Um
domingo e tanto
Já que
não sou roupa para ficar secando no varal e sequer possuo um peixinho que me
prenda, então, vou levar-me para passear. Maravilha.
E para
falar a verdade, com a franquia da sinceridade, havia até decidido tirar o domingo
para limpar o apartamento, mas qual! Um vento me arrepanhou, melhor assim, que
nem tenho joelheiras para me prostrar em lamentações sentidas pelo dia que seguiria
lindo. E deixar evaporar a beleza? Que nada.
Pela
manhã, antes mesmo de sair de casa, veio pelo zap o cafunezinho, tão necessário
a quem tem sede de afetos.
E que
dias estamos vivendo, tempos em que um gesto de carinho torna-se ato político ─
para marcar a afetuosidade e pôr explícito o amor ao próximo.
Quero
longe de mim as bocas grosseiras, doidas para atirar garfo e faca às mesas vizinhas.
Por que se alimentar dessa rispidez com o mundo? Quisera o silêncio regurgitasse
o que o mundo tem canibalizado como jejum nocivo, abstemia tóxica.
Passado,
a seco, o mal-estar da comida atravessada, sigo de pé na estrada, pela passagem
que me cobra a história, para além do ônibus.
Porém o
corpo pede o anti-inflamatório das 14h30, que tal corretivo se faz precioso ao azeitar
as traquitanas dos ouvidos, ou iria se perder a nitidez da alegria do que virá.
E o que
viria, veio.
E foi
um domingo e tanto, aos pés da biblioteca Mario Faria, às margens da praia
festivamente ocupada, com o azul do céu de Santos tomando parte nos eventos da
Semana do Escritor Santista.
E quem
abraçou foi abraçado. Quem viu foi visto. Quem disse foi escutado. Pudera tal
domingo ficar, e ficou.
Este
domingo é uma data que entrou pelo corpo adentro para vigorar no sangue, vicejar
nos neurônios e florir como memória. E este domingo fica pela troca com os
livros, pela doação à poesia, pela prosa do acaso, pela generosidade de quem
sabe ao mar o que ao mar é dado em sorriso e abismo, na serenidade e na
vertigem, na bonança e na tempestade. E está o domingo porque a arte se faz
trova, canção, moinho; daí que não barre o vento, não cale ninguém, embora
morda o rabo ─ o próprio e o alheio. Que o bom da vida tira da pulga as coleiras.
Domingo,
este, que se fez único e irrepetível. Um quinze de setembro a nenhum outro
comparável. As pessoas é que assim o tornaram, assim o construíram, assim o
fizeram.
Porque
movidas a esperança, comovidas à esperança.
Se há
esperança, e porque há de haver esperança, não me convém esperar que venha. Então,
a ela me dirijo. Com a esperança de descortiná-la com a alvorada que canta;
pela esperança de encontrá-la pela tarde que baila; para a esperança de
revelá-la para a noite que vibra. E aí, descubro que me dirige porque ela me
faz ir, estou indo e vou.
É o
abraçado que a abraça, é a beijada que o beija.
Este
domingo todo a ilumina; a esperança o ilumina todo.
E o
verso o que diz?
Diz que
só se vê a escuridão quando há luz.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 17 de setembro de
2019.