De
peito aberto
Que dias! Preciso escrever de cara que
o que é mal precisa vir escrito no texto, explícito. Se o mal não é nada
vergonhoso para quem faz, é sim a quem não reage à agressão que sofre.
É ridículo. Mas, neste mundão onde há
pessoas de variadas calibragens de leitura, cabe a mim pôr logo na mesa: há pessoas que leem em voz alta, letra por letra; há outras que juntam os parágrafos
sem ajuda; e temos as que vão rápido das palavras às ideias, daí às
entrelinhas. E todos quebramos a cara ao buscar a chave da cabeça de
quem escreve. O ridículo do escritor está nas palavras que usa para querer desviar
os olhos de quem lê. A ilusão está nessa esperança.
Bobagem achar que estou fora dessa.
O que motiva quem passa a inspiração
para o papel? Sei lá. Escrevo, vou escrevendo, paro de escrever. Leio. Releio.
Mudo uma palavra. Troco a posição de algumas. Leio, releio. O ponto final
estabelece a trégua necessária entre nós, entre o texto e mim. Sem isso, nada de
publicação.
O que eu quis dizer com o que está
escrito? Qual é o fundo do que escrevi? Meus abismos costumam tomar conta de
mim para evitar que o texto morra no raso. O que penso ter de transmitir aos
leitores e às leitoras?
Bah! Insetos é que transmitem doenças.
Parece que estou enrolando, mas as
linhas anteriores estão a me servir. Eis o ponto: estou imerso na realidade
absurda de fatos, acontecimentos, notícias e informações. Sem o controle do que
acesso, leio, ouço, contam-me, recontam-me. Acho que estou lelé da cuca, a
ponto de nem ligar para a enxurrada de bobagens, bizarrices e lacrações mil. Por
aí.
Pela TV, flagelo das quimeras
nefelibatas, Nelson Motta diz que Leonard Bernstein mudou uma palavra na Ode à
Alegria, poema de Schiller que Beethoven usou na Nona Sinfonia. Foi trocada
Freude (Alegria) por Frieheit (Liberdade).
Coisa de demagogo? Não bulirei com a
origem. Demagogo quer dizer condutor do povo. Como sou do povo,
boto uma fé danada num mundo menos desigual. Então, além dos médicos e dos
advogados, que melhor maestro do destino do que a TV?
Enfim, não tenho pureza de alma, sei pouco
de mim para ter plena consciência do que faço.
Se o calor da hora arrepia-me?
Ao cumprir a Constituição, o ministro Marco Aurélio põe a gente estranhíssima.
Como não quero dar cabo das minhas
soldas mentais, por gentileza, não invoquem a tutela do Supremo.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 20 de dezembro de
2018.









