quinta-feira, 19 de junho de 2025

Pela culatra

 

Pela culatra

 

Por radicalismo ético, tomo a iniciativa de pôr frente a frente o polo positivo que adestra as minhas mãos para que eu tanja as pessoas ao ridículo e aquele outro polo, o que amestra a língua para que eu louve sem subterfúgios as pessoas que zombam de mim.

Zombem, mofem, tirem sarro, façam rir quem queira rir das minhas polarizações, porque sou osso, um osso duro, sou desses que trincam, resistem até que haja fratura, justo onde o gesso é inútil, dispensável, é curativo de todo ridículo, posto que o meu espírito tem esqueleto que não cicatriza nem há de cicatrizar-se.

Ridiculamente ético, também quero zombar, mofar, tirar sarro, fazer rir. Comigo rindo, o negócio da piada emperra, estou rindo, a piada fica travada, sigo rindo, a contação chateia, é constrangedora a insistência, eu tento e rio, é tamanha a falta de jeito que viro motivo pra rirem.

Os zombeteiros põem pressão, riem, mas minha mente não verga, não deforma, segue rija. Ela não trincará mesmo que principie a doer. Se for doer, ela doa. A mente que vire doer, doa a valer, pra que cobras e lagartos pululem na saliva.

Polo positivo, saiba que posso me manter ridículo, posso apelar ao riso. Neurótico, apelo à intransigência do polo negativo que encalacra o riso na goela, arranha as cordas vocais, produz uma voz gutural.

Nem que eu pigarreie, ganhei essa voz inilimpável.

Guturalmente ridículo, polo negativo travestido de positivo, o melhor furdunço que a minha cachola pode arrumar pra mim é estabelecer-me como porta-voz de toda gente que se atreve a ridicularizar autoridades quaisquer, sejam elas um pitbull, uma águia ou um tatu-bola.

Tatu-bolinha, polo positivo revestido de positivo, descanso das rixas inglórias, deito o braço forte numa tipoia, pois, adestrado e amestrado, rindo ridiculamente de tão dissimulado, emulo a negatividade.

Pelo humor marxista-grouchiano, vulgarizo a vida, massageio egos alheios. Mal me toco, polo positivo e polo negativo, que ambos repilam-se, se avacalhem, porque meu espírito tem como escalavrar os beijos que não dei e os que não ganhei.

Compreendo-os, todavia não contem comigo que eu opte pelo lado positivo do mundo, dispensando o outro destino.

Pelo meu mau caratismo radical, embrenho na mente selvagem que minha baba acre diz que mofo, tiro onda e gracejo, pois, sei bem, muito bem, que à melhor farra, à melhor festa, à melhor orgia não fui nem hei de ser prestigiado como uma piada, mas engraçada.

Comigo a olhar no espelho, sinto que na mesa estão o copo de café, o sanduíche de salame e as bolachinhas de banana, a cadeira está puxada para o meu desfrute, o que não prevejo é que amanhã haverá mais guerras, outras falcatruas na previdência, outras tantas quizílias a serem desbaratadas.

Com mil e uma insolências, só me resta dizer que, pra já, tem esse PSG X Botafogo, imperdível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de junho de 2025.

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