Sou convincente, tenho que ser.
A mim não entedia o jogo do toma aí que te
dou de cá, que o melhor jeito de persuasão é o fundado nos argumentos, não nas
suposições e conjecturas.
Enfadonho é empatar no caminho, a convencer-me
do que convém. Ajusto-me, não tomo se não dou, travo e patino, acabo convencido
de que é melhor agir sem me justificar pelo que estou a fazer.
Aliás, fácil é o blábláblá me encantar,
seduzir, mobilizar. Tenho essa volúpia pelo papo furado, pela conversa fiada,
pelo tempo jogado fora, porque, afinal de contas, minha papada é gorda, meu
crédito goza de confiança e não apresso o relógio.
Como eu disse, sou desses a quem é uma dádiva
ter que pesar as palavras e moderar os pensamentos, quero é despachar a
enrolação; ou quem gosta de ouvir baboseiras acha-me uma pessoa encantadora ou me
remenda, pois acha insuportável gente tagarela.
Estou sempre a tagarelar?
Ou falo a bel-prazer ou calo por sisudez,
mas o que preocupa é ter gente taciturna que manipula o abismo que traz em si
como veículo ao tartamudo que trago em mim.
Eu não saber como ficar quieto, que
inferno!
Melhor falar pelos cotovelos do que
engolir a seco, já surtando.
Compartilho este segredo, que passo a rir
ainda que ignore a razão de desandar a rir; confio-lhe, uma vez que acredito
que possa guardá-lo ou possa usá-la, a admissão, com parcimônia.
Arranjo os detalhes para que o diabo
revele-se o sedicioso que ele sempre há de ser, pois mordomos já não calham de
ser admiráveis no papel outrora a eles designado, causando desequilíbrio.
Por minha culpa, minha mínima culpa, cometo
a falta.
Falho nesta tagarelice, antecipo que a
poderei negar como fruto do meu esforço, sendo obra do diabo. Isto é, cabe-lhe
a função de casto, cabe que seja o mordomo que já não há, aquele que finja não
querer haver-se como diabólico ou mordomo.
Nem mais nem menos, percebo-me talhado
para atuar como autor, essa pessoa que escreve porque não sabe a razão de
fazê-lo, apesar de tentado a dizer-me fruto do seu labor, que isso vem dele.
Se a mim me cabe a máscara de gente
detalhista que revela o diabo que carrego nas tintas, disparo a falar, mesmo
que as palavras alvejem a esmo, ainda que as ideias ganhem sentido, ventilo o
que sopra esse homem sutil que suscita tão boas sutilezas.
Fastidioso, sacramento os devidos créditos
ao diabo.
Embora o diabo minta que não existo, não
surto. Sei que não passo de um escrevinhador a anotar-lhe o segredinho, de bem saber
por mim que eu não existo. Fora do fardo de escrevinhar, não existo.
Calma! Calma! Calma!
Uma vez que a bandeja com as taças de
vinho não vem sozinha à mesa, encontro o lugar que não atino que o procurasse: em
realidade, como nova ordem, sou o mordomo que hei de ser ao servir o vinho que
eu próprio o tenha vertido e louvado.
Tendo esclarecido o ponto, não convém
recusar a ressaquinha.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de fevereiro de 2025.
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