quinta-feira, 26 de junho de 2025

Fantasmagórico

 

Fantasmagórico

 

O ignorante que eu sou fica estressado quando me irrita uma coisa que podia ser evitada. Por exemplo, haver fezes de cachorro no jardim de casa é coisa que, de jeito algum, não podia me aparecer pela frente quando vou apanhar os jornais. Pelo xucro que nem tem como segurar o azedume, tenho sempre que responder.

O abestado de tripas sensíveis não espuma de raiva porque sei que o melhor que posso oferecer à paz na vizinhança é deixar que meu cão faça merda no jardim da casa ao lado.

Acho digna tal retribuição diplomática: quem faz cocô na grama dos outros que, na grama própria, também cate o cocô dos outros.

A imagem que passo, agindo assim, é que sou uma pessoa amarga, alguém de mal com o mundo, um sujeito sem malemolência, um fulano que não pede para sair de briga que beltrano começou.

Sicrano que me lê, você já deve estar entendendo o tipo de vizinho que vive me atazanando, me tirando do sério, forçando-me a perder a paciência, a razão e os bons modos.

Tirando a estratégia de desestabilizar-me com as fezes do seu cão, o danado do camarada é o tipo de gente sobre a qual não me sinto em condições de condená-lo pelo que seja.

Ou seja, é o pior vizinho que eu conheço.

Azucrinante pra caraca é eu não ter como recriminá-lo por causa da religião, da opção política, da sexualidade, do poder aquisitivo, pois ele é daqueles que sorriem ao cumprimentar e só. Nada de sorrisinhos que façam vê-lo como sacana, salafrário, cafajeste, crápula, um biltre, uma pessoa desprezível, duas caras.

Tenho que me contentar em xingá-lo enquanto cato a merda que o seu cachorro fez, e mais nada.

Nada com nada, zero.

Quero entender a equação, ainda que em meu auxílio eu conte com os recursos que o bom senso pode apresentar quando sou provocado. Pois é, tentarei pensar sem que a irritação estrague mais o que a minha índole de jeca simplesmente diz ser um legado cultural.

Vamos ao nada em questão.

Abro uma caixa de sapato e ela está vazia, digo que não tem nada dentro. Com o sapato na caixa, digo que não está faltando nada. Se o sapato é presente que não agrada, melhor seria não ter ganhado nada. Ou seja, nada é aquilo que falta, aquilo que não está sobrando e aquilo que se recusa.

Já o zero?

O zero não é nada. No contexto, zero é verossímil, pois o zero não pode ser dividido, é impossível fracioná-lo, é surreal a possibilidade de convertê-lo em número irracional. O zero na conta como surreal com valor irracional é dedução caótica, uma vez que o zero criaria um efeito fantasmagórico, bizarro, estranhíssimo, fantástico.

Como não sou um zero à esquerda, na biblioteca pública um cartaz anuncia uma homenagem àquele que não é nenhum outro que o dono dos cães que defecavam no jardim.

Ser lembrado pelos vinte anos de morte contraria o Ivan Lessa, que estabeleceu que a cada quinze anos o brasileiro apaga o que ocorreu nos últimos quinze anos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de junho de 2025.

Nenhum comentário:

Postar um comentário