O ignorante que eu sou fica estressado
quando me irrita uma coisa que podia ser evitada. Por exemplo, haver fezes de
cachorro no jardim de casa é coisa que, de jeito algum, não podia me aparecer
pela frente quando vou apanhar os jornais. Pelo xucro que nem tem como segurar
o azedume, tenho sempre que responder.
O abestado de tripas sensíveis não
espuma de raiva porque sei que o melhor que posso oferecer à paz na vizinhança
é deixar que meu cão faça merda no jardim da casa ao lado.
Acho digna tal retribuição diplomática:
quem faz cocô na grama dos outros que, na grama própria, também cate o cocô dos
outros.
A imagem que passo, agindo assim, é que
sou uma pessoa amarga, alguém de mal com o mundo, um sujeito sem malemolência, um
fulano que não pede para sair de briga que beltrano começou.
Sicrano que me lê, você já deve estar
entendendo o tipo de vizinho que vive me atazanando, me tirando do sério,
forçando-me a perder a paciência, a razão e os bons modos.
Tirando a estratégia de
desestabilizar-me com as fezes do seu cão, o danado do camarada é o tipo de
gente sobre a qual não me sinto em condições de condená-lo pelo que seja.
Ou seja, é o pior vizinho que eu
conheço.
Azucrinante pra caraca é eu não ter como
recriminá-lo por causa da religião, da opção política, da sexualidade, do poder
aquisitivo, pois ele é daqueles que sorriem ao cumprimentar e só. Nada de
sorrisinhos que façam vê-lo como sacana, salafrário, cafajeste, crápula, um biltre,
uma pessoa desprezível, duas caras.
Tenho que me contentar em xingá-lo
enquanto cato a merda que o seu cachorro fez, e mais nada.
Nada com nada, zero.
Quero entender a equação, ainda que em
meu auxílio eu conte com os recursos que o bom senso pode apresentar quando sou
provocado. Pois é, tentarei pensar sem que a irritação estrague mais o que a
minha índole de jeca simplesmente diz ser um legado cultural.
Vamos ao nada em questão.
Abro uma caixa de sapato e ela está
vazia, digo que não tem nada dentro. Com o sapato na caixa, digo que não está
faltando nada. Se o sapato é presente que não agrada, melhor seria não ter ganhado
nada. Ou seja, nada é aquilo que falta, aquilo que não está sobrando e aquilo
que se recusa.
Já o zero?
O zero não é nada. No contexto, zero é
verossímil, pois o zero não pode ser dividido, é impossível fracioná-lo, é
surreal a possibilidade de convertê-lo em número irracional. O zero na conta
como surreal com valor irracional é dedução caótica, uma vez que o zero criaria
um efeito fantasmagórico, bizarro, estranhíssimo, fantástico.
Como não sou um zero à esquerda, na
biblioteca pública um cartaz anuncia uma homenagem àquele que não é nenhum
outro que o dono dos cães que defecavam no jardim.
Ser lembrado pelos vinte anos de morte
contraria o Ivan Lessa, que estabeleceu que a cada quinze anos o brasileiro
apaga o que ocorreu nos últimos quinze anos.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de junho de 2025.
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