Taborda está com a corda toda ― não com
ela no pescoço; pronto para capturar quem se distraia pro óbvio do enlaçamento.
Senhor, preciso de um deus que brinque.
Dispenso aquela criatura que puna. Sou fonte de desculpas, mas desculpa não é
explicação. Eu não tenho de ficar me culpando. Não quero esse deus que entenda por
que preciso sassaricar. Não me avexa gargalhar. Creio que a piedade me
enfraqueça. Acredite, sou o gozador que não oferece a outra face. Não preciso
de um deus que castigue na face oferecida, pois não tem nenhuma humildade
naquele que escolhe levar castigo. Quem escolhe a outra face não espera rir
melhor, noto aí a esperteza. Falta-me o deus que decifre os hermetismos, que me
esconder é coisa de espertalhão. Mas um esperto quer ser estapeado, achando que
o deus que atende às suas preces é igual ao deus que pode castigar. Sem fustigar
esse malandrão que pula na jugular, venha a ser o deus que não adora ser
adestrado. Desespero não ter esse deus que pule antes, que dê o bote certeiro, para
desossar a farsa. Não desejo esse deus que faça sombra quando suo, que cave o
poço quando tenho sede. Quero um deus que vente, derrube árvores, deslize
pedras, traga trovões, relampeje, faça um espetáculo que seja divertido.
Taborda bebe.
Cadê você, abestado?
Taborda seca a garrafa.
A carroça não vai sem o burro que a puxe.
A puxar, não ligo. Desde que a carroça avance, puxo até que falhem as forças, com
os músculos a latejar. Desde que a lenha vá à padaria, puxo, sou burro que
empaca, zurra à cascavel no caminho, porque sei escoicear. Desde que o forno siga
assando os pães, prefiro servir feito burro. Preciso de ser útil. Não quero ser
reservado, quero ser puxado, exposto no uso.
Como plástico não gera cacos, a garrafa
atirada quica no muro.
Gosto de ser útil. Tenho essa
necessidade de trabalhar. Desde que ninguém me impeça, não diga para sair do
sol. Quero deitar depois de outro dia de trabalho. Mesmo exaurido, vou querer o
mesmo de ontem, rir. Bato perna sem medo de dar com quem faça rir, me pagando. Nem
ligo que falem, não esgoto os meus braços. Quero acordar quando tiver que
acordar, só depois vou carregar lenha. Sigo burro, levo a lenha à padaria. Depois
de nocauteado pelo cansaço de andar, preciso sair do lugar, não vou atolar, não
vou encalhar a carroça.
Taborda tem outra garrafa de água de
coco.
O pior sentimento é aquele da
impotência, de ser carroça carregada que fica vazia, ociosa. É desperdício
ficar parado no tempo. Sou essa lama que apodrece os pés, as rodas, a que trava
os eixos. Com a lenha a sentir que o forno se resfria, sou lenha a ser levada, vou
tostar o pão. Desde que o padeiro amasse a massa, cuspa a lama e beba o quanto
queira o leite da alvorada.
Debaixo do meio-dia, o lixo esconde o
resto.
Amanhã tem mais? Que chatice! Amanhã é já,
ou não será.
Nunca lhe deram água de coco?
Caçamba!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de janeiro de 2025.
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