terça-feira, 13 de maio de 2025

Choro sentido

 

Choro sentido

 

Eu tento, quero ser agradável o mais que eu posso. Sobre ser uma pessoa legal, que agrega, que não desperta o pior nos outros, isso para mim é algo que posso fazer, que consigo fazer, sem que me ache uma pessoa falsa, trapaceira, que procura camuflar-se de bonzinho, simpático, que é ardilosa a ponto de gerar desconfiança nos demais.

Eu acredito que sei mesmo como ser um sujeito bacana.

Ao longo da vida, venho aprendendo a ser um cara afável; acho que tenho sabido me virar com os perrengues, com as decepções, sem que tudo fique pior, porque, sendo bom e fraterno, tudo pode seguir sendo como é, do jeito que o mundo se apresenta a mim.

Quando é melhor não falar nada, não falo.

Com as muitas situações pelas quais passei, desde pequeno, tenho aprendido a lidar com as pessoas. Sem as magoar, sem as adular pelo pior que elas tenham a oferecer, procuro ser diplomático, educado, sou o melhor que posso ser, agindo de acordo com as circunstâncias.

Fui criado num lar de gente austera mas bem-humorada, é isso que me faz optar pela sobriedade dos justos. Mesmo que transpareça que sou implacável, inflexível, inconvenientemente intransigente, opto pela verdade de ser quem sou, porque eu sei quem deva ser.

Poderia ser um exibido, um chato sabichão, mas prefiro observar e intervir quando a minha isenção é de fato necessária, para que a coisa desande, a situação se complique, quando acabarei sendo visto como pessoa omissa, cúmplice, um comparsa.

O tempo todo, a vida ensina que o melhor a ser feito é ser o menos patético, o menos escalafobético, o menos destrambelhado que posso ser, e queira ser. Portanto, eu quero e eu posso ser essa pessoa gentil que, ao notar que serei inconveniente, recue e repense.

Sim, é preferível ser amável, ser uma alma adorável.

Quando era garoto, me arrumaram um cachorro.

É provável que os meus pais tenham ouvido a opinião da babá, que, brincando com o bicho e correndo, pulando, rolando no chão e fingindo de morto, isso seria bom pra mim.

O que a babá e meus pais não previram é que me apegaria ao cão. Afeiçoado a ele, passei a tomá-lo um membro da família. E gente igual a mim não poderia andar pelado, mostrando suas vergonhas, foi então que passei a vesti-lo.

O meu irmãozinho tinha que ser apresentável, tinha que deixar claro o quanto era importante, tinha que mostrar que era parte da família.

À custa de muito choro e cabeçada na parede, consegui demonstrar aos meus pais que era natural que meu irmãozinho exibisse ao mundo a sua nobreza, a sua realeza, a sua verdadeira beleza.

Então, eu tinha orgulho de passear com ele. Eu percebia que o meu irmãozinho deixava todo mundo com inveja dele e de mim, porque era eu quem o conduzia.

E o mal venceu! Houve o dia em que foi atropelado.

Tento não chorar, mas ficou impossível vê-lo novamente esplêndido como Cinderela, Rapunzel, Branca de Neve...

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de maio de 2025.

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