do cosmos, da vida e da plateia. Vieram à luz, depois do Testamento, trios para piano, quartetos de corda, a Kreutzer, a Appassionata, as Variações Diabelli e a Coral.
Hoje é possível, assobiando de cabeça, pintar em coro: enviem este beijo para todo mundo!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 06 de outubro de 2019.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Olho de boi


Olho de boi

Ê quinta-feira que não acaba.
Há um homem naquele bar. Sentado sozinho, na penumbra. De preto, do chapéu às botas. Atolado na lama da peçonha, pouco se mexe. De tão imóvel, passa por figura de selo antigo. Uns olhos azuis de procedência vetusta, de Muthill ou Perth. Por certo, em nada ajudaria ouvi-lo, com algum sotaque fugidio, na rispidez do ar sobrevindo feito navalha pelas cordas vocais, ou algo assim. O que explicaria os trapos da voz, se falasse.
Só agradece por meneio. A cada vez que a mesa é limpa, o cinzeiro é limpo; agradece. O gesto medido, de quem cultiva a eternidade. Disso não passa.
Por natural, pousa a neurastenia num copo. Assegurando-se de que aquilo não lhe escape, por nada. É certo que sugere um rio correndo as águas pra fonte, fosse recordação. Como se o objeto não materializasse o tão somente ali, indo à distância de acontecimentos pra essa vinda, no copo.
Coleciona cacos de suas passagens. Esta joia, por indústria, é artefato sem reprodução. Há esmero, há técnica de artesania. De argila ferruginosa, entre vermelho e cobre, a despender sua luz. Especiaria que conduz os olhares.
Não gosta que ponham reparo no dedo excedente que ainda resta na sinistra. Haja olhos no fervor além das mãos no copo.
Atrás do balcão, duas funcionárias. A serviço do qualquer, que tem por pinta a de se achar o tal. Fala pouco, anda pouco, dá o troco porque precisa, e porque deve confirmar-se no posto de dono do negócio.
O patrão nem liga pra TV que despeja o desgosto do mundo malformado. O desespero em filas, os desalentos em números, o petrificado de vidas em carneiro de toda monta. Mas pra girar o brilho da cor, conta com a flor das mercadorias.
Suporta-se, mordaz. Por que se inventam palavras que furam como punhal? Excluindo-se do buchicho, liberta-se do segredo, que essa gente ainda pica com sua mula a Calçada do Lorena, já a serra chamada Do Mar. Então, falamos.
De vida impronunciada, não dormindo nas dores do mundo, o alienado fica nisso, a pôr o olhar na visão do pavio que sustém, e à mão. Como se pudesse estar apagado, com os dedos enclavinhados. Acaso prorrompessem com arenga, pela máscara entrevada das rugas, não se permitiria em uníssono de Salve Rainha nenhum. A ele pouco importa o Halley indo ou voltando. Amanhã terá lugar o proibido hoje? Sua malícia tem o lume doutra ressaca, a de quem experimenta do veneno, o que o fortalece. O ódio dos ressentidos não lustra suas pegadas, de quem entra e come onde quer.
Há um labirinto que conhece o nosso homem, aquele que se levanta quando o sol se põe. Há rumo fora do bar, que o norte de si é o fumo dentro. Há dor a personificá-lo. Há solidão que não acorda galo algum.
Nascer de novo? ─ o raio despenca pelos abismos.
Água de mina, a brotar, e sobre a qual se anda e anda e pisa.
Seguiria anônimo se restrito a Velho. Que o qualifiquem Márgara.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de outubro de 2019.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Dito e feito


Dito e feito

Quando a coisa não tem remédio, melhor não dourar a pílula nem ficar fazendo fita, como quem chora o leite azedado. É certo que santo de casa faz milagre que gente de gosto enjoado cospe o vinho que virou água.
Contudo, há muita coisa que me pega de surpresa. E como é que reajo? Depende. Não tenho nenhuma resposta padrão. O momento é de chorar ou pra rir? Pra saber o que sinto, só na hora da verdade. Mas quando o rabo torce a porca, que diabo!
Nem sempre entendo o que o mundo anda dizendo. Acho que o aprendizado fica prejudicado pelo excesso de realidade. E convenhamos, a vida nos envolve de tal jeito que nem dá pra perceber o truque. Se a vida é sonho, melhor acordar ou dormir feito pedra?
Por não saber a medida do que a minha cabecinha filtra do que se passa, deixo estar. Prestando atenção se a garganta fica seca ou se me fazem de surdo os tímpanos, vou tocando o barco. Mesmo porque não há colete salva-vidas pro viver.
E tem coisas que não quero ouvir, justo essas mais eriçam os pelos do corpo. Parece que estou fingindo não escutar, e finjo tão bem que muitos me tomam como distraído. Mas essa distração é pra disfarçar o desassossego, só que o danado é traiçoeiro e sempre me escapa pelo que faço.
Ora, como diz um amigo, se o espantoso se faz presente, a melhor explicação é atribuí-lo às artes da Fortuna. A fada que faz chover sem cair água, a senhora da lógica do caos, a dona de matemática singular, é ela o fantasma na máquina que torna especiais os efeitos em ação.
Na estrada momentosa de minha jornada, digo que não é de bobeira que fico pasmo com a reação. A pasmaceira revela o quanto não ponho fé no que penso estar vendo, ou sentindo.
E se a bússola quebrada for um norte poderoso? Faz parte ir às cegas, flutuar a cada instante até que o pé encontre o fundo, e a lama, enfim, possa dar suporte a tal travessia como terreno menos instável?
Quanta retórica pra pouco caldo. Seu Rodrigues, aos fatos!
Então, tá.
Eis que, domingo, estava sentado quieto. Aguardando a vez de passar pelo médico, abre-se a porta e vejo uma adolescente grávida sendo atendida por alguém com nariz vermelho, jaleco com mensagem engraçada às costas e estetoscópio com um frango de borracha na ponta da auscultação.
Confesso que sorri sem caçar motivo pra mascarar o afeto. O insólito da circunstância foi o suficiente pra mexer comigo. E sorri com gosto, a ponto de o Doutor Sorriso dirigir-se a mim, de lá de dentro da sala, como se tivesse visto algum palhaço.
Saquei a mensagem da cena, e traduzo-a numa frase que de tão batida nem tinha reparado ao que ela diz: só os tolos não julgam pela aparência.
E não sei se a malasartina tirou a minha dor de ouvido por que surgiu do nada ou o tempo voou que nem vi o analgésico dar sentido à expressão alívio imediato.
Sei apenas que não creio em palavras que nada signifiquem, mas que elas existem, existem.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de outubro de 2019.


domingo, 29 de setembro de 2019

Fantasia de fantasma


Fantasia de fantasma

Memória é coisa recente, já dizia o Paulo Leminski. Todavia, chega de ficar com graça. Os fatos atropelam o papo furado da lua. O negócio é tirar a viola do saco pra cantar a verdade, nua e crua. O mais são águas que vão e não voltam.
E não voltam mesmo.
Mesmo agorinha, pensei na minha mãe, “vê se para de enfiar palavrão no que escreve”, e pensei quando chutei com o dedinho do pé esquerdo o pé do sofá, “puta merda, quebrei essa joça”, pena que só fui lembrar depois de ter dito, mas só disse depois de ter provado, por xis mais ípsilon, que o ossinho do mindinho é mais frágil que a madeira do móvel, que, aliás, nem tchum pra minha dor, ficou no mesmo lugar de sempre.
Sempre acabo me lembrando do meu pai, “filho, quando for preciso mentir, minta pra quem não vai mesmo acreditar que você seja capaz de dizer uma mentira”, e lembro bem na hora que pego a fila errada no supermercado, “tem dez itens, nem precisa conferir, eu sei contar, não sou nenhum imbecil”, não, a funcionária do caixa não me chamou de imbecil, mas os meus poderes extrassensoriais permitem prever sem que ela saiba que a estou ouvindo no texto aqui.
Aqui, bem aqui neste ponto da história, é que entra a minha irmã, “lá vem você com as suas capivaras de beira de rio”, não me perguntem, amável leitora e afável leitor, o que isso quer dizer porque ela nunca usou tal expressão, por isso, e pra deixar de lado o nonsense, abrevio o parágrafo e agradeço a ela pela sua contribuição involuntária, e vou em frente.
E vou em frente porque o Brasil não para, mesmo que ande meio zureta das ideias, “não estou me referindo ao Janot, que sempre foi o gatilho mais rápido do Centro-Oeste”, corrijo-me a tempo, antes que me acusem de biruta ou coisa que o valha, é que sei melhor do que ninguém como a minha cabeça vive cheia de demônios que a querem vazia pra fazer a festa com umas ideias de comunista que não tem mais aonde ir.
Se não tem mais aonde ir, então, “feche a droga da porta da geladeira pra não escapar o barulhão do arrasta-pé, seu energúmeno”, sóbrio esse demônio, e vou na dele, deixo a geladeira em paz, abro um livro, Distraídos venceremos, leio que fica “extinto por lei todo remorso”, daí que volto pra pegar a maçã que estava querendo comer, e até arrisco uns passinhos no embalo do jegue do Genival Lacerda.
Só mesmo o danado do jegue do Lacerda pra liberar na crônica um “freio de arrumação”, e acabo sem enfiar nenhum palavrão, sem gritar que tem lobo na área, sem tirar palavras da boca de ninguém e, finalmente, indo tratar da vida que já está na hora de pegar uma onça pra ir beber um galão de água que passarinho não bebe.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de setembro de 2019.

PS – Depois de terminada a crônica, digo que concordo com o poeta da primeira linha, “maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás não há nada e nada mais”, a história é mesmo recente. E já que estamos aqui, aproveito: a que ponto chegamos?

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Sem palavras


Sem palavras

Eis uma roda de pessoas dispostas a conversar sobre o que andam lendo; algumas carregam livros com páginas destacadas por marcadores. Para ato tão anacrônico, a leitura de texto no papel, fica dispensável o celular. Hoje, alguém deixar o telefone de lado é algo surpreendente, ou a bateria está sem carga.
O alento vai às estrelas assim que uma pessoa convidada passa a discorrer sobre o gênero ao qual tenho me esforçado para domesticar, e como venho apanhando, a tal da crônica.
Nada mais eletrizante que ouvir quem leva em rédea curta este animal imprevisível, marmota que cava túneis que nem uma toupeira, conforme segue metafórico o discurso.
Como autêntico mestre, com desenvoltura, o palestrante vai pontificando o quanto o alegra vencer uma vírgula intrometida que ocupa lugar indevido e o tanto que o angustia quando se sente vencido pela beleza de um escrito dúbio.
Como se vê, o campeão só se dá uma medalha depois de derrotar os obstáculos, um a um, sem escamoteá-los e sem tomá-los facílimos de suplantar. Por isso, e chega a embargar a voz, admite a modéstia de quem sabe com quantas palavras se faz navegável um texto pro mundão da internet.
Embarco na minha peraltice, de quem vibra com o trabalho, tão auspicioso em desbravamentos. Como o gazeteiro em mim goza ao já vê-la partindo singrar tantos mares, acenando-me o lenço; e atrevido, retribuo: vá minha crônica, vá em paz, vá cantar por aí, sua jornada é circular a Terra pelos oceanos que imagino curvos, caso não me esteja engabelando o horizonte.
Ê siso, o que mais diz o emérito?
Diz que a crônica é retrato. E como retrato, pede logo um close. Daí, de pertinho, vemos o que as palavras compõem. Como é de palavras, façamos a imagem com menos de mil, pra não aborrecer quem lê. Afinal, comenta o audaz, não se puna o leitor como quem dispensa as cinzas sobre a grama que pisa, pois todo fumante não passa de um poluidor canastrão.
Diz ainda que ao cronista cabe agir como fotógrafo, que tem o assunto na cabeça, controla os olhos ao rastrear o cenário, toma pé na certeza quando topa com o que deveras deseja. Na experiência, dispara uma Mantiqueira de cliques pra daí pinçar a Pedra da Mina que o convença de que assoma dos enganos todos um que traduz aquela verdade.
Pra apoiar o que diz, tira da manga a foto estampada num jornal, em cuja figura vê-se um senhor, sentado, grisalho e de terno, inclinando-se pra apertar a mão de uma garota, sentada, mirrada e séria.
Define-a como sintomática.
Como não tem papas na língua, arremata: Greta Thunberg é militante ambientalista; António Guterres é o secretário-geral da ONU; o local é a sede da ONU em Nova York; a sueca foi pra Cúpula do Clima num veleiro que, ao se deslocar, produz energia elétrica, consumida a bordo, com pás subaquáticas.
Eco! Foto que vale por uma crônica nem precisa de legenda.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de setembro de 2019.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Vida longa


Vida longa

O senhor é otimista ou pessimista?
Nada melhor do que ser parado na rua por uma menina de uns doze anos que tem um questionário para fazer, sobre... A enquete é sobre o quê?
Pois é. Que estupendo ter de pensar num assunto, assim, de supetão. Você acaba por se revelar um pobre-diabo incapaz de responder a questão simples de uma estudante de trancinhas. É ainda mais perturbador quando se está diante daquele sorriso, de quem nem desconfia que o inquirido quer dar o pinote dali, pulando do Karnal pro Pondé, do Pensador pra Wikipédia. Para não faltar com a ética, uma vez que nunca leu uma linha do camarada, melhor nem pôr o Aristóteles no meio.
Caramba, o copo está meio cheio ou está meio vazio?
O real faz mal por que meu corpo reage ao mundo a girar? Foco. Por que me detenho num ponto qualquer que a realidade apresenta? Vamos. Que tem este ponto em que pouso a lupa? Concentre-se. Calibro o microscópio pra ir à raiz do que constitui o que me faz debruçar nisso. É isso, mergulhe!
E quanto mais amplio o minúsculo, mais perco a noção do todo. Até que dou com um momento em que não vejo mais a floresta, a árvore, a folha, as nervuras da folha, as moléculas, os átomos, nem nada que tenha a mais tênue afinidade com o que as palavras dão sustância.
Como a nitidez é tamanha, passo ao abstrato do concreto. Aí, a realidade configura-se informe, bizarra, estranha, obscura. Chegando a esse grau de cegueira, o incomunicável barra o caminho.
Daí, começo a volta.
E passo a estabelecer paralelos, faço comparações, traço similitudes, teço metáforas. A colcha de imagens é produto de conexões, rede fabricada, amálgama que reconfigura o que carece de sentido. A semântica tateia significados ao processo desnorteador de ir fundo pra esmiuçar a filigrana. E isso me faz perder o pé do chão, a distorcer a realidade. Por ultrapassar o limite no aprofundamento, salta o hiper, o super, o surreal, o espantoso da realidade.
O buraco é mais em baixo?
Não é pra menos que fico nervoso, angustiado, tenso, bem confuso, estranhando a mim mesmo ao querer dar nome ao que não tem nome e talvez nem venha a ter um. Exagero, perco-me neste método de racionalizar, ponderar, entender. E torno complexo o simples na tentativa mais vã de simplificar o complexo, e tenho mais raiva de mim, e mais me enfureço.
Em outras palavras, parece que saltei de paraquedas. Pra minha angústia, o paraquedas não abre. Pra total desespero, o paraquedas não quer abrir. E quão patético me pinta esse querer agarrar-se ao inútil. Caindo... O chão que sobe...
E o copo? Ô infeliz, e o copo!
Sem condições de diferenciar dois segundos ou eternidade, volto de Vulcano, mas a guria permanece de pé.
Contudo, ajeito os óculos, olho bem nos olhos da pessoa, acomodo a voz com um pigarro e, ciente de que meio cheio e meio vazio o copo está inteiro, mando ver: qual é a pergunta?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de setembro de 2019.

domingo, 22 de setembro de 2019

Acorde desafinado


Acorde desafinado

Quinta passada, na biblioteca Porto do Saber, foi realizada mais uma edição, a sétima, do Concurso de Poesia Falada Leni Morato.
Fui pra lá atento a todo canto, já que há ruas do Boqueirão que estão passando por obras da Sabesp. Se as sereias do progresso orquestram-se em andante com brio, toquei-me adágio pro caos da poesia.
A caminho, veio um duo singular, de homem pedalando com um meninão ofegante a acompanhá-lo. Aparentemente, e uso o advérbio pra não especular sobre a impressão, o rapaz precisa trabalhar a musculatura.
Fui ter com a arte de corpo inteiro dos concorrentes. Aplaudi com gosto e bati palma por respeito. É da vida cada qual gostar mais disso do que daquilo. Mas a intensidade e a duração não soaram como manifestação de voto, porque não me postei na banca dos jurados.
Fui, vi e voltei.
Às costas, ouvi uma pisada fora do compasso enquanto uma criança falava sem parar. Passaram por mim, ia o homem ao lado de uma meninazinha que pedalava com gosto, vestida numa roupa, nem sei se digo uniforme, de quem pratica arte marcial. Arte ou luta?
Como um fio que se enrola em outro... Seu Rodrigues, fazer questão de dizer oito da noite ou vinte horas?
Arte ou luta. Faço questão, sim. E faço porque tenho meus motivos para levantar a lebre, que o coelho virou Wally no meio da selva de nossos dias. É que dá pra descobrir onde o danado cisma de querer ficar escondido bem na nossa cara.
Digo, na selvageria oceânica de tanta notícia, num tsunami mascarado de maré, a onda vai nos levando pelo óbvio que aparece pela frente. Só que a frente é nossa e nem percebemos que, em nosso afogamento, vamos debatendo se a lama é mais ou menos tóxica. Ela devora a civilização, digere a urbanidade das nossas tradições e nos arrota uma modernidade que nos liquida.
Sem mal-estar? Escrevo, logo leio.
E leio no Estadão de sexta-feira que a Andrade Gutierrez “conquista 20 obras e volta a empregar”.
Que notícia alvissareira. Fico feliz de seguir o bicho aonde quer que me leve. Cresce R$ 8,2 bilhões a carteira de projetos; de 96% do setor público para 70% de obras privadas; o fluxo operacional do caixa positivo é resultado do mix de obras; e o vento a favor, por conta do cenário macroeconômico e o crescimento dos investimentos em infraestrutura, indica que o futuro é igual a R$ 19 bilhões.
Tudo bem um texto sem Greta Thunberg, Jamie Margolin e Odenilze Ramos? Mas não é matéria de Economia?
Nada disso. O mundo mudou. Direitos e deveres agora são propostos, tuítados, retuítados, debatidos e reclamados no mundo todo. Sendo a Terra uma só, o clima é outro, bicho.
Que fim levou o meu cavaquinho?
Parágrafo a parágrafo, fui lendo de novo. Cadê o número de vagas oferecidas? Cadê o número de mulheres e de homens que foram contratados?
Todavia, e não digo isso pelo tombo que levei, quem não tem lebre enfia o gato na tuba.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 22 de setembro de 2019.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Chega de poesia


Chega de poesia

Tenho uma visão parcial do que anda lendo o homem sentado numa cadeira pra lá da minha, mas posso fazer ideia do ronronado que traz no peito, de quem tem por brasão uns brônquios fumês. E posso porque, sem que precise sequer daquela olhadela marota pro celular, diz ele que a esperança acolhe-se à sombra das colunas do tempo.
Emburro por tê-lo ouvido falar naquele tom de voz de quem sabe a saudade que sente, e por tê-la, essa saudade que vem de mansinho, noite cujas estrelas não espumam nem rugem, feito lobo embrenhado no mato a cento e onze metros do Caraça, sentindo pulsante o coração de pedra.
Sim, o homem sentado numa cadeira pra cá da minha faz que sim com a cabeça, sem relinchar suas concordâncias, sem nem mesmo escoicear suas discordâncias, embora pigarreie na hora do sopro rompante numa de suas válvulas, a sem freio.
Penso, e só fico no pensamento, que dentro do tempo há mais tempo. E isso me põe horrorizado, levo-me a pensar que os meus olhos são duas garrafas de vento. Daí, sinto também que a saudade pode ficar risonha quando bordada com o mais singelo, tipo BEIJE O COZINHEIRO, LIMPE OS PÉS ou AQUI MORA A ALEGRIA.
Todavia, garanto a troca do neon do quarto pelo led da sala.
E fique bem claro a quem ordenha as trevas às vacas do curral que bruma alguma se dissipa com o horror da lama, ó absurdo do veio marcado, pois os metais nascem da paciência surda da terra.
Desentranha-se ali, naquele recinto de cidadãos indecisos quanto ao destino da verba gasta com inaugurações, uma vez que a grana está curta, bloqueada na fonte, retida entre a boca que masca argila e o estômago de úlcera tão decente, é ali que vem ao mundo a lágrima que se perde do anonimato.
Mas o dever me chama.
O dever lembra o relapso que hoje é quarta, dia de pastel de carne seca na feira do bairro. Mas a hora é avançada, já estão recolhidos os feirantes. E onde vive o dever, há direito. O direito de navegar com bússola enquanto a tormenta segue inoculando a sua peçonha em 163 km do Rio Tietê.
E o dever de ter direito a ficar longe da fumaça dentro do bar?
O bar que está às moscas, comigo sentado entre o homem atarefado com a nostalgia, pra cá, e o homem acossado por umas besteiras, pra lá. Sendo uma pocilga das mais modernas, não aceita cheque nem cartão; o babado, só em espécie.
Mudo o disco.
E onde crescem as petúnias, grassa a samambaia pra lá de metro. Calculo que o vento sussurre que a vida está prenha de rochedos. Ignoro a mensagem. Arrisco que o vento aposte que a vida será no fim desta jornada... nada.
Então, a dona atrás do balcão quer que o mundo volte pro chão, a pedra tope ser pedra, a terra não rode a baiana à toa e se diga, em verdade e com todas as letras, o que precisa ser dito, mesmo que não desperte em ninguém nenhum prazer.
Compreendo, no azedume da saliva mais ácida, como em turvas águas de enchente, nem toda conversa é fiada.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de setembro de 2019.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Um domingo e tanto


Um domingo e tanto

Já que não sou roupa para ficar secando no varal e sequer possuo um peixinho que me prenda, então, vou levar-me para passear. Maravilha.
E para falar a verdade, com a franquia da sinceridade, havia até decidido tirar o domingo para limpar o apartamento, mas qual! Um vento me arrepanhou, melhor assim, que nem tenho joelheiras para me prostrar em lamentações sentidas pelo dia que seguiria lindo. E deixar evaporar a beleza? Que nada.
Pela manhã, antes mesmo de sair de casa, veio pelo zap o cafunezinho, tão necessário a quem tem sede de afetos.
E que dias estamos vivendo, tempos em que um gesto de carinho torna-se ato político ─ para marcar a afetuosidade e pôr explícito o amor ao próximo.
Quero longe de mim as bocas grosseiras, doidas para atirar garfo e faca às mesas vizinhas. Por que se alimentar dessa rispidez com o mundo? Quisera o silêncio regurgitasse o que o mundo tem canibalizado como jejum nocivo, abstemia tóxica.
Passado, a seco, o mal-estar da comida atravessada, sigo de pé na estrada, pela passagem que me cobra a história, para além do ônibus.
Porém o corpo pede o anti-inflamatório das 14h30, que tal corretivo se faz precioso ao azeitar as traquitanas dos ouvidos, ou iria se perder a nitidez da alegria do que virá.
E o que viria, veio.
E foi um domingo e tanto, aos pés da biblioteca Mario Faria, às margens da praia festivamente ocupada, com o azul do céu de Santos tomando parte nos eventos da Semana do Escritor Santista.
E quem abraçou foi abraçado. Quem viu foi visto. Quem disse foi escutado. Pudera tal domingo ficar, e ficou.
Este domingo é uma data que entrou pelo corpo adentro para vigorar no sangue, vicejar nos neurônios e florir como memória. E este domingo fica pela troca com os livros, pela doação à poesia, pela prosa do acaso, pela generosidade de quem sabe ao mar o que ao mar é dado em sorriso e abismo, na serenidade e na vertigem, na bonança e na tempestade. E está o domingo porque a arte se faz trova, canção, moinho; daí que não barre o vento, não cale ninguém, embora morda o rabo ─ o próprio e o alheio. Que o bom da vida tira da pulga as coleiras.
Domingo, este, que se fez único e irrepetível. Um quinze de setembro a nenhum outro comparável. As pessoas é que assim o tornaram, assim o construíram, assim o fizeram.
Porque movidas a esperança, comovidas à esperança.
Se há esperança, e porque há de haver esperança, não me convém esperar que venha. Então, a ela me dirijo. Com a esperança de descortiná-la com a alvorada que canta; pela esperança de encontrá-la pela tarde que baila; para a esperança de revelá-la para a noite que vibra. E aí, descubro que me dirige porque ela me faz ir, estou indo e vou.
É o abraçado que a abraça, é a beijada que o beija.
Este domingo todo a ilumina; a esperança o ilumina todo.
E o verso o que diz?
Diz que só se vê a escuridão quando há luz.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de setembro de 2019.

domingo, 15 de setembro de 2019

O anfitrião do futuro


O anfitrião do futuro

A temperatura amena de um domingo ensolarado de fim do inverno fora-me decisiva para ir a um churrasco no topo de um prédio; ganhei, de quebra, o direito à vista panorâmica de boa parte da cidade.
O salão de festas era espaçoso; duas pias formavam um L; disponíveis geladeira, freezer, fogão de seis bocas, micro-ondas e dois banheiros, masculino e feminino.
Não me cabe depreciar os equipamentos daquele edifício de dezesseis andares, com um apartamento por andar. Aliás, para entrar no condomínio, é preciso o registro eletrônico das íris e dar o aceite digital aos conformes da segurança interna. Por isso, agora, não me convém comentar o mármore e as pinturas do hall.
Na festa, encontrei quem normalmente não vejo no cotidiano, pois circulo entre poetas e pessoas de teatro. Eram autônomos ─ proprietários de loja e profissionais liberais. Havia dentistas em profusão, amigos da colega aniversariante, e pululavam advogados, amigos do cônjuge da dentista aniversariante. A maioria, porém, era de familiares de ambos, marido e esposa.
Tudo bacana. Um ambiente agradável.
As comidas e as bebidas foram servidas por uma equipe de um bufê contratado. Discretos, os profissionais flutuavam sem ostentar contrariedade. Fiquei tocado pelo apuro do bem feito a olhos vistos.
Sem sobressaltos, o papo rolava educado. Nenhuma voz clamava por atenção.
As crianças, que normalmente correm, pulam e gritam por razões que a própria razão reconhece, formavam um círculo e, no centro da roda, um menino mostrava, e demonstrava, num celular imenso, quase do tamanho de um tablete, os recursos de algum jogo popular entre todas.
O grupinho que fumava, a metros de distância da maioria, não nos criticava por não fumarmos e vice-versa, nós a eles, por fumantes. O que havia de comum? Pude ouvir o cardápio usual oferecido pela mídia destes dias de queimadas amazônicas, reformas tributárias, imprevidências do sistema, patacoadas de políticos, ou seja, falava-se o de sempre.
O advogado anfitrião fez questão, incentivado pela dentista anfitriã, de ressaltar o prazer daquela família de receber a brancos e negros sem distinção alguma.
Fiquei na minha; sem mordiscar uma pera e sem beber um copo de suco de manga.
Na bancada, frutas in natura e jarras de suco natural, sem açúcar e sem gelo. Além de baldes com latas de cerveja, com e sem álcool. Para os apreciadores, taças à espera do vinho tinto ou branco.
Lá pelas tantas, inebriado pelo espírito de uns dedos de um escocês, seguramente, legítimo, deixei-os a confraternizar.
Leve, sopro-me da minha nuvenzinha de desesperança para esta crônica, uma vez que, e me ocorre sorrir, a imagem da menina segue dizendo, com olhinhos transbordantes de vida, que precisa ficar concentrada porque é difícil jogar xadrez contra a máquina.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de setembro de 2019.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Roda-viva


Roda-viva

Mudar, mudamos. Contudo, não vamos direto, e retos, à felicidade que imaginamos ali na frente. Mesmo porque nem sabemos que cara tem o bicho que está a postos tão logo dobramos a esquina. E a coisa fica lá, só de olho em quem vem distraído, ocupado em rever a piada pela milésima vez.
Isso dá o que pensar.
Com que direito a pessoa vê uma postagem pela milésima vez? Ora, ela faz o que quer e ninguém tem nada com isso.
Hum. Concordo que ela possa fazer o que bem quiser, mas há problemas em generalizar assim. Uma vez que somente aja desde que o que faça não prejudique, por atos e palavras, outras pessoas, levando-se em conta tal restrição, tudo certo, divirta-se e toque a vida em frente.
Para mais bem reforçar o meu ponto, dou um exemplo.
Quase agora, indo à farmácia, passo por um sujeito que tem vivido na rua. Eis que o homem está cantando desafinado, todo feliz, mas ontem, mais ou menos no mesmo horário de hoje, com um papelão amassado que nem um porrete, ele bradava palavrões enquanto batia num lambe-lambe com uma imagem bem conhecida.
O que quero dizer com isso?
Digo que mudamos e nem percebemos, pois a vida vai nos levando por aí e vamos indo sem dar conta que não é o mundo que faz escolhas por nós. Nós é que escolhemos; entramos ou recuamos quando as portas se abrem.
Pela milionésima vez, a pessoa está rindo do meme? Não é a mesma coisa a cada vez que ela vê.
Considere-se no exemplo, leitora e leitor.
Você está no ônibus, voltando para casa depois de ter trabalhado mais um dia naquele ambiente de intrigas, tendo de conviver com uma gente que espalha mentiras pelas costas porque ambiciona o seu lugar na empresa, daí que a pequena cena que se repete permite-lhe rir, mesmo achando aquilo uma bobagem.
Porém, siga comigo pela ideia, digamos que acabe de abrir os olhos e, depois de espreguiçar e bocejar gostoso, dá de cara com a mesmíssima piada no celular, sabendo que é dia de ir desfrutar de um churrasco com amigas queridas e amigos queridos, você não acha um máximo a besteirinha mas ri assim mesmo.
Entre o alívio da primeira situação e a curtição da segunda, que diferença gritante. Você é a mesma pessoa, não deixou de ser quem é, só que em condições diferentes. No entanto, não foram apenas as circunstâncias que mudaram, você também está em outro astral, com a mente e os sentidos em sintonia diversa em cada uma das situações do exemplo.
Ah! Quase passa batido...
O tal gif que pode fazer chorar de tanto rir é uma montagem com um desses governantes queimando uma revista.
De fato, os autoritários dão razão a chacotas, zoações e quetais. Todavia, que história foi essa de deixá-los entrar na sala? Pelo jeito, vamos ter de trocar a plaquinha na porta, de SALÃO DE FESTAS para QUARTO DO PÂNICO.
E no jogo da vida, você prefere ficar no lugar do porteiro ou do pedreiro que levanta o vão da porta?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de setembro de 2019.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Ciranda da boa


Ciranda da boa

Sete de setembro, sábado, feriado para quem pode. Não posso, que já estou pensando o que vem por aí. Tenho que escrever a crônica para próxima terça. Dia 10, mais um dia de pagamento, para quem ainda tem trabalho no Brasil de 2019. E tantos estão desempregados, mais uma multidão de homens e mulheres à margem do mercado, e outro continente de gentes desenxavidas. E alguma consciência tenho a me auxiliar nisso de ir jogando os meus malabares, que há distintas mãos que não os deixam cair.
Mãos afoitas para saber o fim da história que nem tem fim nem vem com o que resuma o que vem contando a si mesma e à história neste retrato de bicho de quadrantes até circulares, que têm lá suas razões ao me refazer geométrico.
Mãos de caras e bocas, que vem do fundo do rio um pneu de bicicleta, sem a menina que usava tranças num vestido de chita para a missa de Páscoa naquele domingo de abril, mas a draga não ficou sabendo do paradeiro dessa criança que está crescida, no uniforme de mãe austera e rigorosa no fogão, que a sua família tem fome marcada, agendada de segunda a sábado, que o domingo segue vestido de Páscoa, mesmo com o chocolate dos coelhinhos apedrejado por postagens de uns marmanjões de calças curtas.
Mãos que andam cabisbaixas, muito abatidas, por causa das cusparadas a torto e a direito que surgem do nada, entretanto não existem monstros cujas glândulas produzam sem parar a saliva com que ferem, magoam, machucam, violentam, estupram. Não, isso de estuprar não fica restrito a palavras; a minha revolta não está autorizada a ir puxando a palavra da palavra, sem o compromisso da escrita; que me perdoem quem sofreu tal violência extrema.
Mãos que me tornam uma fantasia para quem não levanta o véu de minhas monstruosidades, que há vezes que entro por uma porta que se fecha atrás de mim, some-se na parede dos meus desvarios, fecha-me com o touro que não fala mas come a gente que fica de olho na parede que vem para cima, na sua passada de parede terrível, de fera indomada pelas palavras que vou digitando, querendo que haja logo uma saída, só que essa curiosidade, meio de poeta e meio de vilão que bebe cangibrina, é a minha curiosidade que me completa, dando a reserva que não me deixa morrer na praia, com a língua pregada, que a lua bela brilha no sempre de sua beleza.
Mas a mão que luta para embelezar o berço é a mesma que tira o papel da máquina que se faz de máquina só para que outra mão beije outra, na alegria do reconhecimento da alegria até então desconhecida.
E juntas, de mãos dadas. Todas estas mãos e muitas outras que estão vindo por saber agora que estão convidadas; todas, que temos mãos ainda que nos falte manifestadas em carne e osso; todas que nos fazemos à mão; vamos todas tornar bom este dia 10 para quem tem pão e para quem não tem, porque fome muda o tempo todo, e não somente de data e endereço.
Então?
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de setembro de 2019.

sábado, 7 de setembro de 2019

Era uma vez


Era uma vez

Na lida injusta de tão desigual, nada como esticar as pernas no sofá depois de mais um dia exasperante. Mas a vida dá por cansaço o que o tédio quer me testar, taquara nas viradas do noroeste de tantas veredas.
Que ruído é esse que me tira da formiguinha do Quintana?
Transtornado pelo barulho, talvez esteja errado ao pedir que tenha modos a uma entidade que tem vida própria, e me refiro àquela que descubro num muito à vontade. Como sempre, aliás.
Exibida, faz a clássica disparada pela sala; bisbilhota o jornal; molha o bico com o suco; de vez em quando, chafurda na caipirinha; e como a danada gosta de açúcar.
O bichinho que divide o apartamento comigo ocupa os vãos, úmidos e empoeirados, fazendo questão de demonstrar, por atos e pensamentos, que prefere o barraco como está. E nem vou cair na besteira, ó reforço pleonástico, de admitir que o estado atual do apê é lamentável. Que displicência a minha; e antes tarde do que nunca, admiti-lo.
De modo geral, tenho papo com todo tipo de gente; mas com esta em particular, pouco. Porque anda abusada, disposta a conhecer a verdade; o vero de uma chinelada bem dada.
Além disso, ela não me ouve. Ainda mais que falo baixo se me vejo na posição de ter de delatar-me. Daí que a folgada não vai mesmo me escutar; e do alto da soberba, ignoram-me os ouvidos vidrados no fogo da floresta, ou na história do beijo.
Na luta por manter os pés no chão, e só me controlo por medicamentos, sinto que a parte viva que me come acaba por sufocar o que vivo com excesso de vida. Mata-me a vitalidade a dieta desmedida de ideias sobre ideias, que o cérebro me ramifica em labirinto. É meu, o barato.
Meu embate é contínuo para preservar o benéfico do sol na digestão dos eventos do dia a dia. Claro, nem sempre mastigo conforme a recomendações médicas; engulo mal porque rumino que nem porco. Daí que o Etna entre em erupção tão logo o miojo ponha-se a falar com os neurônios do estômago. É surpreendente saber que há uma linha aberta entre cabeça e barriga. Por isso, enjoo e ânsia me põem a correr para longe da TV, e a descarga afoga no oceano, meu vizinho, o que não consigo nem mais tolerar. Valei-me, Santa Clara!
Feito uma escultura de lama tóxica, ponho-me possesso, de indignação. Silencio os pés, travo meus demônios no que não digo por mágoas e ressentimentos. Pródigo em entender que não me acerto comigo nem depois de muito pensar a respeito, intuo que preciso ter os sentidos prontos para rastrear onde é que a dona foi se meter.
Quede que sossego até dar com a bicha tomando siso do mundo justo com O mal estar na civilização? Poderia o óbvio do Kafka, mas ela não. Nem o Velho Sig para explicar o que vai por aquela cabecinha.
Como não pretendo laconismos, me acuso ao especular que sei de mim pelo outro que me olha. Ora, ora, leitora perspicaz e leitor arguto, câmera na mão e foco... Na mosca!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de setembro de 2019.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

O certo do torto


O certo do torto

Com os compromissos inadiáveis, em outras palavras, tendo os rabichos das contas a pagar balançando espasmodicamente o sinal de alerta, lá estava eu indo ao banco.
Em dívida comigo, num misto de exaltação burlesca de vira-lata atormentado por pulgas vampirescas e de figura entrevada pelo tormento, no mais autêntico dos cérberos, lá ia eu.
Indo à agência para desatar o nó na conta que me enforca a cada passo, tão negativa havia dias. Numa crueldade comigo, perdidas as noites em sono entrecortado pelo pesadelo de não dormir, eis-me no figurino dos sem pires nem chapéu, indo.
Dez horas a porta será aberta, estarei na fila. Sem dúvida, guardarei lugar aí. Perfilhando-me cordato na resignação das pendências, que chegue rápida a resolução das angústias. É para já, que irei.
Epa! Perdeu a pressa de desembaraçar-se da forca que lhe tira a álacre desenvoltura de viver somente para o momento?
O bicho da goiaba que fala em mim sabe que nem vi pintada no teto de nuvens a linha amarela, para os perdulários. Resta-me o sonho do apaziguamento financeiro, a quimera de algum perdão dos juros à medida do respirável. Por isso, minha cara consciência, tome o siso de não gritar pelos números da senha, dessa mega humilhante senha que ainda nem peguei.
A caminho da sorte que me cabe, capricho nisso de ir-me ensurdecido pelo desespero que me aflige. Só que, para não endoidar comigo, abre-se a caixa de venturas que sempre me guarda uma das suas surpresas.
Protegido por um muro, alguém fala alto ao telefone.
Por ter lúcidos os ouvidos, como se pudesse tirar um naco da carne petrificada para a lapidação do desgraçado, fui sentar na praia, voltado para o mar. Uma borrasca atlântica ergueu-se em mim contra os gracejos do sujeito que falava que o rico tem hora de almoço, já o pobre pode escolher se almoça ou janta.
Mas, e sem a adversativa a história tomaria outro rumo, o vento do inverno areja a massa cinzenta, logo penso.
Penso que desvios não são atalhos, não cortam o caminho, fazem-no inesperado, levam pelo desconhecido, revelam o inédito sob o cotidiano mais pedestre. No entanto, para deixar vivo o que não pode azedar, mofar e nem empedrar, é preciso a desaprendizagem com o que não se sabe, não se conhece e nem se imagina.
Peraí! Não pirei na baratinha. A dívida continuava lá.
Como tenho o juízo de não dizer um nome para não invocar a substância que a ele se atribui, não direi Lúcifer para não o ter na minha frente, de carequinha lustrosa e óculos de grau, e logo com este tempo de nuvens ameaçadoras. O que vou dizer, então?
Raios!
Foi melhor para mim. Ou raios me fulminariam se, no limite do meu juízo natural, não viesse à ideia isso de ir tomar um ar no banco da praia. Assim, veio-me à intuição o quanto sofre quem gerencia contas nestes dias de piromanias e carnificinas.
Agora, sim, posso ir à agência.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de setembro de 2019.