Sabe aquele momento, você percebe que tem
gente olhando. Tem esse sujeito que não tira o olho, provocando pressão. Você
não duvida, a pessoa tem a cristalina percepção de aumentar seu incômodo. Tanto
você se compreende sob vigilância que sorrir é a sua defesa. Não que seja sua
melhor defesa, é a arma automática a lhe defender mais uma vez, até o momento
passar logo.
Tudo passa, pois, já dizia o bebum, a
vida é feita de momentos, com um sobrepondo-se a outro, até a morte libertar
você do fluxo.
Veja bem, a libertação será sua, pois eu,
já me antecipo, continuarei aqui. Entenda esta lógica: enquanto houver quem me
leia, continuarei disponível a quem leia. Pelas leituras que levam a leituras,
por leituras afora, permanecerei, pois é lendo que me fazem ficar feito texto.
É bobagem, eu sei, mas arrisque, saiba.
Ao final do que tenho a dizer, preocupe-se
com você. Por causa de uma leitura, isso leve você a recompensar-se; comigo, projeto
ser esse cara que repensa, sendo preconceituoso.
Pois veja só, acompanhe pelo que lhe
ofereço, que logo há pouco eu descia a rua e passei pelo funcionário da zona
azul. Cumprimentei-o e o que me saiu foi um “bom trabalho pra vocês”.
Você percebeu, se o funcionário era um e
eu disse “pra vocês”, esse rapaz trabalhando deixou de ser um indivíduo porque
o plural sinaliza que o enquadro como representante da firma que opera a
cobrança de vagas de estacionamento das vias públicas.
Você não se engana, eu vi o rapaz da
zona azul como ‘um’ agente operacional de uma ‘corporação’, ou seja, você
entende que eu sinto o rapaz como corporação, uma vez que ele fica enquadrado
no lema: um por todos e todos por um.
Talvez você pense de mim, que cara mais
idiota.
Este idiota pensa, esse rapaz é este
indivíduo que veste a camisa, trabalha com afinco, faz o que faz para que o
supervisor veja o quanto se dedica, pois, efetivamente, é preciso servir à
empresa como se sua vida estivesse condicionada à permanência do seu nome na
folha de pagamento por mais um mês; sim, ainda que o mês demore a passar, ele
rala pra que seu nome continue na folha de pagamento pelo tempo que o seu
supervisor permita, comunicando à gerência que é o tipo de colaborador que não
esmorece, e segue sendo capaz de relevar quem lhe diz “bom trabalho pra vocês”.
E você me acha mais que idiota, releva-me
como estúpido.
Como minha estupidez é de gente que tem
o olhar vidrado, eu não enrolo, pois eu não sei fingir que não vejo monstros em
vez de pessoas comuns. Vejo monstros a atenderem aqui e ali, o tempo todo eu
interajo com eles. São monstros que costumam sorrir, sabem ser informais, me tratam
com o respeito que julgam ser bom para mim.
E você considera, que maluco à solta.
Este maluco funciona, acho que na
sedução desejar um beijo é ser um sujeito legal, é beijar o reflexo como faz
uma pessoa comum, uma que sorria e dê tchauzinho.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de maio de 2025.
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