quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Nome novo na praça

 

Nome novo na praça

 

Quinze minutos antes de deitar, liga o repelente. Depois das muitas tentativas, chegou ao tempo que lhe serve para, no escuro, contar com o calor da tela do celular. Sempre tem um pernilonguinho que se recusa a sair do quarto, embora a porta que dá pro quintal tenha permanecido aberta grande parte do dia, tem um que fica. O teimoso vem resvalar a tela do telefone, mas ele usa a mão como abano e o gás exalado pela pastilha espalha-se, então, o indivíduo alado sente o gás que o repele. Sem mais o que fazer, o referido inseto luta contra seu instinto, mesmo atraído pelo calor da tela, atraído pelo gás que o camarada exala pelas narinas, o que repele o mosquito é o gás produzido pelo calor gerado pela eletricidade. O que não deixa de ser uma diversão; algo perversa, é só brincadeira contra a natureza do bicho.

Algo bem diferente é usar jujuba como isca?

Tem chovido forte. Tem chovido muito em poucos minutos. É chuva para lá de metro, caso haja quem meça a altura da enchente e compare esta última com a altura da enchente anterior, com a altura da enchente anterior, com a altura anterior, com a anterior, indo até o início, pra que se conclua: tem chovido forte, muito e em pouco tempo, o que acarreta estragos, prejuízos e desespero, uma vez que dias tão chuvosos serão o novo normal, até que o antropoceno encontre o fim.

Como a jujuba pode estar relacionada com o fim da civilização?

O telhado da casa de Eurípedes não veda o aguaceiro. Há goteiras nas duas águas; elas são tantas, e tantas elas são, que baldes e bacias transbordam, inundando sala, quarto e cozinha.

A casa do cidadão fica à beira-rio. Com a chuvarada, as margens não barram as águas do rio.

Logo, a água na casa e as águas do rio viram uma.

Peixe não conhece limite ou o sentido do limite, peixe nada e come.

Eurípedes gosta de peixe, tanto gosta que não tem preferência: seja assado, grelhado, cozinho, cru; sendo peixe, ele quer, ele pode; então, as águas ficam misturadas quando chove; e como tem peixe no quarto da sua casa, adora chuva.

Ele sonhou e duvidou, mas fez a armadilha.

Deitado, vê os peixes que passam nadando. Tem um retângulo no piso, é uma piscina. E os peixes que entram nadando são atraídos por jujuba, são esses que ficam presos. Assim que a chuva passa, ele tira a água do piso e, vendo os peixes no buraco feito no chão, sorri.

O que Eurípedes não sabia, mas ficou sabendo, é que muriçoca dá uma massa irresistível; e, segundo falaram, há uma quantidade muito maior de peixe que é tarado por massa de muriçoca.

O próximo projeto está claro: informar-se sobre as muriçocas; o que as atraem; os alimentos preferidos; o tempo de vida; quais as melhores condições pra conservá-las vivas; sobre, incontestavelmente, o fabrico dessa isca infalível.

Regozija-se: não será apenas o rei da tilápia, uma vez que, dali em diante, será Jujuba Muriçoca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de janeiro de 2025.

Nenhum comentário:

Postar um comentário