quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Bela viola

 

Bela viola

 

Terei ouvido pollo? O garotinho no carrinho, em pé entre bananas e maçãs, terá mesmo dito ‘polho’? Apontando para a verdura, ele disse novamente à mãe: eu quero comer piolho.

O seu pedido não era por pollo nem por polho nem por piolho, era, sim, pelo manjadíssimo repolho.

Um pequerrucho pedindo para comer verdura é novidade para mim, pois ainda hoje, já sendo eu um marmanjo de cavanhaque grisalho, as goiabinhas seguem em alta na minha dieta.

E lá vou eu. Às gôndolas, lá vou eu pegar fritas, amendoim e a dita cuja, a goiabinha da marca que eu como.

Ressalve-se: é preciso tomar o cuidado para não fazer propaganda gratuita; algo que sempre faço, mesmo com a bolacha de maisena cuja marca não mencionarei, ainda que esteja sempre fresquinha.

Fresca na mente é a finalidade maior deste dia: não adiar a reforma da casa da árvore.

Baixei as tábuas, medi-as, comprei-as já aparelhadas e coloquei-as no lugar ― trabalho ao qual me dediquei, pela manhã e à tarde.

Findo o serviço, sentei na área externa da casa: balancei as pernas; não vi a Liga dos Campeões; à vontade, bebi água.

No cubículo coberto, além do sofazinho da sesta e do micro-ondas para pizzas, o galão de água mineral vazio é trocado pelo cheio.

Então, dá-se o incrível.

Entre minha residência e a jabuticabeira onde me encontro, desce aquele troço.

Bato a foto e o Google identifica: este objeto voador é uma aeronave vertical elétrica.

Da engenhoca, sai um escritor cujo nome não citarei, para não levar um processo por chamar a personagem de Ricardo Lísias.

Em seguida, sai aquela personagem que o Ricardo Lísias atreveu-se a chamar de Eduardo Cunha, mesmo não sendo aquele político que está solto por decisão judicial.

Atrás da personagem que não é o Eduardo Cunha solto por decisão judicial sai da máquina futurista uma personagem togada, cujo nome é homônimo daquele juiz togado, precavendo-se de não citar seu nome, para não haver confusão com o verdadeiro Alexandre de Moraes.

Atrás da personagem que não é o verdadeiro Alexandre de Moraes sai do aparelho elétrico mais pesado que o ar a personagem cujo nome é Policarpo Quaresma, conforme decisão autoral de Lima Barreto.

Atrás do Policarpo Quaresma batizado por Lima Barreto aparece o suposto Lima Barreto, que não para de borrifar com uma bomba de flit, gritando sem parar:

Saúva! Saúva! Saúva! Saúva!

O que mais poderia desafinar este nosso allegretto?

Se a minha imaginação tivesse a coragem de enfrentar o meu tédio, se eu fosse menos plagiador, eu mudaria a pantomima felliniana, pois é patética a situação: as personagens que saíram, todas contornam o veículo aéreo e, não saindo nenhuma nova personagem, todas entram outra vez naquele objeto voador e, por onde veio, o troço regressa ao espaço, sumindo na brasileiríssima noite escura.

Cidadão que me lê, que finalzinho bem tosquinho, né?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de janeiro de 2025.

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