terça-feira, 17 de junho de 2025

Ledo engano

 

Ledo engano

 

Por causa da pista molhada, o ônibus ia lento pela avenida.

Ramona não entrará pela porta, mas eu tenho que seguir em frente, preciso deste emprego. Tenho que ganhar a vida como sempre ganhei, vou seguir trabalhando duro, trabalharei a mais, farei as horas a mais que forem necessárias. Precisado de juízo, trabalharei a mais para não perder o bom senso. Manter a cabeça focada em outra coisa ajuda a esquecer aquela falta. Claro, claro, não farei a desfeita de negar que o dinheiro extra vai ajudar pra caramba, vai dar pra levar as meninas no shopping. Elas tinham a quem puxar, elas têm essa alegria de remediar as dificuldades com blusinhas que usarão só nas festas, então, assim que chegar o Natal, vão me cobrar blusinhas novas, pois elas duas, da noite pro dia, decidiram crescer, andam espichadas.

O ônibus não estava completamente vazio, havia mais lugares que passageiros, que esses nem chegavam a uma dúzia.

Aquele cara, por que ele não senta? Com tanto lugar sobrando, por que não faz como os outros que estão felizes com seus celulares? Será que o malandro está planejando assaltar todo mundo? Eu não deveria ter parado no ponto. É isso, foi erro meu. Está na cara dele que a gente vai ser assaltada. Ele subiu disfarçando, aquele seu boa noite foi coisa de bandido, foi dito só para me enganar, pra que eu não percebesse a malandragem. Ele subiu certo de que assaltará todo mundo, daí que o safado nem faz conta de esconder o rosto. Mesmo de boné e capuz, ele olha pro retrovisor. Tenho que disfarçar que não percebi a arte do que ele pretende. Mas quem fica em pé em ônibus vazio só pode estar tramando coisa ruim. Pelo jeito que ele olha, vamos ser assaltados.

Garoava, e a garoa aumentava a sensação de frio. Fazia oito graus, mas a sensação era de menos, quem sabe fizesse uns seis graus.

Ainda bem que o motorista parou ou eu teria de voltar andando. Se eu tomasse garoa na cachola por mais um minuto, os quilômetros até a minha casa não iriam me dissuadir da caminhada. Quarenta minutos são um esforço danado, claro que são, mas estou muito irritado, tanto estou que o motorista ficar espiando pelo espelhinho é algo que vai me obrigar a ir até ele pra pedir-lhe que pare. Se bem que posso saltar no próximo ponto, uma vez que estão passando mais ônibus nesta altura da avenida. Será melhor pra todo mundo que eu desça, pois não quero confusão, nem comigo nem com ninguém do busão.

A campainha soou porque uma passageira iria descer.

Será que ela não viu o ladrão se preparando pra roubá-la assim que estiverem sozinhos? Será que a infeliz não viu o bandido escondendo a mão na jaqueta? Deus! O que posso fazer pra impedir que ele roube o celular que ela nem guardou na bolsa?

Por trabalhar no turno da noite, ela entrou na lanchonete. Assim que o farol fechou para os carros, o rapaz cruzou a avenida.

Aquela garçonete não era a Ramona.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de junho de 2025.

Nenhum comentário:

Postar um comentário