quinta-feira, 15 de maio de 2025

O vingador desmascarado

 

O vingador desmascarado

 

Tanto faz, você entenda certo ou escute como queira. É indiferente, Onofre, porque o melhor seria você ter ficado quieto. Mas, fazer o quê, essa coceirinha na língua é mesmo forte, faz você querer falar, querer explicações, exigir que a verdade seja dita.

Cruamente, você errou ao intransigir, fez as pessoas recordarem a criança que foi, pelas quantas maluquices que foi capaz de fazer, como se as tantas coisas bizarras fossem obra de gente folgazã.

Onofre, pessoas comuns não pegam fita métrica pra medir rua, isso você fez e a isso deu justificativa, pois a sua mãe disse que bater perna não era vadiação, era trabalhar na prefeitura, então, você foi pondo fita métrica na calçada, pra medi-la metro a metro.

Se tivesse graça na sua brincadeirinha, você começaria a medição pela rua da sua casa, mas você tinha de começar pela principal rua da cidade, pois, havendo mais gente, passando mais carros e a sua mãe sabendo da sua traquinagem quando, à noite, voltasse da escola onde trabalhava, então, ficava garantida a peraltice da tarde toda.

Isso se a gaiatice não começasse logo cedo, Onofre. Tenho certeza que muita gente não deve ter esquecido as vezes em que você, pê da vida com sua mãe, que era realmente uma baita de uma mão de vaca, você pegava o chapeuzinho de palha de dançar quadrilha, sentava-se à porta da casa do vizinho e, como se não fizesse nada de vergonhoso para os seus e para si, você pedia esmola.

Caso a memória ande avariada pelos alambiques que já entornou, permita-me ajudá-lo, Onofre, que você não juntava as moedinhas para que a sua família pusesse bisteca na mesa, era para comprar tubaína, bala e aqueles glamorosos cigarrinhos de chocolate.

Não finja que não quer passar a perna, pois essa cara de sonso não engana, você entende, sim, a que ponto eu quero chegar.

Das tantas humilhações, jamais o perdoarei daquela vez do vinho, porque não bebi sozinho a garrafa, mas, panaca como sempre, eu não consegui fugir a tempo e tive que levar cascudos no cocuruto, tive que apanhar de cinta e tive que ficar ajoelhado por dez ave-marias e trinta pais-nossos, com você passando de magrela pela porta da igreja.

Mas você sabe ser o sujeito bacana que tem a palavra certa quando ninguém sequer me pergunta se não sou o sortudo cujo destino é estar no lugar errado e no momento errado, como se tivesse nascido e sido criado para continuar no lugar errado, no momento errado.

Sim, Onofre, você não está errado em achar que sou uma pessoa de segunda classe. Sou esse camarada que, viajando em pé, sonha em viajar na janela. Sou esse sujeitinho que, ainda que me faltem cinco reais pra inteirar a passagem, espera pegar o ônibus lotado.

Para seu próprio bem, Onofre, não insista, volte para casa, não tem graça você ficar pensando que pode pagar o maço de cigarro com esse punhado de balas que te dei de troco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de maio de 2025.

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