terça-feira, 6 de maio de 2025

Um boa-pinta

 

Um boa-pinta

 

Sabe aquele momento, você percebe que tem gente olhando. Tem esse sujeito que não tira o olho, provocando pressão. Você não duvida, a pessoa tem a cristalina percepção de aumentar seu incômodo. Tanto você se compreende sob vigilância que sorrir é a sua defesa. Não que seja sua melhor defesa, é a arma automática a lhe defender mais uma vez, até o momento passar logo.

Tudo passa, pois, já dizia o bebum, a vida é feita de momentos, com um sobrepondo-se a outro, até a morte libertar você do fluxo.

Veja bem, a libertação será sua, pois eu, já me antecipo, continuarei aqui. Entenda esta lógica: enquanto houver quem me leia, continuarei disponível a quem leia. Pelas leituras que levam a leituras, por leituras afora, permanecerei, pois é lendo que me fazem ficar feito texto.

É bobagem, eu sei, mas arrisque, saiba.

Ao final do que tenho a dizer, preocupe-se com você. Por causa de uma leitura, isso leve você a recompensar-se; comigo, projeto ser esse cara que repensa, sendo preconceituoso.

Pois veja só, acompanhe pelo que lhe ofereço, que logo há pouco eu descia a rua e passei pelo funcionário da zona azul. Cumprimentei-o e o que me saiu foi um “bom trabalho pra vocês”.

Você percebeu, se o funcionário era um e eu disse “pra vocês”, esse rapaz trabalhando deixou de ser um indivíduo porque o plural sinaliza que o enquadro como representante da firma que opera a cobrança de vagas de estacionamento das vias públicas.

Você não se engana, eu vi o rapaz da zona azul como ‘um’ agente operacional de uma ‘corporação’, ou seja, você entende que eu sinto o rapaz como corporação, uma vez que ele fica enquadrado no lema: um por todos e todos por um.

Talvez você pense de mim, que cara mais idiota.

Este idiota pensa, esse rapaz é este indivíduo que veste a camisa, trabalha com afinco, faz o que faz para que o supervisor veja o quanto se dedica, pois, efetivamente, é preciso servir à empresa como se sua vida estivesse condicionada à permanência do seu nome na folha de pagamento por mais um mês; sim, ainda que o mês demore a passar, ele rala pra que seu nome continue na folha de pagamento pelo tempo que o seu supervisor permita, comunicando à gerência que é o tipo de colaborador que não esmorece, e segue sendo capaz de relevar quem lhe diz “bom trabalho pra vocês”.

E você me acha mais que idiota, releva-me como estúpido.

Como minha estupidez é de gente que tem o olhar vidrado, eu não enrolo, pois eu não sei fingir que não vejo monstros em vez de pessoas comuns. Vejo monstros a atenderem aqui e ali, o tempo todo eu interajo com eles. São monstros que costumam sorrir, sabem ser informais, me tratam com o respeito que julgam ser bom para mim.

E você considera, que maluco à solta.

Este maluco funciona, acho que na sedução desejar um beijo é ser um sujeito legal, é beijar o reflexo como faz uma pessoa comum, uma que sorria e dê tchauzinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de maio de 2025.

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