domingo, 4 de maio de 2025

A menina da sanfona

 

A menina da sanfona

 

Eu via Desaparecimento na Noruega achando que fosse a primeira vez, mas a cena em que a repórter, dentro do carro parado na travessa, observa o vaivém dos funcionários da oficina mecânica bastou para eu constatar que, além de ter visto a minissérie, a viela era parecida com um beco sem saída da Ilha Caraguatá.

No começo dos anos 2000, trabalhei em Cubatão. Morei no Jardim Casqueiro; e, com vista para a Beira-Mar, o apartamento ficava em um predinho de três andares.

Saía às cinco e não saía para tomar banho e jantar, saía bater bola, ao lado da quadra de areia, no campinho cujos gols eram demarcados por chinelos.

Sendo uma sexta não chuvosa, vindo lá da Ponte Nova, indo lá pra Ilha Caraguatá, passava um senhor com uma sanfona.

Passava tocando; parando só quando lhe era oferecido um gole de cerveja. Tomado o gole, seguia cantando, tocando, como se a sanfona não lhe alterasse o centro da gravidade.

Aquela travessia deixou-me curioso: o sanfoneiro das sextas tocava para viver ou seria pela farra?

Vê-lo, ouvi-lo, acompanhá-lo de latinha na mão, mas, serei honesto, nunca fui puxado da cadeira, jamais me deu a comichão de dançar ao som daquele pé de serra.

Não dançava, mas tremelicava. Embora outros desconfiassem que tomava choquinhos ou fosse possuído por entidade fanfarrona, sempre desacreditei que meu sacolejo motivasse risinhos, porque havia graça no meu remelexo emocionado.

Sendo camarada incapaz de gracinhas na internet para ganhar uma bolada, mostrando-me um vídeo, cuspiu: que diabo dessa menina usar os oito baixos pra insultar o Gonzagão com a Quinta do Beethoven!

Será que a memória não me trazia um momento que nunca existiu?

Com a exibição parada, busquei e não achei o tal vídeo da menina que, no Beethoven, mandava brasa.

A imagem congelada era um close da investigadora principal, era o rosto da atriz norueguesa Yngvild Støen Grotmol.

Olhei com atenção. O que fazia esplêndida essa face?

Sem demora, achei um retrato em branco e preto, clicado por Erika Hebbert. Observei-o. O que me levava a achá-lo um adorável exemplo da beleza? Com atenção, observei-o: Yngvild tem olhos amendoados; a parte superior da cabeça é oblonga e a inferior é triangular. Observei uma mancha escura sobre uma das maçãs daquela face, era uma área propositadamente assombreada.

No súbito da intuição, mente brincalhona assombra.

Escapou-me um riso, uma vez que, numa camisetinha chumbrega, vi o clássico homenzinho verde fazendo paz e amor com os dedos.

Escapou outra risadinha; ocorreu-me recorrer à inteligência artificial para compor a menina da sanfona com o rosto do homenzinho verde, mas o vídeo resultante trouxe uma anã tocando uma sanfona de cujos foles não saía som algum, nem mesmo aquela Quinta chiclete.

Cão danado!

Negarei três vezes ter visto o sorriso da anã a me espiar da tevê.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de maio de 2025.

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