domingo, 11 de maio de 2025

Rapidinhas

 

Rapidinhas

 

Uma coisa estranha acontece. Há adolescentes na biblioteca; estão em silêncio; todos usam fones de ouvido; cada um deles tem a cabeça arcada na direção da tela do telefone. Embora pareça improvável, tem esse aluno esquisito, que está quieto e concentrado como os demais, mas, sentado numa cadeira, apoiando os cotovelos na bancada, sem sequer mascar um chicletinho, ele está lendo. Isso é bem esquisito, ter esse aluno que ficará lendo até que o sinal toque e a classe se revolte que a aula tenha terminado, mas, pessoal, toda aula boa tem sempre que ser interrompida.

 

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― Tem dez segundos, irmão?

― Obrigado por ter-me escolhido, mas não vou comprar nenhuma revista gratuita, mesmo que você insista que ela é gratuita.

― Paspalho!

 

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Naquela época, durante o papado de Paulo VI, a vida tinha perigos. Para chegar na escola, era preciso andar quinze minutos, era preciso subir um lado do morro e descer o outro, era preciso ir adiante mesmo que os cães latissem, se aproximassem e arreganhassem os dentes. E o maior combate era ignorar o homem do carrinho ao lado do portão, pois ele oferecia pipoca, algodão doce e figurinhas da copa, de todas elas, até daquelas copas, ó tentação!, que o Brasil perdera.

 

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Quando a gente reza para que nada aconteça, nada acontece.

 

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― Onde é que fica o Peru?

― Fica looonge, professooora, beeem looonge!

― Não, meus anjos. Ele fica na nossa amada América Latina.

― Não, ‘fessora. Lá em casa, o peru fica na geladeira.

 

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Para júbilo mundial, a fumaça branca do Vaticano anuncia que está eleita a pessoa a ficar obrigatoriamente ausente do próximo conclave.

 

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Naquela época, durante o papado de Paulo VI, a minha casa tinha mistérios. Eu bebia um copo de leite, comia bolachas, ficava vendo TV e, num átimo, era hora de beber o copo de leite quente, comer bolachas e, com chuva ou sem chuva, pôr o uniforme da escola.

 

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Há aves no telhado. Pela foto, o buscador identifica, são gaivotas. “Melhor seria que batesse asa”, diz o poema. “Talvez o erro fosse meu também”, prossegue o poema. “Afinal não há lá muita razão em querer silenciar qualquer canção”, diz o poema de Robert Frost, cuja tradução, de Gabriel Campos Medeiros, pode ser encontrada na internet.

 

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Naquela época, durante o papado de Paulo VI, o Peru ficava longe, tão longe, que nunca soube que existia. Nunca houvera escutado que peruanos eram os bravos que civilizaram Machu Picchu. Nunca fiquei sabendo que era para ter cuidado com esses índios, pois nem sempre o National Kid estava disponível pra proteger dos malvados, daqueles seres abissais que a tevê dizia que viviam nos subterrâneos, uma vez que eles, esses Incas Venusianos, eles é que eram os perigosíssimos guardiães da Imperatriz Aura, eram os reais, verdadeiros e espantosos inimigos da minha meninice.

 

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Por falar em pombas, meu coração cordato não me quer afoito, uma vez que, posso admitir, essa alma me sabe ser colérica.

Não quero precipitar-me, atirar-me no abismo que o meu ser interior abre quando sinto a iniquidade de quem quer avivar esse fogo obscuro que se alastrará indomável assim que me precipite.

Sabendo que as aves quase encostadas na chaminé do telhado da Capela Sistina são gaivotas, mesmo que circule nas redes esse poema que prega o escândalo, fico sem motivo para esculhambar esse poema radicalmente afrontoso a quem tem a fé católica.

Certo da minha paz, não viralizarei a blasfêmia, não compartilharei os versos que comparam o Espírito Santo a uma pomba, que O dizem ser “uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo”, porque Ele “coça-se com o bico e empoleira-se nas cadeiras e suja-as”, o cabotino do poema diz que “tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica”.

Seguro da minha paz, tenho fé no que sossega e faz-me perguntar: haverá quem tenha ouvido falar em Alberto Caeiro?

 

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― Mãe, são pombas no telhado?

― Filhotinho da mamãe, que pombinhas mais diferentes...

― Mãe, posso dar uma estilingada nelas?

― Elas têm esse gosto do calorzinho da chaminé...

― Mãe, eu pego as mamonas?

― Pombas normais não vivem em telhado...

― Quede ele, mãe? Me devolve o estilingue, mãe.

― E as nossas pombas, filhote, moram em árvore, fazem ninho nas árvores da praça, mas essas daí, concorda que elas ficam engraçadas, assim, tão recatadas na televisão?

 

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Naquela época, durante o papado de Leão XIV, o otimismo me faz contar com a previdência que, ainda que demore até amanhã, o justo cobrará a restituição do que se há subtraído, pois, convocados e, sob juramento, ouvidos, hão de vir os entes consignados como Mãe Dináh, Walter Mercado e Jorgina Maria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de maio de 2025.

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