terça-feira, 24 de junho de 2025

Certeza escorreita

 

Certeza escorreita

 

À toa, assim que abri a geladeira, fugiu-me o que ia pegar, portanto não foi à toa que vi na mesa o pãozinho cortado nas duas metades, o que eu perdi da precisão, portanto à toa, era a margarina.

Assim que fechei a porta da geladeira, vi a conta de luz, vi o dia do vencimento, portanto não foi à toa que corri a ponta do indicador sobre a folhinha, assim terei banco, assim não poderei ficar à toa.

Sou uma pessoa simples, de felicidades frugais, gentil comigo, mas seguir retratando-me até encabula, mas há flatulências que vêm dessa dorzinha repentina nas entranhas, vêm porque a necessidade impõe a urgência de dar vazão ao que as faz iminentes.

Tão logo decidi que iria ao banco, veio à tona um peidinho.

O ar surgiu-me quente e molhado, portanto não foi à toa que percebi que não era um peidinho bobo que me convidava a correr ao banheiro. Ainda com a margarina nas mãos, eu corri para salvar a cueca, o nariz e a vontade de pagar a conta da luz.

Para retornar à manhã de sempre, já o pote de margarina perto do pãozinho cortado nas duas metades, esplêndido, para recomeçar o dia de modo menos traiçoeiro, é mergulhar a cueca em água e sabão.

Sou uma pessoa com entranhas, tenho nervos que me desajustam, passo vergonha, causo vergonha, e seguir nessa ladainha constrange. Aliás, uma vez que até a realidade pode ser cacete, um tédio, um porre de trivialidades mil, prefiro virar a página.

Para virá-la de vez, trago as palavras do poeta Álvaro de Campos: “feliz quem conhece só um deus, e o guarda em segredo”.

Se é para ter um deus, escolho o inconsciente, que é um deus que brinca, faz-me desentender comigo. Ainda que trace retas, estabeleça trajetos, trilhe caminhos, muito me revelo idiota; então, vou indo, já de fiofó limpinho, do tanque de casa pra mesa de Dona Cremilda.

Durante o almoço, fui um cara educado: mastiguei de boca fechada; beberiquei meio copo de laranjada; com a mão esquerda cortava o bife e com a direita limpava a boca com o guardanapo; em momento algum apoiei os cotovelos na mesa ou reclamei do sal a mais no ovo; sequer tracei outro prato, porque eu estava satisfeito.

Findo o almoço, passamos à sala.

Contei-lhe o que me ocorrera. Não a poupei dos detalhes; para ser sincero, acentuei a escatologia. Notando-a enojada, não mencionei as luvas que calcei ao pôr a cueca de molho. Percebendo-a incomodada, não perdi a oportunidade de falar que eu derrubei a margarina no vaso, que não hesitei em resgatar o pote, e, constatando que o conteúdo não tinha sido contaminado, achei normalíssimo pôr a margarina na mesa.

― Deus me livre e guarde de pão com manteiga na sua casa!

Eu bem a compreendo, querida amiga, se estou aqui é porque esse deus que se esconde na minha cachola fez-me instrumento da minha salvação, uma vez que foi peidando que consegui livrar-me do diabinho que conspirava para avacalhar o meu dia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de junho de 2025.

Nenhum comentário:

Postar um comentário