domingo, 19 de janeiro de 2025

Guerra não declarada

 

Guerra não declarada

 

Sentado para escrever, não tem como dominar o fluxo. A mordiscar o lápis, passa de um quarto de hora que seu pensamento são palavras sobre palavras. E a frase de Atanásio Baptista que não o sossega diz: perdedores contam histórias surdas à História.

A sordidez desse jogo é óbvia: desafiá-lo a derrotar-se; pô-lo contra a inércia de seguir nessa balada de ser farol queimado pela madrugada afora; como quem vive embriagado pelo mundo, naufragar.

Madrugada, tenha dó.

Quer a lucidez de sentir-se ao timão, mas redemoinhos o enovelam em pensamento. Sem a finalidade pela qual trabalha, vai afundar longe das bordas; em meio à névoa que esconde o cais, mesmo de estômago vazio, regurgita, arrota, dá voz ao vazio.

No entanto, madrugada, vem aí mais uma alvorada.

Já se anuncia o dia, que a aurora se deleita a espraiá-lo; por sobre montes, vales e parabólicas, o dia dá outra luz à noite.

A que podia ter sido outra ― se menos silenciosa, menos asfixiante ―, tal noite não vingou. Houve excessivo silêncio, e ideias desconexas abalroavam a nau. Sopesando as forças, tendo em síntese que a nave redundará em naufrágio, há motim.

Sem vontade de balançar-se na cadeira, passa pela varanda, vai lá fora um instante, senta-se no meio-fio.

Ele percebe, algo está diferente.

O caminhão passa devagar, os trabalhadores usam tampões, a rua vai sendo lavada, afinal o asfalto limpo de impurezas diminui o atrito, a via pública limpinha excita, que os automóveis circulem mais velozes, que as freadas abruptas ocorram com maior frequência, que o tempo de vida útil dos pneus seja menor, que a indústria fabrique-os mais e mais, que os operários trabalhem mais e mais, que a grana extra seja gasta no comércio, que as lojas abram mais cedo, que os empregados entrem mais cedo, que as pessoas acordem antes que amanheça, que a gente distraída pelos sonhos descuide-se dos próximos passos, que haja atropelamentos, que o caminhão venha lavar o sangue, que a rua fique limpinha enquanto possa, que o poder seja exercido dignamente, que toda gente exerça o direito de optar, ou pela velocidade ao volante ou pelo impacto instantâneo.

Todavia, a hora é outra.

Abanando o rabo, os cães que não latiram de madrugada são eles mesmos a lamber as mãos que lhes coçam a cabeça.

Abanam o rabo, lambem e continuam sem latir.

Vem um bêbado, andarilho, maltrapilho, ensebado, vem dar-lhe um cigarro, já aceso, já tragado, passa-lhe o cigarro já babado; ele o pega, traga e, já menor e mais babado, repassa-o ainda aceso.

O bêbado maltrapilho que usufrui dos atalhos do mundo, dele, ainda que vá indo devagar, não se sabe qual seja a sua voz.

No pique, Atanásio, são os vencedores que compartilham mil vezes esta verdade: todo mundo sabe que motoristas que fumam têm maior chance de ficarem livres da identificação formal de gente atropelada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de janeiro de 2025.

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