domingo, 2 de fevereiro de 2025

Muito pelo contrário

 

Muito pelo contrário

 

Sou convincente, tenho que ser.

A mim não entedia o jogo do toma aí que te dou de cá, que o melhor jeito de persuasão é o fundado nos argumentos, não nas suposições e conjecturas.

Enfadonho é empatar no caminho, a convencer-me do que convém. Ajusto-me, não tomo se não dou, travo e patino, acabo convencido de que é melhor agir sem me justificar pelo que estou a fazer.

Aliás, fácil é o blábláblá me encantar, seduzir, mobilizar. Tenho essa volúpia pelo papo furado, pela conversa fiada, pelo tempo jogado fora, porque, afinal de contas, minha papada é gorda, meu crédito goza de confiança e não apresso o relógio.

Como eu disse, sou desses a quem é uma dádiva ter que pesar as palavras e moderar os pensamentos, quero é despachar a enrolação; ou quem gosta de ouvir baboseiras acha-me uma pessoa encantadora ou me remenda, pois acha insuportável gente tagarela.

Estou sempre a tagarelar?

Ou falo a bel-prazer ou calo por sisudez, mas o que preocupa é ter gente taciturna que manipula o abismo que traz em si como veículo ao tartamudo que trago em mim.

Eu não saber como ficar quieto, que inferno!

Melhor falar pelos cotovelos do que engolir a seco, já surtando.

Compartilho este segredo, que passo a rir ainda que ignore a razão de desandar a rir; confio-lhe, uma vez que acredito que possa guardá-lo ou possa usá-la, a admissão, com parcimônia.

Arranjo os detalhes para que o diabo revele-se o sedicioso que ele sempre há de ser, pois mordomos já não calham de ser admiráveis no papel outrora a eles designado, causando desequilíbrio.

Por minha culpa, minha mínima culpa, cometo a falta.

Falho nesta tagarelice, antecipo que a poderei negar como fruto do meu esforço, sendo obra do diabo. Isto é, cabe-lhe a função de casto, cabe que seja o mordomo que já não há, aquele que finja não querer haver-se como diabólico ou mordomo.

Nem mais nem menos, percebo-me talhado para atuar como autor, essa pessoa que escreve porque não sabe a razão de fazê-lo, apesar de tentado a dizer-me fruto do seu labor, que isso vem dele.

Se a mim me cabe a máscara de gente detalhista que revela o diabo que carrego nas tintas, disparo a falar, mesmo que as palavras alvejem a esmo, ainda que as ideias ganhem sentido, ventilo o que sopra esse homem sutil que suscita tão boas sutilezas.

Fastidioso, sacramento os devidos créditos ao diabo.

Embora o diabo minta que não existo, não surto. Sei que não passo de um escrevinhador a anotar-lhe o segredinho, de bem saber por mim que eu não existo. Fora do fardo de escrevinhar, não existo.

Calma! Calma! Calma!

Uma vez que a bandeja com as taças de vinho não vem sozinha à mesa, encontro o lugar que não atino que o procurasse: em realidade, como nova ordem, sou o mordomo que hei de ser ao servir o vinho que eu próprio o tenha vertido e louvado.

Tendo esclarecido o ponto, não convém recusar a ressaquinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de fevereiro de 2025.

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