À toa, assim que abri a geladeira,
fugiu-me o que ia pegar, portanto não foi à toa que vi na mesa o pãozinho
cortado nas duas metades, o que eu perdi da precisão, portanto à toa, era a
margarina.
Assim que fechei a porta da geladeira,
vi a conta de luz, vi o dia do vencimento, portanto não foi à toa que corri a
ponta do indicador sobre a folhinha, assim terei banco, assim não poderei ficar
à toa.
Sou uma pessoa simples, de felicidades
frugais, gentil comigo, mas seguir retratando-me até encabula, mas há
flatulências que vêm dessa dorzinha repentina nas entranhas, vêm porque a
necessidade impõe a urgência de dar vazão ao que as faz iminentes.
Tão logo decidi que iria ao banco, veio
à tona um peidinho.
O ar surgiu-me quente e molhado,
portanto não foi à toa que percebi que não era um peidinho bobo que me
convidava a correr ao banheiro. Ainda com a margarina nas mãos, eu corri para salvar
a cueca, o nariz e a vontade de pagar a conta da luz.
Para retornar à manhã de sempre, já o
pote de margarina perto do pãozinho cortado nas duas metades, esplêndido, para recomeçar
o dia de modo menos traiçoeiro, é mergulhar a cueca em água e sabão.
Sou uma pessoa com entranhas, tenho
nervos que me desajustam, passo vergonha, causo vergonha, e seguir nessa
ladainha constrange. Aliás, uma vez que até a realidade pode ser cacete, um tédio, um porre de trivialidades mil, prefiro virar a página.
Para virá-la de vez, trago as palavras
do poeta Álvaro de Campos: “feliz quem conhece só um deus, e o guarda em
segredo”.
Se é para ter um deus, escolho o
inconsciente, que é um deus que brinca, faz-me desentender comigo. Ainda que
trace retas, estabeleça trajetos, trilhe caminhos, muito me revelo idiota; então,
vou indo, já de fiofó limpinho, do tanque de casa pra mesa de Dona Cremilda.
Durante o almoço, fui um cara educado:
mastiguei de boca fechada; beberiquei meio copo de laranjada; com a mão
esquerda cortava o bife e com a direita limpava a boca com o guardanapo; em momento
algum apoiei os cotovelos na mesa ou reclamei do sal a mais no ovo; sequer tracei
outro prato, porque eu estava satisfeito.
Findo o almoço, passamos à sala.
Contei-lhe o que me ocorrera. Não a
poupei dos detalhes; para ser sincero, acentuei a escatologia. Notando-a
enojada, não mencionei as luvas que calcei ao pôr a cueca de molho.
Percebendo-a incomodada, não perdi a oportunidade de falar que eu derrubei a margarina
no vaso, que não hesitei em resgatar o pote, e, constatando que o conteúdo não tinha
sido contaminado, achei normalíssimo pôr a margarina na mesa.
― Deus me livre e guarde de pão com
manteiga na sua casa!
Eu bem a compreendo, querida amiga, se
estou aqui é porque esse deus que se esconde na minha cachola fez-me
instrumento da minha salvação, uma vez que foi peidando que consegui livrar-me
do diabinho que conspirava para avacalhar o meu dia.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de junho de 2025.
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